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Pesticidas na fruta portuguesa: há motivo para alarme?

Um estudo recentemente divulgado afirma que as peras portuguesas estão entre os frutícolas europeus com maior quantidade de resíduos de pesticidas perigosos, com 68 por cento. Saiba se há motivo para preocupação.

29 setembro 2022
pessoa a analisar peras com uma lupa

iStock

68% das peras, 50% das maçãs e 11% das framboesas portuguesas estão contaminadas com resíduos de “pesticidas perigosos”. Quem o diz é a organização não-governamental (ONG) Pesticide Action Network (PAN Europa), que no estudo “Pesticide Paradise”, esta semana divulgado, afirma que a fruta de outono da Europa está "altamente contaminada" com pesticidas perigosos.

De acordo com a organização, que analisou dados referentes a 44 137 amostras de fruta fresca testada pelos governos de países da União Europeia, entre 2011 e 2020, pelo menos 49% das peras, 44% das uvas de mesa, 34% das maçãs, 29% das ameixas e 25% das framboesas produzidas na Europa tinham resíduos de pesticidas. A ONG diz que, em 2020, cerca de 33% de toda a fruta testada estava contaminada com pesticidas perigosos, um valor acima dos 20% detetados em 2011.

A PAN Europa vai mais longe e afirma mesmo que “a contaminação com pesticidas é mais alta que nunca”, referindo ainda que a utilização de pesticidas perigosos na Europa está a subir e não a descer, como esperado, já que a União Europeia aprovou, em 2009, duas leis para a eliminação gradual de pesticidas tóxicos com o objetivo de promover a utilização de outras alternativas pelos agricultores europeus. A confirmar-se, a tendência contraria a estratégia “Do prado ao prato”, apresentada pela Comissão Europeia em 2020 para transformar a forma como os alimentos são produzidos na União Europeia (UE), reduzindo a pegada ambiental dos sistemas alimentares e diminuindo para metade a utilização de pesticidas e fertilizantes na produção agrícola. Nesta estratégia é proposta a redução da utilização de pesticidas químicos em 50%, até 2030, e a revisão da diretiva quanto à utilização sustentável de pesticidas. Neste sentido, e de modo a melhorar a situação, há ainda um trabalho urgente que tem de ser feito com a colaboração dos Estados-membros para atingir estas metas na União Europeia. Além disso, também deverá haver um trabalho de sensibilização para a redução de pesticidas, em particular os indicados como mais preocupantes, em toda a fileira, desde a produção até à distribuição. Uma diminuição nesta percentagem será o desejável a um prazo de tempo mais curto possível.

Quando são aprovados, os pesticidas são sujeitos a ensaios toxicológicos e têm de fazer prova de que, quando usados de acordo com as regras e boas práticas definidas, não causam danos. Importa neste caso clarificar se os resíduos encontrados estavam acima dos limites máximos de resíduos (LMR) permitidos na UE. Os pesticidas são produtos químicos que podem ser prejudiciais à saúde. Contudo, se em causa estiverem produtos homologados para utilização na UE e dentro do limite máximo de resíduos, à partida, não há perigo para o consumidor. Lembramos também que há controlos regulares a estes produtos de modo a verificar se há hortofrutícolas em incumprimento dos limites máximos de resíduos definidos na União Europeia.

Produtores nacionais cumprem a lei

Em 2021, a DECO PROTESTE fez um estudo para perceber se os limites legais dos pesticidas estavam a ser cumpridos pelos produtores nacionais de pera e maçã convencional e biológica. Foram testadas 20 maçãs e 20 peras pré-embaladas e vendidas a granel em dez cadeias de supermercados e em 13 lojas especializadas na venda de produtos naturais e biológicos.

A análise incluiu um total de 344 substâncias ativas, algumas aprovadas, outras não, e os resultados mostraram que quase todos estavam em cumprimento dos limites máximos de resíduos definidos na União Europeia: 38 dos 40 produtos analisados não acusaram desvios.

Pesticidas são um mal necessário?

Para reduzir a perda de rendimento das culturas agrícolas e combater pragas e doenças, os agricultores recorrem a produtos fitossanitários ou a pesticidas. Além de defenderem as culturas antes e após a colheita, estes produtos contribuem para melhorar ou proteger o rendimento das culturas e, se forem utilizados de forma responsável, garantem ainda o abastecimento de fruta e legumes com boa qualidade e aspeto, a um preço reduzido, para que sejam acessíveis a todos os consumidores.

No entanto, por serem produtos químicos, são potencialmente perigosos para a saúde e para o meio ambiente e não são totalmente inofensivos. A sua utilização deve, por isso, respeitar determinadas quantidades e condições. Na União Europeia, as autoridades fixaram limites máximos de resíduos de pesticidas que podem existir nos hortofrutícolas para assegurar, por um lado, as boas práticas agrícolas e, por outro, garantir uma menor exposição dos consumidores a estes químicos. A presença destas substâncias é fiscalizada regularmente por programas nacionais e comunitários.

Além disso, para que a utilização de um produto fitossanitário seja aprovada na Europa, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) faz uma avaliação rigorosa dos seus efeitos tóxicos agudos e crónicos para comprovar que não tem consequências nocivas diretas e indiretas na saúde humana ou animal nem impacto negativo na qualidade das águas subterrâneas. Ainda assim, e dado que alguns fatores são difíceis de prever, para tentar eliminar os riscos da exposição aos pesticidas, a sua utilização deve ser reduzida ao mínimo.

Como reduzir o consumo de pesticidas em casa

Embora seja pouco frequente encontrar alimentos em incumprimento dos limites máximos de resíduos definidos na União Europeia, as frutas e os legumes que compra podem estar contaminados com resíduos de pesticidas. No entanto, é possível reduzir ou eliminá-los, em casa, quando prepara os alimentos.

  • Lavar a fruta e os legumes reduz o teor de pesticidas ou outros químicos que, eventualmente, possam estar presentes. Nos legumes de folha, lave cada folha individualmente. Embora a água tépida ou quente seja mais eficaz, não é aconselhável para legumes de folha destinados a serem consumidos crus (por exemplo, em saladas), pois altera a sua frescura.
  • Descascar frutas e legumes é uma forma muito eficaz de eliminar resíduos de pesticidas que se depositam na superfície, ainda que isto implique reduzir a ingestão de alguns nutrientes presentes na casca (por exemplo, fibras e vitaminas). Quando preparar legumes de folha, remova as folhas exteriores, onde normalmente se concentram os resíduos de pesticidas.
  • Cozinhar os legumes também contribui, nalguns casos, para reduzir a quantidade de resíduos químicos. O tratamento térmico pode destruir as moléculas sensíveis ao calor e, assim, eliminar pesticidas particularmente voláteis. Noutros casos, a água da cozedura ajuda a diluir e a lavar os resíduos de pesticidas.
  • Seguir uma dieta variada e consumir diferentes frutas e legumes, não só diversifica os nutrientes que ingere, o que é bom para a saúde, como reduz o risco de consumir quantidades nocivas de resíduos de pesticidas.

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