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Guerra na Ucrânia torna portugueses mais prudentes

Muitas famílias adaptaram a alimentação, as despesas domésticas e as atividades sociais e de lazer às exigências da inflação. Quatro em dez inquiridos dizem não ter margem financeira, se a crise se agravar. Ainda assim, 73% são a favor das sanções à Rússia.

24 maio 2022
Carrinho de compras vazio, sobre notas de euro, em fundo azul

iStock

A guerra na Ucrânia está a ter impacto no país mais a ocidente da Europa continental, acelerando o passo de uma inflação que se tornou evidente quando o mundo começou a desconfinar e a procurar bens de consumo com uma rapidez difícil de acompanhar pela capacidade produtiva das nações. A economista Susana Peralta, o jornalista Bruno Faria Lopes e o responsável técnico pela área de produtos e serviços da DECO PROTESTE, Vitor Machado, analisam causas e consequências da inflação no nosso podcast POD Pensar.

Cerca de três quartos dos 1051 participantes num inquérito online conduzido pela DECO PROTESTE em maio de 2022 revelam que a invasão do país à beira do Mar Negro, em marcha desde fevereiro, tem afetado, pelo menos, parcialmente, a sua qualidade de vida. Da alimentação às atividades sociais e de lazer, passando pelas compras para a casa ou pela saúde, os portugueses têm adaptado as suas decisões de consumo às pressões inflacionistas, à medida que temem que o conflito arraste o mundo para um cenário nuclear, preocupação manifestada por 75 por cento.

Apesar das dificuldades, que levam 40% a dizerem não ter margem financeira ou poupanças que lhes permitam superar um agravamento da crise, 73% concordam com as sanções à Rússia e são da opinião de que a União Europeia deve mantê-las, mesmo que afetem também as economias dos Estados-membros.

Conduzido em paralelo na Bélgica, em Espanha e em Itália, o estudo mostra que a conjuntura está a afetar uma importante proporção de europeus. Ao todo, foram recolhidas as opiniões e as experiências de 4191 cidadãos do Velho Continente, com idades entre os 25 e os 74 anos. Os resultados obtidos são representativos das realidades nacionais.

 

Portugueses têm medo de gastar dinheiro

Receio de gastar dinheiro nestes tempos incertos é o que demonstram 81% dos inquiridos – a proporção é muito mais baixa nos restantes países do estudo, oscilando entre os 58% da Bélgica e os 63% de Espanha. Contudo, o inquérito aponta para que os portugueses estejam a cortar sobretudo o que consideram supérfluo. Em termos gerais, verificamos que 73% tiveram os seus hábitos de consumo afetados, pelo menos, parcialmente. Vejamos por área.

A alimentação tem sido uma das esferas mais afetadas pela inflação. Desde 23 fevereiro que monitorizamos, todas as quartas-feiras, um cabaz com 63 produtos. De pouco menos de 184 euros, o custo saltou para perto dos 205 euros, em meados de maio. Ora, mais de metade dos inquiridos passaram a escolher marcas mais baratas no supermercado, como as das insígnias (53%), e 40% têm cortado nos alimentos que não entendem como essenciais, caso do álcool, dos doces e dos salgados. Mais preocupante, um em cinco diz comprar menor quantidade de carne e peixe.

Em casa, a água e a energia também são usadas com mais parcimónia. Quase metade dos participantes afirmam desligar mais vezes os eletrodomésticos ou evitar usá-los (46 por cento). Da mesma forma, 39% dizem racionar o uso da água e 27% optaram por cancelar ou adiar a compra de bens para o lar, como eletrodomésticos e móveis.
Nas deslocações, metade dos inquiridos revelam usar menos o carro e 35% alegam fazer uma condução mais económica. Uma proporção de quase um em cinco experimenta agora andar mais a pé ou de bicicleta. E um em quatro cancelou ou adiou viagens de lazer.

As atividades sociais, culturais e de lazer também sofreram uma redução prudencial. Quase metade dos participantes no estudo reportam ter reduzido a frequência de bares e restaurantes (47 por cento). Concertos, teatros, museus e outros equipamentos culturais também são menos procurados por 34 por cento. Já a compra de produtos de lazer, como consolas de jogos ou material para hobbies, está em compasso de espera ou foi mesmo cancelada por cerca de um em quatro. A aquisição de vestuário tem tido o mesmo destino, por decisão de 42% dos inquiridos. Já se torna mais preocupante constatar que um em dez participantes tem passado por mais dificuldades quanto ao pagamento das despesas de educação dos filhos.

Para já, a saúde é a área em que os portugueses menos ajustes se dispõem a fazer. Segundo os resultados do inquérito, cuidados dentários, compra de óculos ou aparelhos auditivos, consultas e sessões de psicoterapia têm sido adiados ou cancelados num moderado número de situações. Os serviços do dentista, que, ainda assim, sofreram o maior impacto, foram objeto de tais decisões no caso de 18% de inquiridos. 

Portugueses sem grande margem financeira, mas solidários com a Ucrânia

As ramificações da guerra na Ucrânia excedem a esfera económica, e 64% de inquiridos dizem-se afetados também no plano da saúde mental. Não será surpreendente, se tivermos em conta que 91% esperam que os preços da energia continuem a subir e que 89% estimem o mesmo quanto aos preços dos combustíveis, duas variáveis que podem agravar o custo de vida. Mas os portugueses percebem que não é só a guerra a empurrar os preços para cima: 87% consideram que muitos produtos sem relação com o conflito estão agora mais caros. Ao futuro económico incerto, soma-se o receio de um cenário nuclear, presente na mente de 75 por cento. Apenas 56% a 67% de belgas, italianos e espanhóis revelam idêntico estado de espírito.

A apreensão não faz, contudo, os portugueses discordar das sanções económicas impostas à Rússia. Embora apenas cerca de metade pense que é um modo de terminar a invasão mais cedo (49%), a maioria é da opinião de que a União Europeia deve manter tais medidas, ainda que possam afetar as economias dos Estados-membros (73 por cento). As convicções de belgas, italianos e espanhóis não são tão veementes: apenas 41% a 66% estão dispostos a sofrer os efeitos colaterais das sanções à Rússia.

Os portugueses, por seu turno, vão mais longe, e 82% consideram mesmo que deveria haver um boicote aos produtos e serviços de origem russa, enquanto os números dos que pensam da mesma forma nos restantes países do estudo caem para 49% a 64 por cento.

Mais: 66% dos portugueses estão dispostos a abdicar de algum conforto, como uma diminuição no aquecimento da casa ou no uso do automóvel, se isso ajudar a contrariar a invasão russa. Os nossos congéneres europeus também não se mostram tão recetivos a esta ideia, aceite por uma proporção entre 50% e 59% de inquiridos.

Se a guerra na Ucrânia tem tido algo de positivo, é a maior consciencialização de que não podemos continuar a depender tanto dos combustíveis fósseis, manifestada por 81% de portugueses. O mesmo aconteceu a 59% de belgas, 65% de italianos e 71% de espanhóis. 

Vejamos um resumo das principais opiniões dos portugueses sobre as consequências da guerra na Ucrânia.

DECO PROTESTE continuará a apoiar os consumidores

A Euroconsumers, organização europeia a que pertencem a DECO PROTESTE e as suas congéneres na Bélgica, em Espanha e em Itália, está preocupada com as pressões inflacionistas, aceleradas pela guerra na Ucrânia, que se fazem sentir em áreas tão sensíveis para o dia-a-dia das famílias quanto a alimentação, a energia e a mobilidade. Em face desta conjuntura, os cidadãos europeus inquiridos têm adaptado os seus padrões de consumo. Ao nível global, o inquérito conjunto mostra que:

  • três quartos reduziram os gastos relacionados com a casa e a energia. Metade dos inquiridos na Bélgica, em Espanha e em Itália têm cortado no aquecimento da casa, para pouparem energia. Se considerarmos também Portugal, 43% desligam os eletrodomésticos ou evitam usá-los, também com o propósito de economizar;
  • dois terços mudaram os hábitos de mobilidade. Quatro em dez passaram a evitar o carro, devido ao aumento dos preços dos combustíveis, enquanto um quarto optou por conduzir de forma mais económica;
  • uma grande maioria mudou também os hábitos alimentares e de lazer: 43% compram agora marcas mais baratas no supermercado, enquanto um em três eliminou produtos não-essenciais. Um em cinco indicou ainda adquirir menos carne e peixe;
  • o adiamento ou o cancelamento da compra de roupa, decidido por 37%, tem sido acompanhado pela redução das atividades sociais (36%) e a alteração de planos de férias (24 por cento).

A subida dos preços traz incerteza para o futuro próximo. Quase um em quatro dos europeus que participaram no estudo descrevem a situação financeira do seu agregado familiar como difícil, e 39% afirmam que estão pior do que há um ano. Em termos globais, são 35% os que dizem não ter margem de manobra financeira, se a situação se agravar.

Apesar de o panorama não se mostrar favorável, belgas, espanhóis, italianos e portugueses mostram solidariedade com os ucranianos. Esta generosidade precisa, contudo, de apoio. Aqui encontra comparadores e ferramentas que, entre outros, permitem identificar os fornecedores de energia e os supermercados online mais vantajosos. Criámos ainda uma página especial com os nossos melhores conselhos para enfrentar as dificuldades. 

Poupar em tempo de crise

O futuro dos consumidores está a mudar dramaticamente, o mesmo podendo ser dito do futuro das organizações de consumidores. Para que os europeus não percam liberdade de escolha nem bem-estar, o nosso dever é continuar a desenvolver soluções à medida das suas necessidades, mas também trabalhar com os mais relevantes e responsáveis intervenientes no mercado.

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