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Maçãs e peras biológicas sem pesticidas não autorizados?

As maçãs e as peras à venda respeitam as normas dos pesticidas? Analisámos 40 e apenas duas peras, uma biológica e outra convencional, pisaram o risco.

  • Dossiê técnico
  • Sofia Mendonça e Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
08 junho 2021
  • Dossiê técnico
  • Sofia Mendonça e Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
Uma maçã vermelha e uma pera amarelada

iStock

Escolhemos dois clássicos de qualquer fruteira portuguesa, a maçã e a pera, para apurar se, para os convencionais e para os biológicos, os limites legais dos pesticidas são cumpridos. Incluímos 20 maçãs e 20 peras pré-embaladas e vendidas a granel em dez cadeias de supermercados e em 13 lojas especializadas na venda de produtos naturais e biológicos. Pesquisámos 344 substâncias ativas, algumas aprovadas, outras não. Interessava saber se as autorizadas, quando encontradas, respeitavam os limites legais. Quanto às proibidas, se a elas se recorrera. O cumprimento da letra da lei venceu: 38 dos 40 produtos analisados não acusaram desvios. 

Uma análise pôs a descoberto pesticidas não autorizados numa pera biológica portuguesa, comprada no supermercado 4Bio, em Almada. Os responsáveis do estabelecimento informaram terem suspendido a venda do produto logo que ficaram a par dos resultados, decidindo até cessar o contrato com o fornecedor. A outra pera “fora da lei”, convencional, foi adquirida no Aldi da Bobadela, no concelho de Loures. O que terá corrido mal nestes casos? Os controlos regulares, ao nível nacional e comunitário, criados para verificar a presença das substâncias não aprovadas, bem como o cumprimento dos limites máximos permitidos, no caso das autorizadas, parecem ter escapado à fiscalização nestes dois exemplos. 

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90% dos biológicos sem resíduos de pesticidas

Uma linha separa a produção biológica da convencional: o número de pesticidas autorizados (cerca de 20) é substancialmente menor e há regras específicas. À semelhança dos convencionais, os biológicos estão obrigados a cumprir o limite máximo de resíduo (LMR) para os pesticidas autorizados, e para as culturas nas quais podem ser aplicados. Os limites fundamentam-se em boas práticas agrícolas, e a segurança é avaliada com base na ingestão máxima diária de alimentos e nos dados de toxicidade. Alimentos com resíduos de pesticidas que ultrapassem o LMR não podem ser vendidos.

Nos frutos convencionais, a presença de pesticidas é praticamente inevitável. Mas quase sempre abaixo do limite legal, assim o confirmámos. Pelo contrário, em 90% das peças biológicas, embora certos pesticidas sejam consentidos, quase nunca detetámos resíduos. Nesse grupo, uma só amostra continha resíduos de um pesticida autorizado e, mesmo assim, abaixo do limite legal. Já na pera biológica em que descobrimos resíduos de pesticidas proibidos, elencámos 13: acetamipride, tiaclopride, fludioxonil, λ-cialotrina, fenoxicarbe, boscalide,  piraclostrobina, pirimetanil, tebuconazol, imazalil, imidaclopide, iprodiona e tiabendazil. De acordo com o regulamento comunitário, estão interditos nas práticas da agricultura biológica.

Na pera convencional em infração, à venda no Aldi, encontrámos seis substâncias ativas: captana, fludioxonil, boscalide, pirimetanil, fluxapiroxade e iprodiona. A última não viu a aprovação renovada, em 2017, na sequência da avaliação da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA). A decisão surgiu após questões levantadas pela mesma autoridade, que se fundamentou, designadamente, no facto de a iprodiona ter sido considerada carcinogénica. Aos produtos fitofarmacêuticos com esta substância, concedeu-se um prazo de tolerância até junho de 2018. Ainda que respeitando os limites, a maioria reunia vários, geralmente entre três e treze pesticidas.

Fruta convencional mais em conta

Que a fruta biológica é mais cara já o sabíamos. Mas a nossa análise demonstra até que ponto a diferença se estende. A versão biológica da maçã Royal Gala, da categoria II, é 43% mais dispendiosa do que a convencional. A maçã biológica oscila entre um mínimo de 2,69 euros e um máximo de 5,70 euros por quilo. Enquanto isso, a clássica variou entre 1,49 e 2,49 euros, para a mesma quantidade. Para a pera, por sua vez, não é possível fazer comparação semelhante, já que, nas nossas compras, não encontrámos as mesmas categorias e variedades. O preço da pera Conference biológica variou entre 2,59 e 3,99 euros por quilo, enquanto a pera-rocha de agricultura convencional, entre 99 cêntimos e 2,49 euros. A biológica custou 2,70 euros por quilo.

 
Comprámos dois cabazes com dez frutas e legumes biológicos e de agricultura convencional em 20 estabelecimentos online. O biológico fica, em média, 40% mais caro. O cabaz convencional custou 19,16 euros e o biológico 31,93 euros.
E porque nem só de peras e de maçãs se compõe a ementa de uma família, abrimos o leque de frutas e incluímos também legumes. Comparámos um cabaz com fruta e legumes biológicos com outro idêntico, composto por espécimes de agricultura convencional. Além da maçã, banana e laranja, incluímos abóbora, alho-francês, batata-doce, cebola, cenoura, curgete e tomate cherry. Fizemos as compras em março de 2021. Comparámos os preços por quilo de 20 estabelecimentos online. Feitas as contas, o cabaz de produtos biológicos fica, em média, 40% mais caro. 

Procura-se pera-rocha biológica

Biológico e a portuguesa pera-rocha parecem um par de difícil conciliação, pelo menos, na altura em que andámos às compras. Tratou-se de uma missão quase impossível encontrá-lo à venda. Se fizer questão de comprar aquela pera em modo biológico, provavelmente, terá de ceder a outra variedade, importada, como a Conference, de Espanha, França e Holanda. A única pera portuguesa que encontrámos, e biológica, foi, por sinal, também aquela que continha pesticidas não autorizados. O ideal é aliar o biológico ao local, mas este binómio afigura-se, para já, pouco provável.

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