Saúde oral: 35% não lavam os dentes duas vezes por dia
São sobretudo os homens e os participantes com baixo nível de escolaridade quem mais desrespeita as recomendações. Mas a prevenção, comprova o nosso inquérito, contribui para a saúde oral e evita algumas idas ao dentista.
São 20 ou 32, conforme a fase da vida, metade em cada maxilar. Mas, em qualquer dos casos, têm superpoderes, como cortar, rasgar e moer os alimentos. Os dentes dizem muito sobre quem somos e de onde vimos. Características como a forma dos incisivos, o número e o contorno dos sulcos à superfície dos molares e a presença ou ausência de dentes do siso permitem identificar populações e as épocas em que viveram.
Estas características têm variado ao longo da evolução da nossa espécie, consoante as necessidades relacionadas com a dieta e a mastigação. E, a este respeito, o advento do fogo foi decisivo. Os humanos passaram a cozinhar os alimentos e deixaram de despender horas a mastigar peças cruas, tarefas em que os molares e, em especial, os sisos, assim como maxilares poderosos, eram uma mais-valia. Com o passar de gerações, estas ferramentas foram minguando em importância e dimensões, pelo que os sisos têm agora pouco espaço para se desenvolverem sem perturbarem os vizinhos, até porque, graças aos cuidados orais, perdemos menos dentes. Além disso, por serem de acesso mais difícil, os sisos envolvem uma escovagem menos eficaz, o que propicia o aparecimento de inflamações nos tecidos moles à sua volta e, claro, de cáries. Por vezes, é preferível extraí-los, mesmo porque alguns nem chegam a despontar.
Mas a dentição está longe de ser apenas uma máquina de processar alimentos. Existe toda uma componente estética e social: o sorriso é o nosso cartão de visita. E há que cuidar dele. A estratégia não tem nada que saber: além de uma dieta equilibrada, lavar os dentes, pelo menos, duas vezes por dia. Não fumar nem abusar de alguns alimentos, como café e chá preto, também ajuda. A prevenção, diz o nosso inquérito a 731 portugueses, realizado em setembro de 2018, tem um impacto muito positivo na saúde oral e contribui para evitar males maiores. Não significa que as idas ao dentista possam ser dispensadas. Uma vez a cada ano é a recomendação. Porém, apenas metade dos inquiridos cumpre. A maioria diz que não vai ao dentista por ser caro. E, dos que o fizeram, só 6% conseguiram vaga no público.
Independentemente de muitos dos que recorreram ao privado poderem encontrar-se abrangidos por seguros de saúde suportados pela entidade patronal, os cuidados de saúde oral continuam a ser uma das falhas mais graves do Serviço Nacional de Saúde, apesar de experiências positivas como o cheque-dentista. É certo que este pretende chegar aos mais vulneráveis, caso de crianças e jovens, grávidas, idosos e portadores de VIH/sida. No entanto, o sistema deveria prever consultas de acesso facilitado a qualquer cidadão: o estudo também prova que os mais carenciados têm uma saúde oral mais deficiente.
Conheça os resultados do nosso inquérito, ponderados segundo critérios de género, idade, nível educacional e distribuição geográfica, que incluiu participantes entre os 18 e os 74 anos. As respostas refletem as suas experiências.
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Apenas 65% dos inquiridos lavam os dentes, pelo menos, duas vezes por dia. São sobretudo os homens e os participantes com baixo nível educacional quem mais desrespeita as recomendações. Mas quem se posiciona nas faixas etárias mais jovens, homem ou mulher, tende a ser mais cumpridor do que os mais velhos (67% contra 56 por cento).
Com que frequência lava os dentes?
Este comportamento é positivo, pois o nosso estudo mostra que os que fazem uma prevenção muito rigorosa, isto é, que respeitam as recomendações quanto à escovagem, ao check up anual e ao uso de fio dentário, demonstram melhor saúde oral (47 por cento). Por sua vez, os que pouco ou nada se importam com a higiene e, ainda assim, dizem ter boa higiene oral são apenas 26 por cento.
A escovagem e o fio dentário são mesmo obrigatórios. Mas só 40% dos inquiridos passam o fio para retirarem os restos de alimentos. Já quanto ao elixir dentário, são 50% os que o usam.
Mesmo assim, estes cuidados podem não ser suficientes para garantir a saúde da boca e dos dentes, e uma ida anual ao médico, a fim de despistar problemas, é sempre aconselhada. Mas apenas metade dos inquiridos respeitam a regra. A grande maioria dos incumpridores alegam ser muito caro, talvez porque o público não ofereça as opções necessárias. Também o Barómetro Nacional de Saúde Oral, com dados para 2018, revela que 42% dos inquiridos não respeitam a periodicidade. E confirma que a situação financeira é um fator importante, o qual explica 32% dos casos de “fuga” ao dentista.
Qual a sua situação financeira?

Face a este panorama, não é difícil compreender que só 13% dos participantes no estudo conservem todos os 32 dentes, a maioria na faixa dos 18 aos 34 anos (38 por cento). Cerca de três em quatro têm, pelo menos, um dente restaurado e de dois em três, um dente desvitalizado. A situação ocorre inclusive entre os mais jovens: são 60% no primeiro caso e 45% no segundo. Contas feitas, um em quatro inquiridos diz que a sua saúde oral é fraca ou muito fraca.
Radiografia dos inquiridos

A grande maioria dos inquiridos recorreu ao setor privado para os tratamentos dentários (92%), incluindo a fatia mais expressiva dos que revelaram uma situação financeira crítica, o que reforça a ideia de que o fizeram por não terem soluções no público. Outra interpretação possível é um eventual seguro pago pela entidade patronal ter comparticipado a despesa. Um pouco menos de metade dos inquiridos que foram seguidos no privado beneficiaram deste tipo de apólices (44%), que, contudo, nem sempre pagaram a totalidade dos encargos. Metade dos que trataram ou fizeram limpezas aos dentes pagaram tudo do seu bolso.
Analisando a satisfação com o tratamento, verificamos que as dimensões que mais contribuem para que o paciente saia feliz do consultório são os resultados, as explicações sobre os procedimentos e a transparência do custo.
A espera por uma vaga é o aspeto que menos agrada: apenas 60% dos inquiridos se mostraram muito satisfeitos. Outra vertente que merece alguns reparos é o tempo a aguardar na sala de espera. Aqui, foram só 65% os que se disseram agradados. Por seu turno, a duração do tratamento e a transparência do preço foram consideradas justas por três em cada quatro doentes.
Muito satisfeito com o dentista?
Muitas ideias erradas sobre os cuidados dentários circulam na internet. Desfazemos alguns mitos e indicamos algumas boas práticas.
O flúor é tóxico?
Só em concentrações muito elevadas, que não são as usadas nas pastas de dentes. Certas bactérias e açúcares produzem ácidos que causam a desmineralização dos dentes. Durante a escovagem, o flúor contribui para fixar os minerais e evitar que se dissolvam na fase seguinte de desmineralização. Por isso, uma pasta com 1000 a 1500 ppm de flúor ajuda a fortalecer os dentes e a prevenir as cáries. As alegações de que diminui a inteligência nas crianças ou é usado em veneno para ratos, que correm na internet, não passam de falsidades alarmistas.
Carvão ativado elimina as manchas?
Sim, a um nível superficial, mas não branqueia a cor natural dos dentes, não melhora a saúde oral e, por ser abrasivo, existe o risco de ir desgastando o esmalte.
Fio dentário antes ou depois da lavagem?
O fio dentário ajuda a remover a placa bacteriana e os restos de comida, e deve ser usado antes da escovagem.
Quando devo trocar a escova?
A cada três meses, ou antes, se, com uma escovagem mais vigorosa, as cerdas ficarem deformadas.
