Venho, por este meio, apresentar uma reclamação formal relativamente à minha experiência enquanto utente nessa clínica, por considerar terem existido situações graves de desigualdade de género, falta de ética profissional, ausência de informação transparente e insuficiência de acompanhamento técnico adequado.
Desde o momento da admissão, foram impostas às mulheres regras extremamente restritivas relativamente ao vestuário, sem que essas informações tivessem sido previamente comunicadas antes da entrada na clínica. As utentes estavam impedidas de usar tops de alças, camisolas ou camisas com qualquer tipo de decote, bem como calções acima do joelho. Inclusive, na época balnear, na piscina, apenas era permitido o uso de fato de banho. Acresce ainda o facto de as mulheres não poderem manter uma conversa com um homem sem a presença de um terceiro elemento.
Contudo, os homens utentes não estavam sujeitos a qualquer tipo de restrição semelhante relativamente ao vestuário ou interação social, o que considero uma clara situação de desigualdade de género e discriminação.
Quando questionei a psicóloga sobre o fundamento destas regras, foi-me referido que as mesmas se deviam a situações ocorridas anteriormente na clínica. Contudo, manifestei a minha opinião de que, caso tenham existido incidentes no passado, os mesmos refletem uma falha de supervisão e controlo por parte da administração e não devem justificar medidas discriminatórias dirigidas exclusivamente às mulheres.
Foi igualmente informado, antes da admissão, que existiria assistência médica disponível 24 horas por dia, informação essa que não corresponde à realidade. Na prática, apenas existiam os chamados “monitores”, muitos deles ex-adictos tratados na mesma clínica, sem formação na área da saúde. A assistência prestada em situações de urgência limitava-se, segundo o que foi transmitido, a contactar o 112, exatamente como qualquer pessoa faria em casa.
Estamos a falar de uma clínica com mais de 40 utentes, onde frequentemente a monitorização diária era assegurada maioritariamente por apenas dois utentes em tratamento, designados como “grupo líder”, por serem considerados os mais assertivos do grupo. Considero extremamente preocupante que responsabilidades de acompanhamento e controlo recaíssem sobre pessoas igualmente em processo terapêutico, sem qualificações técnicas adequadas.
Durante várias sessões de terapia de grupo, presenciei a psicóloga, Médica: CATARINA CUNHA (65592), utilizar expressões como: “isto aqui é para doer, tem que doer”. Em 15 anos de acompanhamento psicológico e psiquiátrico, nunca ouvi semelhante abordagem por parte de profissionais de saúde mental.
Os utentes que procuram tratamento para dependências procuram igualmente apoio para lidar com traumas, impulsos, baixa autoestima, ansiedade e sofrimento emocional. Ouvir este tipo de discurso provocou em mim um profundo sentimento de falta de ética, empatia e respeito perante pessoas vulneráveis e em tratamento.
Somos pessoas com problemas de adição, não somos animais — e nem os animais devem ser tratados com imposição, arrogância ou jogos psicológicos. Este tipo de comportamento apenas reforça a perceção de ausência de ética profissional dentro da instituição.
Apesar de ter permanecido apenas quatro dias na clínica, esse período foi suficiente para reconhecer a falta de técnicos devidamente qualificados para a quantidade de utentes presentes, bem como a insuficiência de acompanhamento adequado em momentos críticos. Tive episódios de ansiedade e ataques de pânico sem o devido apoio especializado.
Posso ainda referir que o meu familiar, identificado como tutor, contactou diariamente a clínica, sem nunca receber qualquer feedback relativamente ao meu estado emocional ou psicológico, nem sequer uma palavra de incentivo ou orientação sobre a continuidade do tratamento.
No dia em que manifestei a intenção de desistir do internamento, por perceber que a realidade da clínica não correspondia ao que me tinha sido apresentado inicialmente, não houve qualquer tentativa de diálogo, avaliação clínica ou acompanhamento no sentido de compreender a minha decisão. Pelo contrário, foram imediatamente apresentados os documentos de desistência e contactado o meu familiar para me ir buscar.
Acresce ainda que, dois dias antes da minha saída, solicitei autorização para contactar a minha psicóloga do CRI de Gondomar, pedido esse que me foi recusado sem qualquer justificação aceitável. Estando eu a necessitar de acompanhamento, e sem o ter, e terem simplesmente respondido que não havia contatos para médicos externos à clínica.
Considero que todas estas situações demonstram falta de transparência, falhas graves no acompanhamento terapêutico, ausência de condições adequadas para os devidos tratamentos e práticas discriminatórias incompatíveis com aquilo que se espera de uma instituição desta natureza.
Solicito, assim, que esta reclamação seja analisada com a devida seriedade e que sejam tomadas medidas para averiguar as práticas adotadas nesta clínica, de forma a garantir a dignidade, segurança e igualdade de todos os utentes.
É de lamentar uma clínica receber pessoas a necessitar de acompanhamento diário, e poder dizer que em apenas 5 dias que estive, foram o suficientes para passar tudo isto.
Ajuda, tratamento, inclusão, acompanhamento e outras coisas mais, foram coisas que posso dizer que não obtive!
Já para não falar que tratasse de uma clínica em que se paga para lá estar, e ainda assim existe todos estas questões negativas a apontar.