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Osteopatia: ainda há dúvidas quanto à sua eficácia

Estudos recentes revelam que as dores de costas são as únicas que parecem beneficiar deste tratamento não-convencional, que, face às restantes doenças, não tem mostrado eficácia. A comunidade científica continua a exigir mais provas dadas.

  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Cláudia Sofia Santos
08 outubro 2020
  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Cláudia Sofia Santos
Terapeuta a endireitar as costas a uma paciente

iStock

Dores nos ossos, articulações e músculos são bastante debilitantes. Por isso, muitos recorrem a um tratamento não-convencional que se diz capaz de tratar, e até curar, grande parte destas e de outras doenças, com recurso a técnicas manipulativas: a osteopatia. 

Legalmente reconhecida em Portugal desde 2003, anos depois da reivindicação da DECO PROTESTE nesse sentido, a osteopatia deve ser praticada por profissionais credenciados e é considerada uma alternativa às terapias da medicina convencional.

Baseia-se no princípio de que o bem-estar do indivíduo depende do bom funcionamento conjunto de ossos, músculos, ligamentos e tecido conjuntivo. O objetivo, segundo descreve a lei, é diagnosticar, tratar e prevenir distúrbios neuromusculoesqueléticos e outras alterações relacionadas. A crença de que o organismo tem um mecanismo de regeneração inato, que lhe permite manter-se saudável, resistir e recuperar das doenças, é central nesta terapia. No entanto, e apesar de todas as alegações, as provas ainda ficam aquém do que a comunidade científica exige. 

A maioria dos estudos apresentados não têm qualidade, caracterizam-se pela falta de dados e envolvem um grande risco de distorção de resultados, uma vez que têm limitações metodológicas graves.

Eficácia da osteopatia por comprovar

Esta terapêutica manipulativa é sobretudo utilizada, de forma complementar, no tratamento de doenças relacionadas com os músculos, os ossos e as articulações, como dores do pescoço e costas, artrite, problemas da pélvis, ancas e pernas, associados à (má) postura ou lesões desportivas. Mas também diz tratar enxaquecas, sinusite, asma ou fibromialgia. 

O equilíbrio entre as alegações e a eficácia comprovada é que é difícil manter. Não existem evidências científicas de qualidade suficiente que sustentem a utilização da osteopatia no alívio, ou até na cura, de algumas das patologias que se propõe. Mesmo que, em alguns casos, como na dor lombar aguda ou crónica, ou em grávidas e no pós-parto, existam melhorias e ganho de funcionalidade, a qualidade dos estudos que sustentam estas alegações é baixa. Em resumo, a osteopatia parece ter utilidade para o alívio das dores lombares crónicas que perdurem há mais de seis semanas. Para outras situações, não existem provas contundentes. 

Quais os efeitos secundários?

A osteopatia é vista como uma terapia segura, mas isso não significa que esteja isenta de efeitos secundários. A maioria dos estudos centra-se na segurança da manipulação da coluna e, nesse sentido, foi reportado algum desconforto após os tratamentos, nomeadamente dor local ou de cabeça, e cansaço. Trinta a 60% dos pacientes afirmam ter sintomas quatro horas a seguir aos tratamentos. Após 24 horas, aqueles desaparecem. 

Ao dia de hoje, não é possível chegar a uma conclusão definitiva sobre a segurança da manipulação da coluna. É, por isso, importante que o profissional informe o doente de todos os possíveis efeitos secundários, antes de aplicar as técnicas.

O que diz a lei sobre esta terapia

A legislação impõe formação académica superior aos terapeutas. Contudo, foi aprovada uma lei transitória em 2019, que permite, a quem já exerça a terapia e não tenha estudos superiores na área, candidatar-se à carteira após avaliação curricular da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). É ainda necessário ser titular de carteira profissional emitida pela ACSS e de um seguro de responsabilidade civil para cobrir eventuais danos causados aos doentes. Está disponível uma base de dados online com os terapeutas credenciados, onde o consumidor pode confirmar se determinado profissional tem cédula válida. 

O perfil de um bom terapeuta

O exercício da profissão foi legislado e os requisitos para a formação e o acesso à carteira profissional regulamentados. Segundo a lei, do perfil de um osteopata, devem constar conhecimentos de fisiologia, patologia e psicologia, de princípios da biomecânica e das técnicas osteopáticas. Deve ter também conhecimentos aprofundados das indicações e contraindicações dos tratamentos osteopáticos, assim como de comunicação interpessoal e ciências comportamentais. 

Um bom terapeuta deve ainda ser capaz de prestar informações, aos pacientes e ao público em geral, sobre a promoção da saúde e a prevenção de doenças, aconselhando posturas corretas, exercício físico e hábitos alimentares. E deve reconhecer as situações em que as queixas do paciente sejam indicadoras de patologias fora do âmbito da osteopatia, recomendando a medicina convencional. 

Sempre que houver reações adversas aos tratamentos, deve saber reconhecê-las e intervir. Por último, não deve criar falsas expectativas face aos resultados, nem tratar quem veja que não é suscetível de melhoria com as suas práticas. 

O que esperar de uma consulta

Quando um paciente entra pela primeira vez no consultório de um osteopata, este deverá levar a cabo uma pormenorizada recolha de informação médica, psicológica e social (anamese). O paciente é visto como um todo, e o osteopata realiza um exame clínico dito holístico. Depois, são escolhidas as técnicas terapêuticas adequadas ao caso de cada paciente, sendo este tratamento reavaliado a cada consulta, através de testes preliminares.

Se as boas práticas forem cumpridas, os tratamentos são realizados de forma suave, não agressiva nem traumática. O osteopata utiliza somente as mãos para alcançar um suposto efeito terapêutico, alegando providenciar aos pacientes as ferramentas de que precisam para restaurar e manter o natural estado de regeneração. No fundo, o que o osteopata irá propor é diagnosticar doenças e restaurar as funções de ligamentos, músculos, tendões, órgãos e até de células, somente utilizando as mãos no corpo, puxando, esticando e manipulando diferentes partes. A comunidade científica questiona. Apesar de impressionante, como é possível? 

Cuidados especiais com alergias e doenças

Pessoas que apresentem problemas de saúde como osteoporose, fraturas ósseas, hérnias ou cancro não devem recorrer à osteopatia. A manipulação da coluna vertebral, dos ossos, das articulações ou dos nervos, nestas circunstâncias, está contraindicada, porque aumenta o risco de lesões. Devem ser honestas com o terapeuta, e revelar todas as informações sobre o estado de saúde e os medicamentos que tomam, nomeadamente anticoagulantes, como a varfarina.

Da mesma forma, quem tem propensão para alergias ou pele sensível deve avisar o terapeuta logo na primeira sessão. Regra geral, os osteopatas recorrem a óleos ou cremes, para facilitar a manipulação do corpo e a aplicação das técnicas manuais. E estes óleos ou cremes podem causar reações alérgicas. Cuidado extra: se, depois dos tratamentos, costuma sentir cansaço extremo, peça para que os tratamentos sejam agendados de modo a não ter de executar tarefas exigentes em termos físicos logo de seguida, como conduzir ou operar maquinaria pesada.

Osteopatia em crianças

A osteopatia é cada vez mais procurada para tratar doenças infantis, especialmente aquelas que afligem os bebés. As cólicas e as otites são as duas principais razões que levam os pais a recorrerem a tratamentos osteopáticos. No entanto, e à semelhança das conclusões apuradas nos estudos referentes a outras doenças, não se conseguiu comprovar a eficácia nem a segurança dos tratamentos em queixas pediátricas.

A qualidade dos estudos é, mais uma vez, baixa e os resultados mostram-se difíceis de interpretar. 

As terapias alternativas e os seguros de saúde

Os seguros de saúde, no âmbito da cobertura de assistência ambulatória, só comparticipam especialidades médicas reconhecidas pela Ordem dos Médicos. Contudo, a maior parte das apólices permite o acesso a redes de bem-estar, que integram serviços muito diversificados, onde se englobam as terapias alternativas, como a osteopatia. 

Nestas redes, encontram-se unidades ou prestadores de serviços que permitem o acesso a consultas e tratamentos de osteopatia a preços convencionados (com desconto).

Despesas dedutíveis em IRS?

A osteopatia está isenta de IVA e é considerada despesa de saúde, desde que seja exercida por terapeutas detentores de cédula profissional (condicionada à titularidade do grau de licenciado), emitida pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Esta condição também se aplica a outras terapêuticas não-convencionais, como a
naturopatia e a homeopatia.

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