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Parar para pensar numa nova normalidade na saúde

Na sexta edição das conferências “Parar Para Pensar”, organizada pelo Expresso e pela DECO PROTESTE, falou-se da saúde. O Serviço Nacional de Saúde ultrapassou as expetativas na resposta à covid-19, mas urge retomar todos os cuidados de saúde que foram interrompidos.

  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Fátima Ramos
09 julho 2020
  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Fátima Ramos
Conferência Papar para pensar Saúde DECO PROTESTE

Se há uma ideia que possa ser destacada do debate moderado por Rita Neves, jornalista da SIC, é a de que perante a crise sanitária de enormes proporções que se viveu ao longo dos últimos meses em Portugal, o Sistema Nacional de Saúde (SNS), e os profissionais de saúde, todos aqueles que direta ou indiretamente estiveram envolvidos na luta contra a pandemia de covid-19, excederam todas as expetativas. Nos vídeos abaixo, pode rever alguns momentos da conversa.

 

 

Autonomia na gestão hospitalar foi a chave do milagre português

Todos os participantes foram unânimes em concordar que o confinamento atempado e uma maior autonomia na gestão hospitalar permitiram dar resposta a uma situação que poderia ter levado ao colapso do SNS. Segundo Julian Perelman, professor da Escola Nacional de Saúde Pública, “os hospitais ganharam em 15 dias uma autonomia que não existiu nos últimos dez anos”.

Segundo Carlos Cortes, presidente da Ordem dos Médicos da Região Centro, o mérito foi de todos os profissionais de saúde que se colocaram de imediato na linha da frente, muitas vezes sem os meios e os equipamentos necessários, mas também dos agentes de proteção civil e do poder local, referindo que “Não houve um só Serviço Nacional de Saúde, mas vários serviços nacionais de saúde” no combate à crise sanitária.  

Julian Perelman acrescenta que o mérito não foi apenas do corpo médico, mas também dos gestores e administradores dos hospitais que, graças à autonomia que lhes foi dada, puderam encomendar o material e os equipamentos em falta, reorganizaram os serviços médicos, as equipas e os espaços de atendimento. Louvou ainda como ponto muito positivo a colaboração muito forte que se criou entre os centros de saúde e os hospitais. 

Após visitar vários hospitais públicos e privados, Carlos Cortes observou que cada unidade delineou estratégias diferentes para fazer face à pandemia e que os resultados foram muito positivos. Se houve uma multiplicidade de respostas, como nos diz Carlos Cortes, “todos os contributos tiveram muito êxito. […] O Sistema Nacional de Saúde tem a capacidade de se adaptar a situações de crise, independentemente de quem o lidera“.  

Importa, agora, não perder o que, com muito sacrifício, foi construído num espaço de tempo tão reduzido. Relativamente aos ganhos em autonomia, Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da saúde e professor da Escola Nacional de Saúde Pública, espera que “passada a fase aguda da pandemia, não haja uma recaída”. Alerta também para o facto de ser fundamental apostar no planeamento e na urgência de se encontrar uma nova normalidade no setor da saúde. 

Doentes não-covid esquecidos

Ao mobilizar todos os esforços no combate à pandemia, cerca de um milhão de consultas nos centros de saúde e 900 mil nos hospitais foram canceladas, lembra Adalberto Campos Fernandes.

Desde março, e a cada mês, ficaram por diagnosticar cinco mil casos de doença oncológica, devido à suspensão de consultas e de cirurgias na generalidade dos centros de saúde e hospitais, e também por receio dos pacientes em se dirigirem aos hospitais. Estes são alguns dos danos colaterais da covid-19 que levam a prever um impacto muito grave no futuro, com um aumento da taxa de mortalidade e de morbilidades, podendo ser essa a segunda vaga da covid-19. 

“É mais perigoso ficar em casa a “aguentar” a sua patologia do que ir ao hospital”, alertou o ex-ministro da Saúde. Lembrou que é seguro ir ao hospital e que não se deve adiar uma situação urgente, como um enfarte do miocárdio ou um AVC.

Como enfrentar os próximos meses?

Todos os participantes no debate referem que a covid-19 ainda não faz parte do passado e que teremos de aprender a viver com ela nos próximos meses. Para o efeito, temos de nos adaptar a uma nova normalidade na saúde. É normal que vão aparecendo casos e surtos na comunidade, devendo agir-se no terreno, sem alarmismos, no sentido de proteger as populações mais frágeis e desfavorecidas.

Se Julian Perelman, especialista em saúde pública, começou por apontar tudo o que correu bem no combate à pandemia, não deixou também de alertar para lacunas graves do Serviço Nacional de Saúde, que já existiam antes da covid-19: a dificuldade de planeamento e as falhas ao nível do sistema de informação. Não percebe por que razão alguns hospitais, sem sobrecarrega de doentes com covid-19, cancelaram as consultas e cirurgias de doentes com outras patologias.

Os hospitais mais disponíveis devem ser chamados a assegurar as tarefas dos que se encontram sobrecarregados. É urgente que haja um melhor planeamento e articulação entre unidades de saúde, para retomar, quanto antes, milhares de consultas, exames de diagnóstico e cirurgias cancelados ou adiados.

Segundo Carlos Cortes, o grande desafio do SNS é, agora, retomar e garantir os cuidados das outras patologias, ao mesmo tempo que se acompanha os doentes covid, que poderão precisar de cuidados a longo prazo. 

Julian Perelman, por seu lado, mostra-se preocupado com o facto de a solução apontada pelo Governo para aumentar a produtividade nos cuidados na saúde passar por um aumento dos incentivos: “Só com incentivos não chegamos lá”, afirma. É preciso autonomia, planeamento e responsabilização, defende. Para determinar a atividade que cada hospital pode desenvolver e como pode fazer parte da solução pós-covid, Perelman refere ser essencial iniciar um diálogo, repartir os cuidados de saúde relativos aos doentes covid e não-covid, dentro de cada hospital e entre hospitais, com circuitos bem definidos, normas de segurança e higiene a cumprir e meios para isso. Cada hospital deve assumir compromissos e deve haver responsabilização.

Ricardo Raminhos, administrador executivo na MGEN Portugal, alerta para o facto de os seguros privados se terem esquivado a financiar as enormes despesas com a pandemia. Devem, diz, ser chamados a fazer parte da solução. Lembra que um terço das despesas da saúde estão a cargo das famílias e que esse fardo é muito pesado para muitos agregados, com muitas pessoas desfavorecidas impedidas de ter acesso a cuidados de saúde. Segundo Ricardo Raminhos, é urgente legislar esta proteção incompleta dos seguros privados de saúde. Todos, sistemas públicos, associações mutualistas e seguradoras privadas, deviam reger-se pelos mesmos princípios e partilhar o fardo com a saúde da população.

A conferência “Parar para Pensar” onde se debateu a saúde aconteceu no dia 8 de julho, na página do Facebook do Expresso.

 

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