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A experiência dos consumidores com os passes sociais

Há quem poupe 70 euros por mês com o novo passe. Mas o transporte coletivo ainda tem muitas falhas.

  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
17 julho 2019
  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
passes sociais

4See/José Fernandes

A poupança chegou aos transportes. Muitos consumidores notam a diferença no bolso com o novo passe social. Na área metropolitana de Lisboa, entre abril e junho, foram vendidos um milhão e 824 mil passes Navegante. Em abril, foram vendidos 554 mil passes Navegante. Em maio, foram vendidos mais de 630 mil passes Navegante, o que representa um aumento de 14% face ao mês anterior. Em junho, por sua vez, as vendas continuaram a aumentar. Foram vendidos 640 mil passes mensais.

Já no Porto, em junho, venderam-se 185 279 assinaturas, mais 42 900 do que no mês homólogo de 2018. Estes são os números oficiais mais recentes revelados pelas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Também fomos ouvir os consumidores que utilizam os transportes todos os dias. Os utentes aplaudem a redução do preço dos passes, mas denunciam a falta de transportes. Foi uma das medidas mais populares do Governo e, em poucas semanas, contou com uma adesão histórica.

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Vanessa Almeida, 35 anos, vive em Alenquer e toda a vida andou de transportes públicos. Como trabalha em Carnaxide, tem muito que andar (e esperar) todos os dias: 1h30m para chegar ao trabalho e não menos de duas horas para regressar a casa. Inicialmente, apanhava um autocarro até ao Campo Grande, depois seguia de metro até ao Marquês de Pombal, onde apanhava outro autocarro, da Vimeca, até Carnaxide. Uma combinação de passes que lhe custava cerca de € 160 por mês (só o autocarro de Alenquer valia € 118). Ultimamente, começou a optar pelo comboio: a mãe dá-lhe boleia até à estação de Vila Franca de Xira, onde apanha o regional das 8h56m até Santa Apolónia (o resto do percurso é igual). Neste caso, gastava € 110, mais € 44 pelo autocarro entre Vila Franca de Xira e Alenquer (cada bilhete diário custa 2,20 euros).

Vanessa Almeida na estação. Transportes públicos. 
Vanessa Almeida critica a falta de reforço de comboios e de carruagens.
Mas há três meses muito mudou: com o novo passe Navegante Metropolitano, de apenas € 40, anda em todos os operadores da área metropolitana de Lisboa (AML), embora continue a ter de pagar o excesso de percurso até Alenquer, porque este município não faz parte da AML. “Estou muito contente, claro. É uma poupança enorme [cerca de € 70, por mês]”, diz a editora de régie. Só que nem tudo é perfeito: “Os comboios estão mais cheios. De manhã, vou sempre em pé. E o metro também. Já aconteceu perder um, na linha amarela, por ir cheio. Há mais procura, mas não houve reforço de comboios”, nota Vanessa. Lamenta que o tempo de espera continue mortificante: “Há dias em que saio do trabalho às 19h15m e só tenho autocarro 20 minutos depois. Se sair depois das 20h, pior. Os autocarros da Vimeca que saem de Carnaxide atrasam muito.”

Começar pelo fim com a redução do preço do passe

Isabel Carvalho queixa-se do mesmo: “Fora das horas de ponta, o tempo de espera dispara… Hoje, por exemplo, apanhei o barco das 12h30m e, antes desse, só saiu um às 11h.” Todos os dias, esta psicóloga, de 33 anos, apanha o barco no Seixal, onde vive, até ao Cais do Sodré, e depois segue de metro até à Baixa-Chiado, onde trabalha. Uma viagem que demora cerca de uma hora (ou seja, duas por dia em transportes).

Isabel Carvalho queixa-se do tempo de espera fora da hora de ponta. 
Isabel Carvalho queixa-se do tempo de espera fora da hora de ponta.
Em abril, passou a comprar o Navegante Metropolitano e poupa agora € 20 por mês (o passe anterior custava 60 euros). “Qualquer poupança é positiva”, admite Isabel, adepta confessa do transporte público. Mas a sua satisfação não é acrítica: “Começámos pelo fim. Devíamos ter-nos preocupado com aspetos mais estruturais e só depois com a redução dos preços. A questão é: aumentando o número de passageiros com os novos passes, como ficarão os equipamentos a longo prazo, se não trabalhamos a manutenção e a prevenção?”

Passe Navegante 65+

Aos 76 anos, Auxiliadora Cruz, já reformada, nem pensa nisso. Em maio, comprou o Navegante 65+ (20 euros) e só pensa em desfrutar. Encontrámo-la no Campo Grande, numa terça-feira de manhã. “Já fui a Sintra e, hoje, vou almoçar a Setúbal com uma amiga. Estou contentíssima!”, confessa Auxiliadora, que irá, de metro, até Entrecampos e, daí, partirá de comboio até Setúbal. Até agora, para ir a consultas ou passear em Lisboa, costumava ir de carro até ao Lumiar, onde apanhava o metro (carregava um cartão com 10 ou 12 euros). O passe anterior (que custava 14,50 euros) não era opção: “Só abrangia a zona de Lisboa, não dava para os autocarros, que são muito caros. Agora, com este, vou a todo o lado.”

Trânsito caótico depois de mudanças nos passes

Mas há quem continue a preferir a viatura particular. É o caso de António Pedro Santos, jornalista de 45 anos, que, “por força da profissão, tem de estar em mil lugares à mesma hora”: “Por norma, se tenho dois ou três trabalhos em Lisboa e tenho de ir buscar os filhos à escola mais tarde, torna-se imperativo andar de carro.” Por mês, gasta uma média de 150 euros em combustível. E de Paço de Arcos, onde vive, até ao centro de Lisboa, António demora, no mínimo, 15 a 20 minutos. 

O trânsito continua caótico. “Não senti diferença nenhuma [desde abril]. Faço o percurso da 2.ª Circular (sentido Benfica-Aeroporto) e, pelas 8h30m, o caos é o mesmo. Na A5, tanto no sentido Cascais-Lisboa de manhã, como Lisboa-Cascais ao fim da tarde, as filas são iguais”, diz António, que, mesmo assim, não pondera comprar passe. Por duas razões: “Os locais onde trabalho nem sempre são perto das estações de metro ou comboio (como, por exemplo, a Assembleia da República) e porque tenho de andar sempre carregado com material fotográfico e computador. Se a entidade patronal me paga os quilómetros, vou de carro. É mais cómodo e as minhas costas agradecem.” Só em dias mais tranquilos, em que só tem uma deslocação (por exemplo, dar aulas durante uma tarde em Alcântara), vai de comboio, para não perder tempo a procurar estacionamento e pagar parquímetro: “Fica mais barato, não tenho stresse, chego mais do que a horas e ainda posso ler.”

Entrevista a Carlos Humberto de Carvalho

Carlos Humberto de Carvalho, primeiro-secretário da Área Metropolitana de Lisboa, responde às dúvidas dos consumidores.

Carlos Humberto de Carvalho destaca aumento significativo da procura, mas não esquece a falta de oferta. 
Carlos Humberto de Carvalho destaca aumento da procura, mas não esquece a falta de oferta.

É utilizador de transporte público?

Sim, tenho um passe Navegante Metropolitano, que utilizo sobretudo nas deslocações diárias casa-trabalho, no modo fluvial.

Mais de três meses depois da introdução do passe único, que balanço é possível fazer sobre a procura?

Os primeiros dados apontam para um aumento significativo da procura. Todos os operadores têm reportado um crescimento da ocupação fora das horas de ponta, à noite e ao fim de semana, além do natural crescimento nas horas de ponta. Registámos mais utentes idosos. No curto prazo, pretendia-se um aumento superior a 10% na procura, e tudo indica que se irá ultrapassar este objetivo, caso se confirmem as tendências na venda de passes.

Falando em oferta, tem havido supressão constante de comboios e barcos. O que está a ser feito para resolver estas falhas?

Sejamos rigorosos: os problemas identificados não comprometem a seriedade do novo sistema tarifário e o significativo sucesso. Agora, particularmente nos meios fluvial e ferroviário, há problemas estruturais que vêm de trás. É preciso que o Governo tome as medidas necessárias e complementares para melhorar a oferta ao nível dos modos pesados (comboios, barcos, metro). Não podemos ter barcos, nem comboios parados. Reconheço que, entre a decisão de comprar um barco e o barco chegar, demora dois ou três anos; o mesmo se passa com um comboio. Mas é possível, pelo menos, fazer reparações. No eixo rodoviário, houve problemas de rutura e insuficiência em algumas carreiras da Transportes Sul do Tejo, mas já houve um reforço que deverá resolver os problemas. Quanto aos restantes operadores, estão a responder, no essencial: a Carris está em adaptação permanente da rede, o metro está a aumentar a velocidade de circulação e, desse modo, a frequência...

Que outras medidas serão tomadas, a médio e a longo prazo, para alavancar o sistema?

O que pretendemos fazer na AML tem quatro pilares: a redução e simplificação tarifárias (passámos de 600 tipos de passes para 45), o reforço da oferta, a criação de novas infraestruturas e a criação de uma entidade que fará a gestão integrada da mobilidade, disponibilizando informação imediata aos utentes. Isto leva alguns anos a montar, mas vale a pena trabalhar com persistência e maleabilidade, porque o que está em causa são as pessoas e a qualidade de vida. O mais premente é a oferta. Nesse sentido, há um concurso público para o reforço do transporte rodoviário, que será lançado ainda este ano. Os autocarros são os veios capilares que permitem cerzir esta rede. E o objetivo é ter uma rede mais estruturada, com mais oferta à noite e ao fim de semana, e com novos percursos.

Qual o valor e o período de execução?

Será um concurso dividido por lotes, que pode ir de 120 a 150 milhões de euros por ano. E quem ganhar terá de fornecer este serviço num período entre quatro e sete anos. O que pretendemos é uma frota mais nova na idade e mais moderna do ponto de vista tecnológico e da eficiência energética.

Houve um aumento dos lugares de estacionamento, junto às estações/cais/paragens das zonas-dormitório?

A responsabilidade do estacionamento é dos municípios. Mas sabemos que há vários operadores e municípios a trabalhar nesse sentido, e até na reorganização dos interfaces.

Já é possível saber se houve redução do tráfego automóvel?

Ainda não. Essas medições não se fazem todos os meses e desconheço que estejam a acontecer. É preciso deixar estabilizar esta solução.

 

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