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Roupa liberta mais microplásticos do que os detergentes em cápsula

Ao contrário dos tecidos sintéticos, os detergentes em cápsula hidrossolúvel não libertam quantidades significativas de microplásticos na água das lavagens, revela o nosso teste. Conheça ainda o desempenho dos sacos para lavagem de roupa que alegam reter microfibras na lavagem.

  • Dossiê técnico
  • Pedro Lucas e Sílvia Menezes
  • Texto
  • Rita Santos Ferreira e Filipa Nunes
25 maio 2021
  • Dossiê técnico
  • Pedro Lucas e Sílvia Menezes
  • Texto
  • Rita Santos Ferreira e Filipa Nunes
novela de lã e detergente em cápsulas

iStock

Estima-se que, em 2050, exista mais plástico no oceano do que peixes. Ou seja, cada vez menos vida. As mudanças climáticas, as condições ambientais atuais e, sobretudo, os nossos padrões de consumo favorecem processos químicos, físicos e biológicos, que se traduzem na degradação contínua dos plásticos e gerando os famosos microplásticos.

Tudo indica que cerca de 35% dos microplásticos no oceano sejam fibras de têxteis sintéticos, libertadas durante a lavagem e que acabarão nas estações de tratamento de águas residuais, especialmente durante o outono e o inverno, quando aumenta o volume de lavagens deste tipo de têxteis. São libertadas mais de 1900 fibras por cada ciclo de lavagem, podendo ultrapassar as 7000, tratando-se de tecidos de poliéster.

Apesar dos vários estudos já feitos sobre a libertação de microplásticos para o meio ambiente, é quase inexistente a informação sobre a possível contribuição dos detergentes, especialmente dos vendidos em unidoses, com invólucro hidrossolúvel. Com a frequência crescente com que são utilizados, era urgente verificar se, de forma não voluntária, estes produtos estão a libertar quantidades significativas de microplásticos nas águas residuais e, consequentemente, a introduzir partículas invisíveis nos fluxos de água, prejudicando o meio ambiente. No âmbito do projeto europeu Clean, e em parceria com os nossos congéneres belgas, espanhóis e italianos, realizámos um estudo para verificar se os detergentes com invólucro hidrossolúvel, para máquinas de lavar a roupa e a loiça, são fonte de microplásticos. 

Seja um consumidor mais sustentável

O que são os microplásticos?

Um microplástico é um poluente antropogénico emergente, que mede, geralmente, menos de cinco milímetros. No entanto, se estivermos a falar de fibras, a dimensão aumenta ligeiramente: 15 milímetros é o tamanho considerado pela Agência Europeia de Substâncias Químicas (ECHA) desde 2019.

Insolúveis em água, os microplásticos levam vários anos a degradar-se por completo. São parentes próximos do petróleo, visto que pertencem a um grupo de materiais sintéticos, em regra, derivados deste combustível fóssil. Dividem-se em duas famílias: microplásticos secundários, que resultam da decomposição dos macroplásticos, e microplásticos primários. Os últimos são utilizados, com frequência, na indústria de polímeros, que entram na composição de quase tudo o que nos rodeia: embalagens, mobiliário, eletrodomésticos, automóveis e até produtos de higiene pessoal, por exemplo.

Hoje em dia, os microplásticos são um dos grandes problemas ambientais, e o seu uso só tende a aumentar. São inúmeros os impactos ecológicos que derivam destes pequenos vilões. Ao serem libertados no meio ambiente, mais precisamente nos oceanos ou nas águas continentais (rios, lagos ou glaciares), podem ser ingeridos por plâncton, peixes, algas, moluscos ou pequenos invertebrados. Facilmente percebemos que, uma vez integrados na cadeia alimentar marinha, rapidamente chegarão ao homem. São considerados, portanto, uma ameaça global para todos os ecossistemas, não só pelos danos a longo prazo que poderão provocar, como também pelo potencial que têm para carregar poluentes orgânicos e inorgânicos. Devemos mantê-los à distância das águas do planeta.

Têxteis libertam mais microplásticos do que os detergentes

Selecionámos 39 detergentes de marcas líderes nos quatro países participantes, em formato de cápsula com invólucro hidrossolúvel, 20 destinados a máquinas de lavar a roupa e 19 a máquinas da loiça. Todas as amostras foram testadas em laboratório e examinadas por uma equipa especializada em identificar e quantificar microplásticos.

Os microplásticos nas águas residuais são um somatório de potenciais fontes, libertados da água da torneira, dos componentes das máquinas de lavar ou até do detergente. Por isso, fizemos alguns ciclos de lavagem sem detergente, para aferirmos a quantidade de resíduos provenientes de outras origens. A água residual de cada lavagem foi recuperada e analisada.

A conclusão mais importante do estudo é que a principal fonte de microplásticos nos ciclos de lavagem é a roupa, e não os detergentes. À entrada da máquina, a água da rede já continha dois tipos de microplásticos, com origem nas tubagens de PVC (policloreto de vinilo) e em materiais de HDPE (polietileno de alta densidade). Já os ciclos vazios (sem detergente e sem carga) também libertaram duas partículas, que podem vir da água ou de lavagens anteriores. Porém, o número de microfibras libertadas aumentou bastante quando os têxteis foram introduzidos na máquina: de duas passaram para 43 partículas, todas elas de PET (politereftalato de etileno). O teste com roupa e detergente líquido, e não em cápsula, gerou resultados idênticos aos da análise só com roupa (39 em vez de quarenta e três).

No mundo das loiças, os números são mais animadores. Os ciclos de lavagem com detergente e loiça, ou só com loiça, não libertaram maias microplásticos do que os presentes na água no início da lavagem.

As cápsulas testadas podem ser consideradas “boas ou seguras”, visto que não libertam quantidades de microplástico significantes. O número é residual, quando comparado com o dos ciclos sem detergente. Porém, a grande maioria das fibras contidas em amostras de água, vindas da máquina de lavar a roupa, pertenciam aos cobertores usados no teste, o que nos leva a concluir que as microfibras não provêm da água. Há, assim, a possibilidade de os detergentes influenciarem a libertação das fibras têxteis.

 

 

 
As microfibras libertadas dos têxteis, aquando da lavagem destes, começam uma longa viagem em direção aos oceanos. Fonte: Release of Synthetic Microplastic Plastic Fibres From Domestic Washing Machines - Effects of Fabric Type and Washing Conditions and Thompson 2016.

 

É importante evitar, o máximo possível, a libertação de microfibras nos ciclos de lavagem da roupa. Hoje na água da sua máquina, amanhã no prato de cada um de nós.

Qual a eficácia de sacos de lavagem Guppyfriend e Coraball a reter microfibras?

Testámos ainda dois dispositivos que se propõem reter microplásticos durante os ciclos de lavagem. Um deles foi o saco para a lavagem da roupa Guppyfriend. Trata-se de um saco pensado para reter as microfibras dos sintéticos durante as lavagens. Não remove totalmente as partículas, mas retém quase 70% destas. Basta pôr as roupas dentro do saco, que deve ficar apenas cheio até meio, e introduzi-lo na máquina juntamente com as peças de outros tipos de tecidos. As microfibras ficarão coladas na parte superior. Estes resíduos devem ser descartados com o lixo indiferenciado. Disponível a partir de 29 euros, pode reutilizar o Guppyfriend em novas lavagens. 

O outro modelo analisado, Coraball, revelou um desempenho bastante fraco, pelo que não o recomendamos.

Seis gestos que ajudam a reduzir microplásticos nos oceanos

Damos-lhe algumas dicas para tornar as suas lavagens mais ecológicas e sustentáveis.

  • Encha a máquina de lavar ao máximo, uma vez que uma carga completa provoca menos atrito entre as roupas e, como tal, menos fibras são libertadas.
  • Seque a roupa ao ar livre. Se não for possível, use uma velocidade baixa, para minimizar o atrito.
  • Evite lavagens longas, pois causam mais fricção. Se a roupa não estiver muito suja, escolha ciclos de lavagem curtos.
  • Lavar a baixa temperatura diminui o risco de alguns tecidos se danificarem e libertarem de mais fibras.
  • Evite comprar roupas sintéticas. Procure lã, algodão, linho ou outros tecidos naturais.
  • Use dispositivos de retenção de fibras, como o Guppyfriend. Apesar de não eliminar totalmente a perda de fibras, é das melhores soluções no mercado. Nem todos os dispositivos à venda são eficazes.

A Europa está a reagir contra os microplásticos

Todos os anos, os europeus fazem cerca de 36 mil milhões de lavagens, a maioria das quais de roupas sintéticas, que libertam nas águas residuais até nove milhões de fibras não-degradáveis. A situação é grave, visto que, em média, cerca de 60% das nossas roupas são compostas por materiais sintéticos (poliéster e poliamida, essencialmente) ou por uma mistura de fibras sintéticas e naturais.

Alguns Estados-membros da União Europeia avançaram com a proibição do uso intencional de microplásticos em cosméticos, e existe mesmo uma proposta para estender a interdição a outros produtos de consumo, como detergentes e fertilizantes. De acordo com a Agência Europeia de Substâncias Químicas, uma restrição à escala europeia é a forma mais adequada para fazer face ao problema. Reduziria as emissões em, pelo menos, 70% e evitaria a libertação de 500 mil toneladas de microplásticos durante 20 anos.

Em 2020, França foi o primeiro país do mundo a tomar medidas legislativas. A partir de 2025, todas as novas máquinas de lavar vendidas no país terão de incluir um filtro para capturar as microfibras que saem durante a lavagem. Lidar com os microplásticos é, também, uma das partes integrantes da estratégia europeia para o problema da poluição dos plásticos. Faltam menos de 30 anos para haver nos oceanos mais plástico do que peixes. Queremos mesmo chegar a esse ponto? Cada um de nós pode fazer a diferença com pequenos gestos.

CLEAN Aproved by Tomorrow - Euroconsumers

União Europeia

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