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Poluição do ar em Portugal: retrato negativo

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Nas cidades, e fora delas, muitas vezes o ar tem má qualidade e ultrapassa valores seguros. Apesar das ligeiras melhorias, a poluição atmosférica continua a matar em Portugal e na Europa, para além das previsões.

  • Dossiê técnico
  • Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Nuno César
06 junho 2019
  • Dossiê técnico
  • Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Nuno César
poluicao

iStock e Alexandra Lemos

Não é por acaso que Tedros Adhanom, o diretor da Organização Mundial de Saúde (OMS), fala em “novo tabaco”. As mortes contabilizadas por aquela entidade pela má qualidade do ar no mundo nos últimos anos ultrapassam as dos fumadores. Adhanom chega a afirmar que “o mundo virou as costas ao tabaco. Agora deve fazer o mesmo com este novo tabaco: o ar tóxico que milhões de pessoas respiram diariamente”.

As fontes destes poluentes são muitas: a queima de combustíveis fósseis na geração de eletricidade, nos transportes, na indústria e nos aglomerados domésticos; a utilização de solventes nas indústrias, especialmente a química e a extrativa; a agricultura e o tratamento de resíduos. E há outras causas, fora do domínio da ação humana, que também contribuem. As erupções vulcânicas, as poeiras transportadas pelo vento, a água do mar vaporizada e as emissões de compostos orgânicos das plantas são fontes naturais do problema.

Quer isto dizer que estamos condenados a respirar um ar de fraquíssima qualidade? Não, se o esforço que tem sido feito nos últimos anos, e que aparentemente foi contido, continuar. Na Europa, no período entre 2002 e 2017, observou-se uma tendência de aumento do número de dias em que o índice de qualidade do ar foi classificado como “Muito Bom”, ou “Bom”. E como se mede esse índice? Pelos valores propostos pela OMS para calcular as partículas nocivas resultantes daqueles poluentes. Estas são, sobretudo, partículas minúsculas (as PM2,5, as mais finas e suscetíveis de se infiltrarem no organismo, mas também as PM10) e o monóxido e o dióxido de azoto, cujas fórmulas começam a ser tão conhecidas quanto a do célebre CO2: NO e NO2, respetivamente. E há que não esquecer o O3, o ozono troposférico (que respiramos mais ou menos ao nível do chão, explicando de forma simples).

No caso das PM10, em cada dia, não devem exceder 50 microgramas por metro cúbico de ar, para que a qualidade deste seja considerada boa e, anualmente, a média não deve ultrapassar 20 microgramas por m3. A União Europeia é mais permissiva, aceitando que a média anual não ultrapasse 40. Além disso, há dias de bónus: a OMS admite que o valor máximo diário possa ser ultrapassado três vezes, mas a UE dá uma borla de 35 excedências anuais. Há uma maneira mais fácil de conferir se estamos seguros.

A Agência Europeia do Ambiente divulga a qualidade do ar em todo o Velho Continente no seu site, em tempo real. Os locais assinalados com um círculo vermelho apresentam um valor pobre. Para ver, aceda ao Índice Europeu da Qualidade do Ar. Em Portugal, visite a plataforma Qual Ar, da Agência Portuguesa do Ambiente, para uma previsão diária. A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte permite a subscrição da ferramenta Qual Ar, para recebermos alertas no telemóvel sempre que haja ultrapassagens dos valores de ozono, dióxido de azoto ou dióxido de enxofre. É necessário enviar um pedido para divulgacao.qual.ar@ccdr-n.pt. 

Veja os vídeos da Agência Portuguesa do Ambiente, que explicam alguns daqueles indicadores.

 

Um ar que se nos dá

A partir de 2017, o número de dias com valores de “Muito Bom” e “Bom” começou a reduzir-se. As causas dessa interrupção na melhoria ainda estão por estudar. Mas algumas medidas, aplicadas de uma forma mais ou menos homogénea na Europa, têm surtido efeito. A obrigação de os Estados-membros terem planos de qualidade do ar é uma delas. No nosso país, as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto são as mais pressionadas por atividade industrial e, acima de tudo, por um tráfego urbano intenso. Daí que sejam as que apresentam mais pontos vermelhos durante o ano. Mas o alerta maior está dado: é necessário reduzir as emissões destes gases consideravelmente. Afinal, só queremos respirar.

 

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