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Dificuldades económicas para mais de 70 por cento das famílias portuguesas

Pagar as contas do dia-a-dia é uma missão quase impossível para mais de 70% das famílias portuguesas. Esta é uma das conclusões principais do Barómetro DECO PROTESTE, que avalia a capacidade financeira para fazer face às despesas.

31 março 2022 Exclusivo
Mulher a fazer contas

iStock

As coordenadas de muitas vidas foram abanadas pela pandemia. Em 2021, o aperto das famílias portuguesas aumentou face ao ano anterior, situando-se em níveis idênticos aos do período pré-pandémico. Um testemunho recebido através das quase cinco mil respostas ao nosso inquérito sobre a capacidade de os agregados familiares enfrentarem as despesas de alimentação, educação, habitação, lazer, mobilidade e saúde. A grande maioria revela algumas dificuldades financeiras (65%) e uma parte encontra-se mesmo em situação crítica (6 por cento). Livres de constrangimentos económicos apenas 29 por cento. Face ao estudo de 2020, há um recuo no conforto e um sublinhar do esforço.

Ainda que 2020 tenha sido o momento zero do coronavírus, e do início e do pico da crise sanitária, o ano seguinte, com a retirada de alguns apoios estatais, ditou um certo retrocesso na situação financeira dos cidadãos. No barómetro de 2020, as dificuldades dos agregados familiares tinham diminuído em relação a 2019. Em grande medida, o alívio justificava-se com a atuação governamental, que desenvolveu instrumentos destinados a ajudar os cidadãos e os negócios em crise. Criaram-se apoios para as empresas que entraram em lay-off e, para os cidadãos com empréstimos bancários, aprovaram-se moratórias, ou seja, autorizações bancárias para suspender o pagamento das mensalidades por um determinado período. Do mesmo modo, a inatividade causada pela pandemia – serviços fechados e férias canceladas, por exemplo – reduziu as despesas. Contudo, em 2021, com o lento retomar da normalidade, as dificuldades voltaram a fazer-se sentir. 

Agregados familiares mais vulneráveis 

Tanto em 2020, como em 2021, a capacidade financeira das famílias esteve significativamente ligada ao impacto da pandemia nos seus rendimentos. Por essa razão, continuamos a ter um país a duas velocidades, dividido entre os agregados mais afetados pela crise e aqueles que não a sentiram tanto na pele. Embora a economia comece lentamente a erguer-se, com a abertura dos serviços e do turismo, o verdadeiro impacto da crise nas famílias só agora se começa a sentir, com o retomar das despesas de mobilidade e de saúde, e com o fim dos apoios do Estado (moratórias). A crise financeira estendeu-se um pouco por todo o País, mas a Região Autónoma da Madeira ressentiu-se de forma mais grave: 70% das famílias locais reportam uma perda significativa de rendimentos no último ano, uma percentagem bastante superior às registadas noutras regiões. A esta realidade não será alheio o facto de o turismo representar um modo de subsistência relevante no arquipélago. Não admira, pois, que o Algarve apareça em segundo lugar neste ranking, com 54% das famílias a sofrerem perdas.

 

A maior distância da Madeira regista-se em relação a Lisboa e Vale do Tejo, onde 40% dos lares sofreram a privação de uma parte do rendimento. Sem causar espanto, o maior impacto da crise pandémica na economia madeirense faz com que seja neste arquipélago que se concentra o maior número de famílias em pobreza extrema (9,5%), valor bem acima dos 6% da média nacional.

Cerca de uma em quatro famílias sofreu, em 2021, uma quebra de rendimentos na ordem dos 25% ou mais. Igual proporção de agregados perdeu dinheiro abaixo desta percentagem. A inatividade profissional temporária (devido a situações de lay-off, por exemplo), o decréscimo do salário ou a perda de emprego são as causas que mais pesam na diminuição do rendimento. Seguramente, estas famílias integram o patamar das que se encontram em situação crítica. O nosso índice situa a maioria das famílias na zona desconfortável das dificuldades financeiras. Tal como em 2020, Portugal obteve o índice mais baixo dos países analisados: 45,3. Na Bélgica, atingiu 53,7, em Espanha, 47,9, e em Itália, 46,2.

Infografia: Pedro Nunes
Os distritos com menos poder económico, além do Arquipélago da Madeira, distribuem-se de norte a sul: Aveiro, Évora, Castelo Branco, Viana do Castelo, Coimbra e Santarém. Situa-se no Alentejo o distrito com mais desafogo ao nível nacional – Portalegre –, seguido de perto por Viseu. Bragança, que em 2020 se destacou como líder neste índice, desceu para quinto lugar. Com uma queda ainda mais acentuada surge Castelo Branco. De segundo distrito em 2020, transfere-se, em 2021, para o conjunto dos piores.

 

 Infografia: Pedro Nunes

Automóvel pesa no orçamento familiar

Habitação, saúde e mobilidade são as despesas que mais pesam no orçamento dos portugueses. Em 2021, os custos com a educação decresceram, o que talvez se explique pelo investimento que muitas famílias já tinham feito em 2020, nomeadamente em equipamento informático, como consequência, por exemplo, das aulas à distância, através da telescola ou de plataformas online. Na área da mobilidade, o gasto com o automóvel ocupa a maior fatia, com os expectáveis protagonistas: combustível, manutenção e seguros.

 

 
Infografia: Pedro Nunes
Já na saúde, as despesas envolvendo cuidados dentários são as que exigem maior esforço. No conjunto dos encargos mais complicados, seguem-se as férias grandes (viagens e estadias), a manutenção da casa (obras, pinturas, etc.) e os óculos e aparelhos auditivos. O total do dispêndio com habitação, saúde e mobilidade foi considerado especialmente espinhoso para quase 40% dos inquiridos, o que representa um ligeiro acentuar das dificuldades em relação a 2020.

Um terço dos inquiridos pouco otimistas quanto ao futuro

Quanto às perspetivas em relação a 2022, quase um terço dos inquiridos não se mostra otimista. Apenas 19% acreditam num ano melhor do que 2021. Os restantes consideram que tudo vai ficar na mesma. As previsões conservadoras dos consumidores não vêm ao acaso. O nosso estudo revela um grande esforço das famílias para pouparem: 33% consideram muito difícil e 39% um desígnio mesmo impossível. Os obstáculos já vinham de trás, mas o cenário dá sinais de um agravamento na vida das famílias.

O nosso estudo

O Barómetro DECO PROTESTE visa medir a capacidade de as famílias portuguesas pagarem as despesas do dia-a-dia em seis áreas: alimentação, educação, habitação, lazer, mobilidade e saúde. Em dezembro último, enviámos um questionário, por correio e online, para uma amostra da população adulta. No total, recebemos 4829 respostas. Ponderámos os resultados de acordo com a distribuição demográfica portuguesa, segundo as variáveis sexo, idade, região e habilitações literárias. Bélgica, Espanha e Itália levaram a cabo o mesmo estudo.

O índice varia entre 0 e 100 e, quanto mais elevado for o número, maior é a facilidade dos agregados familiares em pagarem as despesas. Com base no grau de dificuldade demonstrado, é metodologicamente viável criar três grupos de famílias: as que se encontram em “situação crítica” (que não conseguem ou têm dificuldade em pagar as seis categorias de despesas consideradas); as que apresentam “dificuldades financeiras” para pagar algumas despesas essenciais; e, por fim, as que ocupam uma zona de “conforto”, ou seja, que conseguem facilmente pagar todos os gastos.

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