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“Há mais gente a pedir ajuda. A pandemia, mais do que a gota de água, foi a permissão”

O estigma (ainda) muito associado às doenças mentais não permite a procura atempada de ajuda. Refletimos sobre essa dor que desatina, a depressão, em mais um episódio do podcast POD Pensar.

26 novembro 2021
Ana Matos Pires

“Nunca tive tantos pacientes médicos como agora”, relata Ana Moniz, psicóloga e psicoterapeuta, especializada em psicoterapia cognitivo-comportamental. Uma realidade que vê como positiva, pelo exemplo que estes profissionais podem dar à restante população. “A pandemia foi a gota de água, mas, para muitos, foi a permissão para pedirem ajuda.”

O estigma ainda fala mais alto. Tem de haver um investimento sério nesta luta, defende Ana Matos Pires, diretora do Serviço de Psiquiatria da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo e assessora do Programa Nacional para a Saúde Mental. “Adoecemos psiquiatricamente porque temos um órgão físico que se chama cérebro.”

As duas técnicas de saúde mental conversaram sobre depressão com Aurélio Gomes, no terceiro episódio do POD Pensar, Ideias para consumir, o novo podcast da DECO PROTESTE.

Apesar dos avanços sentidos nas últimas décadas, a saúde mental tem sido muito mal tratada no Serviço Nacional de Saúde (SNS), diagnostica Ana Matos Pires. “O único efeito secundário bom da pandemia é vir aí dinheiro para a saúde mental.” A responsável refere-se aos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), cuja aplicação está encarregue de verificar: 88 milhões de euros para os próximos cinco anos.

É suficiente? Não, responde sem hesitar Ana Matos Pires. “Mas a última vez que tinha havido dinheiro público para a saúde mental, na ordem dos milhões, foi em 2009, e foram cinco milhões de euros.”

Consumo de ansiolíticos preocupa

Que dizer das notícias cíclicas sobre o excesso de prescrição e consumo de psicofármacos em Portugal? Ana Matos Pires é perentória da distinção que é obrigatório fazer. O aumento da prescrição de antidepressivos pode ser sinal de que estamos a diagnosticar mais e mais precocemente. O que é um bom sinal. Mas há um problema de hiperconsumo de ansiolíticos ou benzodiazepinas, os chamados calmantes. “Não temos um problema de saúde pública com o consumo de antidepressivos, mas sim de benzodiazepinas.”

Os perigos da indústria da autoajuda

Ana Moniz é uma voz crítica da “indústria que nos empurra para a obrigatoriedade de estarmos sempre bem”, os livros e a filosofia da “autoajuda”.

“É uma indústria que nos faz muito mal. Porque os gurus nunca são responsabilizados pelos resultados. Vivem dos livros que vendem. Não há nenhum tipo de monitorização se estão a fazer bem ou mal às pessoas.”

Além disso, pela autocrítica constante que incitam a que as pessoas façam a si próprias podem piorar situações de depressão. “É uma indústria muito cruel”, porque como que culpabiliza a pessoa pelo estado a que chegou.

Para contrabalançar essa voz autocrítica, já de si tão forte nas pessoas com depressão, é “preciso criar uma voz compassiva”, defende Ana Moniz. No tratamento da depressão, não há uma reinvenção da pessoa, “mas podemos mudar coisas em nós”.

A terapeuta socorre-se de uma citação conhecida: “Chega de aceitar o que não posso mudar; vou começar a mudar o que não posso aceitar.”

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