Dicas

Como identificar e tratar problemas de tiroide

Mais de um milhão de portugueses sofrem de distúrbios da tiroide. Pouco específicos, os sintomas atrasam muitas vezes o diagnóstico e o tratamento.

  • Dossiê técnico
  • Anabela Jorge e João Oliveira
  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Filipa Nunes
14 janeiro 2020
  • Dossiê técnico
  • Anabela Jorge e João Oliveira
  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Filipa Nunes
ilustração sobre tiroide

iStock

Sonolência, oscilações de peso, alterações de humor, ansiedade ou depressão, maior sensibilidade ao frio ou ao calor, queda ou enfraquecimento do cabelo ou palpitações são alguns sintomas de problemas na tiroide. Como podem ser atribuídos ao ritmo da vida, muitos pacientes não valorizam os sinais que o corpo envia e não procuram logo ajuda médica, o que atrasa o diagnóstico e os tratamentos.

Como funciona a tiroide?

A tiroide é uma glândula situada na base do pescoço. Produz hormonas que regulam o metabolismo, intervindo em quase todos os órgãos: coração e frequência respiratória, velocidade de produção de energia, movimentos intestinais, aspeto da pele, cabelo e unhas, libido e regulação dos ciclos menstruais, cérebro e sistema nervoso, músculos, crescimento e manutenção da massa óssea.

O hipotálamo, a hipófise e a tiroide são os principais atores em cena: a produção de hormonas pela tiroide é regulada por outra hormona segregada pela hipófise. Esta, por sua vez, é controlada por uma terceira, libertada pelo hipotálamo.

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Funcionamento da tiroide. Ilustração de CarlosRibeiro/Inspirart
Se a tiroide não funcionar corretamente, gerando um défice ou um excesso de hormonas tiroideias, é preciso tomar medicamentos para reencontrar o equilíbrio físico e mental. É igualmente importante estar atento a alterações, como um aumento do volume da glândula (bócio) ou à presença de nódulos. Em cerca de 5% dos casos, estes podem evoluir para cancro. Na maioria, não são preocupantes e apenas requerem vigilância uma ou duas vezes por ano.

Falta de iodo raramente é a causa

O iodo é essencial para o bom funcionamento da tiroide. Uma vez que o nosso corpo não tem capacidade para produzir este mineral, devemos obtê-lo através de alimentos como peixe, marisco, lacticínios e ovos. O sal iodado é também uma boa fonte. Em geral, as necessidades em iodo são baixas, sendo fácil supri-las através da dieta.

No caso das grávidas e das mulheres que amamentam, pode ser mais complicado, pelo que a Direção-Geral da Saúde recomenda a toma de suplementos. A carência de iodo durante a gestação e nos primeiros anos de vida pode originar malformações no feto e atraso no crescimento e no desenvolvimento mental. O teste do pezinho, realizado aos recém-nascidos, inclui o rastreio de hipotiroidismo congénito. Não existindo carências de iodo, por que são os problemas de tiroide tão frequentes? Não há uma resposta clara. 

Os problemas de tiroide podem ser hereditários. Afetam sobretudo mulheres e aumentam com a idade. Em geral, há hipo ou hipertiroidismo na família, sendo quase sempre de origem autoimune. Neste caso, o corpo interpreta a tiroide como inimiga e produz anticorpos que a atacam. A exposição a radiações (radioterapia na zona da cabeça e do pescoço) e a administração de medicamentos, como o Interferon, para a hepatite C, e produtos de contraste, usados em exames como TAC e ressonâncias, são outras causas possíveis. O excesso de tratamentos para hipotiroidismo também é uma causa possível de hipertiroidismo e vice-versa.  

Tipos de disfunções da tiroide

Hipotiroidismo ou a vida em câmara lenta

tiroide

Surge quando a tiroide não produz hormonas em quantidade suficiente, o que causa uma lentidão generalizada das funções do organismo. A tiroidite de Hashimoto é a causa mais frequente, representando 70% dos casos. 

Manifestações

  • Cansaço e sonolência
  • Aumento do volume da tiroide (bócio)
  • Baixa frequência cardíaca ou falta de ar
  • Frio
  • Dores musculares, articulares e de cabeça
  • Tonturas
  • Lentidão da fala ou rouquidão
  • Perturbações da memória e depressão
  • Ligeiro aumento de peso, inchaço corporal
  • Pálpebras inchadas
  • Falta de apetite
  • Queda de cabelo, unhas e cabelo quebradiços
  • Pele seca e fria
  • Obstipação, irregularidades menstruais
  • Anemia, colesterol elevado, hipertensão.

Como detetar

Níveis elevados das hormonas tiroideias no sangue (TSH) revelam o problema.

Tratamento

Implica a toma diária de levotiroxina, em comprimidos. A dose é adaptada à idade, peso e condição da pessoa. Quatro a seis semanas depois de iniciar a medicação, repetem-se as análises para ajustar eventualmente a dose. Uma vez acertada, volta-se a medir a TSH a cada seis ou 12 meses. O hipotiroidismo exige medicação para a vida.

 

Hipertiroidismo gera ritmo acelerado

tiroide 

Este problema aparece quando a tiroide liberta hormonas em excesso, o que acelera todas as funções do organismo. Em geral, a glândula aumenta de volume. A doença de Graves (autoimune) é uma causa frequente. O stresse, o excesso de iodo e os tratamentos em doses excessivas para hipotiroidismo também podem estar na origem da doença.

Manifestações

  • Palpitações e arritmias
  • Hiperatividade, tremor das mãos, irritabilidade e ansiedade
  • Tiroide com volume aumentado (bócio)
  • Problemas de concentração, insónias
  • Aumento do apetite, diarreia, perda de peso
  • Calor e transpiração excessiva
  • Aumento da frequência urinária
  • Pele fina e quente
  • Irregularidades menstruais e diminuição da libido
  • Enfraquecimento do cabelo e das unhas
  • Dores musculares
  • Olhos salientes e esbugalhados
  • Hipertensão e aumento do nível de açúcar no sangue.

Como detetar

Uma análise ao sangue, com valores baixos de TSH, confirma o diagnóstico.

Tratamento

O problema trata-se com medicamentos. Nalguns casos, são necessários fármacos para reduzir sintomas, como tremores e palpitações. Na doença de Graves é, por vezes, preciso recorrer a iodo radioativo ou cirurgia.

 

Nódulos quase sempre benignos

tiroide 

Podem surgir um ou vários nódulos palpáveis ou estes serem descobertos por acaso num exame da tiroide. São muito frequentes, sobretudo em mulheres, mas a maioria não causa problemas. Em cerca de 5% dos casos, há a possibilidade de serem cancerígenos, pelo que deve haver um controlo regular.

Manifestações

Por norma, não causam sintomas. Contudo, se forem grandes, podem comprimir as estruturas próximas da tiroide e originar rouquidão, dificuldades em engolir ou em respirar. Podem causar hipo ou hipertiroidismo. 

Como detetar

A história clínica e a palpação permitem detetar nódulos. Depois, é preciso fazer análises, para dosear a TSH, e uma ecografia. Pode ainda ser recomendada uma citologia sob anestesia local, para aspirar tecido para análise.

Tratamento

A maioria dos nódulos apenas exige um controlo anual. Se forem grandes, regra geral, opta-se por extraí-los. Em caso de cancro da tiroide, deve avançar-se para tratamento. Embora seja atualmente o terceiro cancro mais frequente na mulher, geralmente, é pouco agressivo. O tratamento passa por cirurgia, com remoção parcial ou total da tiroide e medicação para repor as hormonas tiroideias. Em situações mais graves, pode ser necessário recorrer a iodo radioativo, a radioterapia localizada e/ou a quimioterapia.

Medicação e vida saudável para gerir problemas de tiroide

Os problemas de tiroide são frequentes e os tratamentos bem conhecidos e tolerados pela maioria dos pacientes. No diagnóstico, uma análise ao sangue, para verificar os níveis da hormona TSH, é suficiente. No seguimento de uma situação clínica já diagnosticada de hipo ou hipertiroidismo, para controlo da medicação, pode medir-se também a hormona tiroideia T4 livre no sangue.

Uma vez encontrada a dose certa, os sintomas desaparecem e o paciente volta a ter uma vida normal e equilibrada, devendo continuar a fazer análises semestral ou anualmente. Pode ser necessário adaptar a medicação.

Nalguns casos de hipertiroidismo causados pela doença de Graves, pode ser necessário recorrer a tratamentos com iodo radioativo, por via oral (cápsulas), normalmente, administrados no hospital. Se as doses forem baixas, o paciente pode voltar para casa, mas terá de ter alguns cuidados para limitar a exposição à radiação de outras pessoas: recomenda-se que evite o contacto, em particular, com grávidas e crianças até dez anos. Nos seis a doze meses seguintes, as mulheres não devem engravidar. Nos homens, o tratamento pode reduzir a fertilidade durante dois anos. Quando aplicado a doentes com cancro da tiroide, a dose de iodo radioativo é mais elevada e requer internamento hospitalar e isolamento durante dois ou três dias. Este tratamento pode causar alguns efeitos secundários passageiros, como ardor no pescoço, enjoos e, muito raramente, vómitos.

A cirurgia para extrair parte ou a totalidade da tiroide é a solução mais radical. No seguimento, os doentes terão de tomar medicamentos para repor as hormonas.

Apesar de não haver medidas específicas para evitar problemas de tiroide, a alimentação variada e equilibrada e o exercício físico ajudam a manter as hormonas sob controlo. Em paralelo, convém estar atento aos sinais que o corpo lhe envia. Por mais que leve uma vida cansativa ou que associe certos males à idade, lembre-se de que as queixas também poderão dever-se a uma disfunção da tiroide. Um nódulo ou um aumento do volume da tiroide na base do pescoço também são motivo de consulta, mesmo que não causem sintomas.

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