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Transporte escolar: ideias para treinar o corpo e evitar o automóvel

“As crianças não podem ficar sentadas, quietas e caladas horas a fio, em casa, na escola e no carro. Corpos ativos dão cérebros ativos através de emoções e sentimentos”, alerta Carlos Neto, especialista em desenvolvimento motor em entrevista. Não faltam ideias com pedalada, como os comboios de bicicleta. Conheça os projetos.

05 setembro 2022
Comboio de bicicletas para a escola com crianças acompanhadas por monitores em Lisboa, CicloExpresso do Oriente

CicloExpresso

O Manifesto dos consumidores para a mobilidade volta à estrada. O transporte escolar domina a 12.ª medida do nosso plano, que refere “meios coletivos de mobilidade escolar, de preferência, suaves ou por adaptação dos serviços disponíveis”. Lançado em outubro de 2021, o Manifesto foca cinco áreas e destaca 18 medidas para acelerar em nome do ambiente, sem deixar ninguém de fora. Nesta transição, há dois pontos críticos: a autonomia da criança e a segurança nos meios de deslocação. Desafiámos Alexandre Marvão, o nosso especialista, Carlos Neto, professor académico jubilado e uma referência mundial, e João Bernardino, consultor de mobilidade, a projetarem esta mudança.

Em 2018, o CicloExpresso foi reconhecido como uma história de sucesso pela Organização Mundial da Saúde, na promoção da atividade física na escola. 
Em 2018, o CicloExpresso foi reconhecido como uma história de sucesso pela Organização Mundial da Saúde, na promoção da atividade física na escola.

Caos de carros à porta da escola

Não existe uma escola em cada bairro, e, nos ciclos básicos, deveria existir. Segundo Alexandre Marvão, esta é uma premissa para criar comunidades fortes e contribuir para o desenvolvimento de crianças saudáveis, com os olhos no futuro. Com uma rede escolar de proximidade, seria fácil reduzir grande parte das necessidades de mobilidade e aumentar as deslocações a pé ou de bicicleta. Com mega-agrupamentos escolares, “desfavoreceu-se a organização, desmembraram-se comunidades e geraram-se deslocações grandes”.

Não são necessários estudos para se perceber que o congestionamento de automóveis está relacionado com os períodos letivos. Todos acabam por sair ao mesmo tempo para respeitarem o horário escolar, não sendo possível dispersar as deslocações pendulares, rumo ao trabalho. E aumenta-se a complexidade das deslocações, só geríveis pelo transporte individual. Se os pais não tivessem de levar as crianças, seria possível optar por outros meios (transporte coletivo, a pé, de bicicleta), estando só dependentes deles e podendo fazer a viagem casa-trabalho em horários menos densos. O congestionamento à porta da escola cria o primeiro pico de tensão do dia, com riscos de segurança, problemas de trânsito e stresse de pais e filhos.

Carlos Neto, professor catedrático jubilado da Faculdade de Motricidade Humana, afirma: “As crianças são vítimas do trabalho dos pais e não têm espaço nem tempo para serem autónomas. Na família, impera o medo e uma superproteção patológica.” 
Carlos Neto, professor catedrático jubilado da Faculdade de Motricidade Humana, afirma: “As crianças são vítimas do trabalho dos pais e não têm espaço nem tempo para serem autónomas. Na família, impera o medo e uma superproteção patológica.”
João Bernardino, criador dos comboios de bicicleta, realça: “Em 2010, comecei a usar a bicicleta na viagem para o trabalho. Era imbatível. Na altura, em Portugal, ninguém encarava a bicicleta como meio de transporte”. 
João Bernardino, criador dos comboios de bicicleta, realça: Em 2010, comecei a usar a bicicleta na viagem para o trabalho. Era imbatível. Na altura, em Portugal, ninguém encarava a bicicleta como meio de transporte.”

Viagem de carro porquê?

“Não tenho confiança e não há meios seguros para deixar o filho ir sozinho”: é a resposta mais comum dos pais. Os riscos são muitos, mas, quanto mais os miúdos forem protegidos, menos preparados estarão para “sair da casca”. A autonomia das crianças é a que os pais lhes conferem e incentivam. A distância é um problema, mas existem soluções, e podem ser desenvolvidas alternativas com grandes benefícios para o ambiente e para os mais novos.

Questionado sobre os efeitos de não deixar uma criança ir sozinha para a escola, Carlos Neto não hesita: “Não tem autonomia, não tem mobilidade. Mas vai ter problemas de saúde física, mental, social e emocional, e falta de conhecimento ecológico do local onde cresce e onde vive. É a falta de contacto com os espaços informais, os espaços que permitem o inesperado, que permitem desenvolver capacidade de adaptação: um sinal de trânsito, atravessar a estrada, andar no passeio, ser capaz de resolver problemas, apreciar a cidade.” O professor garante que é preciso reconstruir a cidade para todos, devolver a rua aos mais pequenos e deixar que estes testem riscos e limites. E, se uma criança passa a vida dentro do automóvel, “apenas fomenta a memória espacial no trajeto, mas não vive corporalmente as sensações fundamentais para o desenvolvimento motor, social, emocional e cognitivo. Isto impede o desafio e a criatividade… Andar de bicicleta é fundamental, tal como a descoberta dos lugares, o desenvolvimento da imaginação e a consciência da biodiversidade”.

Caminhada, bicicleta ou transporte público dedicado

Não há apenas uma solução. É possível contar com um grupo de alternativas, baseadas em mobilidade ativa e de transporte coletivo.

Entre os meios de transporte, as prioridades são claras: a pé, de bicicleta, transporte público com carreiras regulares adaptadas e, por fim, o transporte coletivo dedicado. Já existem projetos com monitores que garantem uma deslocação segura. Este sistema pode ser um bom empurrão no desenvolvimento da autonomia. Mas o método tradicional de deslocação com amigos e vizinhos é a solução mais eficaz e benéfica. E se for de bicicleta? Lisboa e Aveiro contam com projetos de sucesso, com circuitos acompanhados para deslocações seguras. Pode inscrever os seus filhos. A participação é gratuita.

João Bernardino viu o conceito aplicado em França, na Alemanha e no Reino Unido, mas nunca em Portugal. Por cá, até 2015, havia uma experiência de pédibus, ou seja, grupos de crianças que fazem o trajeto a pé, mas que acabou por não vingar. Quando o filho fez cinco anos e já sabia usar a bicicleta, João criou um comboio de bicicletas para a escola, o CicloExpresso do Oriente. Começou com uma escola em maio de 2015. Conversou com pais e uma colaboradora da Junta de Freguesia do Parque das Nações, responsável pela mobilidade. A junta apoiou a iniciativa, bem como a associação de pais e a comunidade local.

CicloExpresso do Oriente a pedalar há sete anos

Da ideia à ação passaram três meses, com a adesão dos pais. No primeiro dia, acompanharam dez crianças. A fim de dar um caráter especial, o comboio era feito à sexta-feira. Para muitos, foi a primeira vez de bicicleta. A iniciativa estendeu-se a Aveiro em 2017, onde surgiu o CicloExpresso de Barrocas. Mais tarde, a ideia “explodiu” em Lisboa, quando, inspirada nesta ação, a câmara municipal criou um programa de mobilidade com monitores e pais em mais escolas.

No transporte público existem carreiras que servem as escolas, mas alguns pais não se sentem confortáveis em deixarem os filhos em autocarros comuns, sem apoio. A solução pode passar pela inclusão de monitores e espaços reservados em certos horários, nos autocarros de carreiras regulares. Nos casos mais difíceis, a que o transporte existente não consegue dar resposta, ou quando o número de crianças é insuficiente, pode ser adotado o transporte dedicado, da partilha de veículo ligeiro a carreiras regulares.

Existem soluções. É preciso experimentar. Carlos Neto inquieta-nos sobre a qualidade de vida: “Todas as manhãs, milhares de automóveis não respeitam a velocidade junto à escola. Largam as crianças e vão buscá-las ao fim da tarde. A mobilidade é a palavra-chave. Mobilidade, independência, liberdade.”

Automóvel longe da escola

Retirar os carros da porta da escola é necessário pela segurança, pelo ambiente e pela saúde de todos. Libertar as crianças e devolver-lhes a rua é fundamental para o seu crescimento e desenvolvimento.

O Governo tem a obrigação de garantir os meios para que se implementem programas locais de transporte escolar, seja a pé, de bicicleta ou noutros meios coletivos de transporte, sempre que as distâncias assim o exijam.

As autarquias devem analisar, com as comunidades escolares, as soluções mais adaptadas às necessidades e desenvolver os programas de transporte escola a escola, e garantir que todos são comunicados aos pais.

As escolas terão de envolver toda a comunidade nas questões de mobilidade sustentável.

Os pais devem conhecer e planear os sistemas a adotar, para garantir a autonomia e a segurança dos filhos. E devem incentivá-los a adotarem novos meios de deslocação para a escola.

Os filhos podem ser os embaixadores de um novo paradigma de mobilidade, mais saudável e ambientalmente mais sustentável.

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