Preferência na compra e venda de imóveis: como funciona e quem tem direito?
Pretende vender uma casa arrendada? Está interessado em comprar um terreno que confina com o seu? Saiba quem pode exercer o direito de preferência.
Neste artigo
- Sou inquilino. Tenho preferência na compra da casa arrendada?
- As entidades públicas têm preferência na compra de imóveis?
- Como saber se as entidades públicas têm preferência na casa que quero vender?
- Também há direito de preferência na compra de um terreno rústico?
- O que fazer se houver vários interessados num terreno?
- Quais as obrigações de quem pretende vender um terreno?
- E se o vendedor do terreno não respeitar o direito de preferência?
O direito de preferência traduz-se na possibilidade de uma pessoa ser escolhida, em primeiro lugar, como compradora de uma casa ou de um terreno, desde que pague o mesmo preço e aceite as mesmas condições que o vendedor negociou com outro potencial interessado.
A DECO PROteste explica como se concretiza este direito e quais os deveres de quem vende.
Voltar ao topoSou inquilino. Tenho preferência na compra da casa arrendada?
Se o senhorio quiser vender uma casa que esteja arrendada há mais de dois anos, o inquilino tem direito de preferência.
O senhorio está obrigado a comunicar a intenção de venda ao inquilino, por carta registada, com aviso de receção. Do documento, devem constar as seguintes informações:
- identificação do prédio;
- identificação dos potenciais compradores;
- preço;
- condições de pagamento.
O inquilino tem 30 dias para responder, a contar da data em que receber a carta. Se estiver interessado, e aceitar as condições, poderá informar o senhorio de que pretende exercer o direito de preferência.
O senhorio não respeitou este direito?
- O inquilino tem seis meses, a contar da data em que teve conhecimento dos elementos essenciais da venda, para dar entrada a uma ação em tribunal que obrigue o senhorio a reconhecer-lhe a preferência.
- Deve depositar o preço nos 15 dias seguintes à entrada da ação.
- Nesta ação, também pode pedir uma indemnização.
As entidades públicas têm preferência na compra de imóveis?
Algumas entidades públicas também podem exercer o direito de preferência, se o imóvel estiver classificado, ou em vias de classificação, ou estiver situado numa área protegida ou de reabilitação urbana.
As entidades são:
- Património Cultural (ex-Direção-Geral do Património Cultural);
- câmaras municipais;
- regiões autónomas;
- Estado.
Para que tais entidades possam exercer o direito de preferência, os proprietários devem publicar um anúncio online no site Casa Pronta.
Caso exista mediação imobiliária, em princípio, estas formalidades são garantidas pela agência.
O anúncio, cuja publicação tem um custo de 15 euros, deve indicar os seguintes elementos:
- o vendedor e o comprador;
- a localização do imóvel;
- o valor da transação;
- a data previsível do negócio.
Publicado o anúncio, as entidades têm dez dias úteis para se manifestarem. O anúncio fica disponível durante um ano, e deve ser consultado para saber se houve alguma resposta.
Se não houver resposta, o vendedor e o comprador podem avançar com o negócio.
Voltar ao topoComo saber se as entidades públicas têm preferência na casa que quero vender?
Para saber se o imóvel está localizado numa zona onde o município ou outra entidade pública possam exercer o direito de preferência, contacte a câmara municipal ou informe-se junto de entidades como o Património Cultural.
Fica dispensado desta tarefa se publicar o anúncio com as condições da venda no site Casa Pronta.
Voltar ao topoTambém há direito de preferência na compra de um terreno rústico?
Quem é dono de um terreno rústico que confine com outro que esteja à venda tem direito de preferência na compra, desde que cumpra diversos requisitos.
- Deve tratar-se de um terreno rústico, e não de um prédio urbano.
- A transferência do terreno deve ocorrer por venda ou dação em cumprimento (se o terreno for entregue para pagar uma dívida).
- Os proprietários de terrenos confinantes, de área inferior à unidade de cultura, gozam reciprocamente do direito de preferência.
O que é uma unidade de cultura?
Trata-se da superfície mínima que, por lei, um terreno deve ter para ser gerido de forma viável.
A legislação proíbe o fracionamento de propriedades abaixo deste limite, que varia com a região, para evitar a excessiva divisão das terras.
Que área é considerada?
A questão da área tem gerado discussão. Basta que um dos terrenos (o vendido ou o confinante) apresente área inferior à unidade de cultura, ou é preciso que ambos a tenham?
A jurisprudência, por norma, tem considerado que não há direito de preferência se um dos prédios tiver área superior à unidade de cultura. Vejamos dois casos.
- O Tribunal da Relação de Guimarães, em acórdão de 20 de fevereiro de 2025, afirmou que o legislador “foi claro ao estabelecer no art.º 1380.º do C. Civil que ambos os imóveis (o confinante e aquele que foi transmitido) teriam de ter área inferior à unidade de cultura para que aquela preferência pudesse ser exercida”.
- Também o Supremo Tribunal de Justiça defendeu, em acórdão de 13 de dezembro de 2022, que, para haver direito de preferência entre proprietários de prédios rústicos confinantes, é necessário que ambos os prédios tenham área inferior à unidade de cultura, salvo situações especiais legalmente previstas, como projetos de emparcelamento ou determinadas situações ligadas à Reserva Agrícola Nacional.
O que fazer se houver vários interessados num terreno?
Se vários vizinhos estiverem interessados, a lei estabelece uma ordem:
- no caso de terreno encravado (sem acesso à via pública), pode exercer a preferência o proprietário do terreno onerado com a servidão, o dito "prédio serviente";
- nas restantes situações, a preferência recai sobre o proprietário que, ao juntar o terreno ao que irá ser vendido, ficar com a área mais próxima da unidade de cultura fixada para a zona;
- se houver empate, abre-se licitação entre os interessados.
Quando o terreno pertence a várias pessoas em compropriedade, e um dos donos quer vender a sua quota, os restantes têm preferência, que se sobrepõe à dos confinantes.
Da mesma forma, se o terreno fizer parte de uma herança ainda não partilhada, quem quiser vender o seu quinhão deverá dar preferência aos co-herdeiros.
Voltar ao topoQuais as obrigações de quem pretende vender um terreno?
Depois de encontrar um comprador que aceite as condições, o vendedor deve comunicar, a cada pessoa com direito de preferência, a intenção de venda e as cláusulas.
A comunicação deve indicar, pelo menos:
- a identificação do terreno;
- o preço;
- a forma e os prazos de pagamento;
- a identificação do comprador;
- a data prevista para a escritura;
- outras condições relevantes.
Quem é detentor do direito de preferência tem oito dias, a contar da receção da comunicação, para dizer se quer comprar nas condições expostas.
Se não responder no prazo, ou recusar, o direito caduca, e o proprietário pode vender ao comprador indicado nas condições comunicadas.
Na eventualidade de as condições mudarem (por exemplo, se baixar o preço), deve ser feita nova comunicação.
Voltar ao topoE se o vendedor do terreno não respeitar o direito de preferência?
Se a pessoa com preferência não for avisada, ou lhe forem indicadas condições diferentes das reais, pode levar o caso a tribunal, para lhe ser reconhecido o direito.
Tem seis meses a contar da data em que teve conhecimento dos elementos da venda, devendo depositar o preço nos 15 dias seguintes à entrada da ação.
Se, na escritura, for declarado um preço superior ao real para afastar os vizinhos, ou inferior para pagar menos impostos, a situação configura simulação de preço. Podem, então, surgir litígios sobre o preço a pagar por quem detém o direito de preferência. Declarar o preço verdadeiro é a forma mais segura de evitar problemas.
Para identificar os proprietários de terrenos confinantes e preparar a transação, o vendedor deve reunir documentos como:
- a caderneta predial rústica (obtida no Portal das Finanças);
- a certidão permanente do registo predial (no Predial Online ou numa conservatória);
- a planta ou representação gráfica georreferenciada do terreno (no Balcão Único do Prédio, conhecido como BUPi).
Na celebração de escritura ou na autenticação de documento particular, o notário ou outra entidade costuma pedir o comprovativo de comunicação a eventuais detentores do direito de preferência.
Guardar a prova das comunicações e das respostas (ou da falta delas) protege tanto o vendedor como o comprador.
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