Marcas low-cost poupam na fatura das telecomunicações
A LigaT e a DIGI vieram sacudir o mercado. Net fixa mais veloz, mais dados móveis, preços mais baixos, fidelizações mais curtas e contratação de serviços por módulos são consequências diretas. Mas os novos operadores ainda têm cobertura limitada.
Um triunvirato tem governado o mercado das telecomunicações. MEO, NOS e Vodafone escreveram as regras durante anos, com ofertas em tudo semelhantes, tanto em preço, quanto na composição dos tarifários, muitas vezes obrigando os consumidores a contratarem serviços desnecessários, inúteis e caros, como o telefone fixo ou dezenas de canais de televisão de interesse duvidoso. A fidelização de 24 meses, facilmente renovada por igual período, tornou-se um grilhão frequente, desenhado para dificultar a mobilidade da clientela entre operadores.
Como a toda a regra cabe uma exceção, a NOWO, antiga Cabovisão, conseguiu intrometer-se entre os três grandes. Mas foi tímida intromissão: as ofertas mais baratas dificilmente beliscavam a hegemonia do trio da frente, dada a cobertura limitada da NOWO.
Nos últimos anos, a muralha erigida pelos principais operadores tem, contudo, aberto algumas brechas. Novas marcas surgiram, de início mais focadas em tarifários móveis. Marcas, e não necessariamente operadores. As brechas têm sido, por vezes, autoinflingidas, receando a derrocada provocada por uma concorrência determinada. Se primeiro a LigaT, e depois, e sobretudo, a Digi vieram abanar as fundações do estático mercado, marcas como a Amigo, a Uzo e a Woo são avatares respetivos da Vodafone, da MEO e da NOS, criados para competirem no campeonato dos preços mais atrativos.
A partir do final do ano passado, as escaramuças concorrenciais trouxeram períodos de fidelização mais comedidos, preços mais leves e, em alguns casos, ofertas mais flexíveis. A revolução espoletada pelos novos operadores ainda não está completa. Mas, pela primeira vez em largos anos, é possível contratar serviços modulares, ou seja, que abrangem apenas as componentes que interessam a cada consumidor, a um preço justo, e não aquilo que os operadores impõem, durante um prazo com tendência para a eternização, sob pena de pesados castigos financeiros.
A DECO PROteste sempre foi clara na defesa de um mercado transparente e concorrencial, para benefício dos consumidores. Cabe-lhes agora estarem atentos às características das ofertas e garantirem a melhor opção para as suas necessidades. Todavia, também nesse aspeto, a organização de consumidores pode ajudar. Para encontrar o tarifário à sua medida, explore o comparador de telecomunicações da DECO PROteste.
LigaT e Digi trazem tarifários mais flexíveis
Primeiro, veio a LigaT, um operador sem afiliações aos grandes das telecomunicações e que ainda se encontra em expansão. Trouxe um modelo de negócio que passa pela oferta de infraestrutura física para internet fixa. Os seus serviços estão restritos a alguns municípios ao norte de Lisboa, como Bombarral, Caldas da Rainha, Ericeira, Leiria, Mafra, Malveira, Torres Vedras e Venda do Pinheiro, e outros dois ao sul do Tejo, mais concretamente, Montijo e Alcochete.
Com uma expansão gradual no terreno, a LigaT tem revelado poder de atração para clientes que não vivem nos grandes centros urbanos. A sua oferta de internet fixa e televisão, sem período de fidelização, foi um verdadeiro marco, que só não teve mais impacto dada a sua natureza regional, e não nacional.
Apesar destas novidades, foi a Digi quem veio verdadeiramente agitar as águas. O operador de telecomunicações com origem romena, que já se expandiu para vários outros países europeus, como Bélgica, Espanha e Itália, adentrou o mercado português no ano passado. Preços competitivos, flexibilidade na adesão e no cancelamento, e transparência na oferta são a receita do sucesso, num mercado tantos anos dominado pelo imobilismo.
Em Portugal, a Digi faculta serviços de fibra ótica e comunicações móveis. E a oferta é modular: o consumidor escolhe apenas – e paga – as componentes de que necessita. É o adeus aos pacotes recheados de caras inutilidades.
A cobertura está ainda limitada aos dois maiores centros urbanos: Lisboa e Porto. No entanto, a Digi procura expandir as suas operações a outras regiões do País, por meio de uma estratégia que combina infraestruturas próprias com parcerias.
Mais dados e mais velocidade por menos dinheiro: a análise da DECO PROteste
Marcas como Amigo, Uzo e Woo podem gerar a perceção de que a concorrência é mais diversificada do que realmente é. Conhecidas desde há alguns anos, quando começaram a instalar quiosques nos centros comerciais, estes avatares da Vodafone, da MEO e da NOS têm visado a contratação rápida, online ou presencial. E, ainda que não o destaquem oficialmente, prometem um serviço de qualidade idêntica à do dos operadores na sua génese.
Tarifários móveis com preços competitivos e fidelizações reduzidas ou ausentes eram os seus atrativos. A net fixa estava também disponível, com preços mais baixos do que os praticados pelas marcas-mãe, mas ainda com fidelizações de 24 meses.
O último trimestre de 2024, marcado pela chegada da Digi, obrigou a ajustes. As low-cost foram a arma escolhida para rivalizar com as ofertas da Digi e, ao mesmo tempo, manter o statu quo.
Nas low-cost, é certo, a net fixa encolheu a fidelização para três meses, os tarifários móveis com 100 GB caíram abaixo dos 10 euros e o serviço de televisão juntou-se ao bolo. Mas os tarifários das marcas principais sofreram pouco mais do que discretas novidades.
Que dizer destas movimentações táticas? O impacto das marcas low-cost é, sem dúvida, positivo. Mas a Amigo, a Uzo e a Woo não deixam de replicar o comportamento dos grandes operadores: preços e ofertas praticamente idênticos, com diferenças que, na maioria dos casos, se limitam a meros cêntimos.
Preços caem em poucos meses
Quarenta euros por mês. Antes de outubro de 2024, era este o mínimo para contratar net fixa com velocidade de download de 1 Gbps. Um ano antes disso, em dezembro de 2023, a Vodafone nem sequer permitia a contratação isolada de internet fixa. O pacote mínimo, com net de 30 Mbps apenas, impunha ainda o serviço de chamadas de voz, e custava 30 euros. A MEO e a NOS, sim, permitiam a contratação isolada de net fixa, também com 30 Mbps, e o preço era de 24,99 euros. À época, as melhores opções estavam na LigaT, que oferecia 500 Mbps por 15 euros mensais, sem fidelização, e na NOWO, com 120 Mbps por 20 euros. Mas, já se sabe, a cobertura era limitada. Nos tarifários móveis, eram raros os 100 GB de dados, mesmo nas low-cost, e os melhores preços rondavam um euro por gigabyte, para plafonds de 10, 20 e 50 GB.
Depois, chegou a Digi. A DECO PROteste analisou as opções de net fixa com 1 Gbps e de net móvel com 100 GB. E juntou ao estudo os serviços modulares de net fixa e televisão, bem como destas duas componentes e de telemóvel. A diferença, para o cenário pré-Digi, é muito notória. As velocidades e os plafonds de dados subiram, enquanto os preços caíram, e as fidelizações são agora de três meses. Na Digi, a net fixa de 1 Gbps, por exemplo, dividiu por quatro os 40 euros que o mercado exigia há cerca de oito meses. Mais: os 100 GB de dados são frequentes, e a preços competitivos.
As três grandes, essas, mantêm preços desmesurados e fidelizações asfixiantes, apesar de os tarifários terem melhorado em velocidade e benefícios. Grande parte das ofertas 3P e 4P incluem agora 1 Gbps de velocidade na net fixa, e os tarifários móveis passaram a 100 GB.
As melhores ofertas pertencem, claro, às marcas low-cost. Quem vive numa zona abrangida tem interesse em aderir a uma das mais recentes. Quanto às mais antigas, atenção: a Amigo, a Uzo e a Woo podem também não estar disponíveis em todo o País. Um subscritor da DECO PROteste relatou que, ao tentar mudar da Vodafone para a Amigo, foi informado de não haver cobertura na sua morada. Ao tentar com a morada de um vizinho do mesmo andar, era já possível. Um caso que levanta interrogações sobre práticas comerciais destinadas a impedir a circulação de clientes para ofertas à medida dos seus interesses.
|
O conteúdo deste artigo pode ser reproduzido para fins não-comerciais com o consentimento expresso da DECO PROTeste, com indicação da fonte e ligação para esta página. Ver Termos e Condições. |
