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Bulas dos medicamentos: portugueses preferem o folheto em papel

A indústria farmacêutica quer acabar com a bula dos medicamentos em papel, substituindo-a por um código QR. E até diz que tem estudos a provar que os utilizadores preferem o folheto em papel. O inquérito da DECO PROTESTE diz o contrário.

15 dezembro 2022 Exclusivo
Doente a ler o folheto do medicamento

iStock

Ao longo dos anos, a DECO PROTESTE muito se bateu para que a bula dos medicamentos fosse melhorada. Informação completa, sem perder de vista a clareza, a boa organização e a facilidade na leitura, foi o que reclamou junto das autoridades europeias, tendo participado de grupos de discussão que levaram à mudança da legislação. Hoje, o folheto informativo é um direito consolidado. Mas, em sociedades pressionadas pela questão ambiental e que, também por isso, se encontram em processo de transição digital, discute-se se ainda fará sentido o formato em papel.

A indústria farmacêutica tenta forçar o abandono da solução tradicional, propondo em troca um código QR na embalagem. Uma aplicação no telemóvel lê o código e abre uma página na internet com a informação. Anunciam-se vantagens – e invocam-se estudos, de que o STADA Health Report 2021 é exemplo, a alegar que os utilizadores preferem o digital. Mas este estudo não revela aspetos metodológicos vitais para validar os resultados, como a idade, as condições socioeconómicas ou até o número dos inquiridos.

Como decidir, então? Se olharmos apenas ao ambiente, a resposta é uma. Se tivermos em conta certos grupos populacionais, sem acesso à internet ou com dificuldades no digital, terá de ser outra. Porque informação é também segurança no uso dos medicamentos.

A DECO PROTESTE conduziu um inquérito nos meses de junho e julho de 2022, em parceria com as organizações de consumidores suas congéneres em Espanha, Itália e Bélgica, tendo recolhido as opiniões e as experiências de 4247 europeus dos 25 aos 79 anos. Os resultados a que chegou vão em sentido inverso ao das conclusões apresentadas pela indústria. E note-se que podem ser considerados tendências representativas da população de cada país.

Dos 845 portugueses que responderam, 89% preferem o papel e, para 84%, não deve ser substituído pelo código QR. Os resultados da DECO PROTESTE mostram que é precipitada a transição digital numa área tão sensível quanto a da informação sobre os medicamentos.

Folheto considerado útil durante o tratamento

Na era da internet omnipresente e que tudo sabe, o médico e o farmacêutico continuam a ser a fonte de informação preferencial para desfazer dúvidas sobre medicamentos. O inquérito da DECO PROTESTE revela que o médico é sobretudo procurado a propósito dos fármacos sujeitos a receita, opção de 67% dos inquiridos, e o farmacêutico para esclarecer sobre os de venda livre (42 por cento). O folheto em papel é a fonte escolhida em, respetivamente, 13% e 16% dos casos de medicamentos sujeitos a receita e de venda livre, enquanto a net tem procura marginal.

A bula adquire especial relevância na primeira vez em que um medicamento é tomado. A esmagadora maioria dos portugueses diz consultá-la, independentemente de tomar o fármaco por prescrição do médico, conselho do farmacêutico ou automedicação. A leitura em tomas seguintes é dispensada.

Nesta leitura, o formato em papel é o preferido. As razões? Para 72%, o acesso é mais prático assim, e 22% justificam a escolha com hábitos sedimentados. Os inquiridos que preferem o código QR são ainda uma minoria, representando 4% do total. Mas não se pense que a resistência ao digital em matéria de folhetos seja uma particularidade nacional. O formato recolhe a preferência de apenas 10% de belgas, 8% de espanhóis e 5% de italianos.

Embora o folheto seja mais importante no primeiro contacto com o medicamento, não significa que a partir de então esteja destituído de interesse. A DECO PROTESTE observou que, quando experimentam efeitos adversos ligeiros, 63% dos inquiridos pesquisam informação na bula. Já em situações mais graves, evidentemente, o hospital é o local a que acorrem.

Da mesma forma, mais de metade dos inquiridos revelam já terem consultado o folheto a meio de um tratamento, para desfazerem dúvidas. A necessidade agudiza-se face a fármacos tomados esporadicamente: a consulta da bula para tranquilizar interrogações é seguida por 90% dos inquiridos. Buscam, em especial, informação sobre as indicações (51%) e, em menor grau, sobre efeitos adversos (38%) e contraindicações (33 por cento). São também estas as informações cuja presença no folheto consideram mais relevante.

Não deve, pois, surpreender que a grande maioria guarde o folheto durante um tratamento (78%), ainda que alguns afirmem deitá-lo fora depois da leitura inicial (19 por cento). Justificam-se com a inutilidade a partir desse momento ou a dificuldade em dobrar de novo o papel e acomodá-lo na caixa.

Portugueses querem bula fácil de ler

A compreensão deve ser imediata, a letra de bom tamanho. São estas as características que, segundo os inquiridos, os folhetos devem em primeiro lugar garantir. Tão-pouco devem descurar um tamanho suficiente para toda a informação importante, uma organização das secções intuitiva e frases não demasiado longas.

Apesar de a maioria dos inquiridos preferir o papel, o código QR não é propriamente um alvo a abater: 31% já o utilizaram, em questões de saúde ou não, com destaque para os que têm mais elevado nível educacional e idade até 52 anos. Ainda assim, a maioria dos participantes pensam que a bula em papel deve ser mantida, mesmo que o código QR esteja presente (88 por cento). Mas, se a substituição vier a ocorrer, pelo menos, as farmácias deverão fornecer o papel, se tal lhes for pedido (87 por cento).

A DECO PROTESTE compreende as hesitações dos cidadãos. Por uma questão de segurança, sobretudo no caso dos mais idosos, que são quem potencialmente mais usa os medicamentos, o folheto em papel deve manter-se, ainda que exista um código QR. É isso que a maioria dos europeus inquiridos quer. Ao lado dos 88% de portugueses, estão 81% de belgas, 78% de italianos e 75% de espanhóis.

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