Florestas: guardiãs de carbono ou combustível para queimar?

Publicado a 05 janeiro 2026
João Gonçalves
João Gonçalves Presidente da Direção do Centro PINUS

Sabia que as florestas são um dos nossos maiores aliados no combate às alterações climáticas? Capturam carbono da atmosfera e armazenam-no no seu interior — não apenas nas árvores, mas também no solo e, mais tarde, nos produtos feitos com madeira.

João Gonçalves
João Gonçalves Presidente da Direção do Centro PINUS
iStock Floresta e CO2
Está nas nossas mãos enquanto consumidores e eleitores decidir se queremos florestas que nos ajudem a combater a crise climática ou políticas que criam problemas ambientais e ameaçam empregos na transformação de madeira.

Móveis, casas ou embalagens em que recebe as encomendas são exemplos de produtos onde esse carbono pode permanecer por décadas. Mas este círculo virtuoso está em risco.

Em Portugal, uma parte significativa da madeira está a ser queimada para produzir eletricidade, de forma muito ineficiente, em centrais a biomassa. Ainda mais expressiva é a exportação de pellets para centrais localizadas em outros países europeus, uma queima indireta da madeira.

É muito comum a perceção social e mesmo as alegações comerciais dos produtores de pellets de que estas são produzidas com "resíduos" e até que contribuem para "limpar as florestas", com isso contribuindo para prevenir incêndios. A realidade é chocantemente diferente: só é possível produzir pellets com a qualidade exigida pelas caldeiras precisamente com os mesmos troncos com que são produzidos móveis e casas.

No nosso país, a madeira com propriedades mais adequadas para os produtores de energia é o pinheiro-bravo. Anualmente, cerca de um quarto da madeira de pinheiro-bravo consumida no nosso país tem sido transformada em energia, com incentivos nacionais e europeus pagos por todos nós, através da fatura da eletricidade e dos nossos impostos, com exceção dos pellets para uso doméstico. 

Aparentemente, parece uma solução amiga do ambiente. Mas há um problema: ao queimar madeira, libertamos imediatamente o carbono que a árvore demorou anos a fixar. Ou seja, voltamos a emitir para a atmosfera o que poderia continuar armazenado. A queima de biomassa florestal pode ser classificada como "renovável", mas está longe de ser sustentável, porque os ciclos de crescimento das florestas duram décadas. Assim, ainda que as árvores abatidas para queima possam ser substituídas por outras, o processo não é suficientemente rápido.

Este não é um alerta isolado. O Centro PINUS, ao nível nacional, tem tomado posições conjuntas com a ZERO, a par de uma crescente contestação internacional, como a expressa pelo Biomass Action Network, uma coligação de mais de 200 organizações em 70 países, que denuncia os subsídios públicos à queima de madeira como "danosos para o clima, a biodiversidade e as comunidades".

O recente relatório Burning Billions for Biomass revela que milhares de milhões de euros estão a ser canalizados para sustentar uma indústria que liberta mais CO2 do que os combustíveis fósseis que se propõe substituir. Em vários países, como os Países Baixos e a Polónia, a pressão da sociedade civil já levou à redução ou cancelamento destes apoios.

Há ainda fortes impactos no mercado. Os subsídios à produção de eletricidade com biomassa e pellets distorcem a concorrência. Empresas que transformam madeira com muito mais valor acrescentado e geram emprego veem-se prejudicadas por novos operadores que compram madeira apenas para queimar porque são apoiados por políticas energéticas.

Valorizar a floresta significa gerir melhor a floresta que temos e também acrescentar valor à madeira. É aí que se prolonga o sequestro de carbono e se cria valor económico, social e ambiental. 

Está nas nossas mãos enquanto consumidores e eleitores decidir se queremos florestas que nos ajudem a combater a crise climática ou políticas que criam problemas ambientais e ameaçam empregos na transformação de madeira.

Sabia que...?

Ao queimar madeira, libertamos imediatamente o carbono que a árvore demorou anos a fixar. Ou seja, voltamos a emitir para a atmosfera o que poderia continuar armazenado.

 

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