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Metade da poluição do carro é desgaste de pneus e travões

As emissões poluentes do automóvel não se limitam aos gases de escape. Um fator pouco conhecido é o desgaste dos pneus, que pesa nas emissões de um carro.

  • Dossiê técnico
  • Alexandre Marvão
  • Texto
  • José Macário e Nuno César
04 setembro 2020
  • Dossiê técnico
  • Alexandre Marvão
  • Texto
  • José Macário e Nuno César
pneu na oficina

iStock

Na poluição atmosférica provocada pela indústria automóvel, a fatia de leão pertence às emissões poluentes dos veículos que rolam diariamente na estrada. Os automóveis com motores de combustão, a gasóleo ou a gasolina, estão sob grande pressão devido às elevadas emissões. Destacam-se as partículas da queima dos combustíveis fósseis, responsáveis por doenças de foro respiratório e de coração, apesar de a União Europeia também estar preocupada com as emissões de dióxido de carbono. Muito tem sido exigido aos fabricantes para limitarem as emissões e apostarem na produção de carros elétricos. Mas os pneus continuam esquecidos. Para oferecerem mais aderência e durabilidade, os pneus são produzidos com recurso a um cocktail em que há de tudo e não apenas borracha. Estudos recentes comprovam que os pneus degradam-se enquanto rodam, desfazendo-se lentamente devido à fricção no asfalto e emitindo para atmosfera pequenas partículas.

Ver marcas de pneus mais resistentes

Todos já estamos conscientes dos efeitos dos gases de escape na saúde humana. Mas poucos sabem que, além destes gases, gerados pela combustão do motor, há mais emissões a ter em conta e que são responsáveis por 50% do valor total de partículas poluentes originárias nos automóveis. Falamos das fontes “extra-escape”, ou seja, partículas geradas pelo desgaste dos travões, da estrada e dos pneus. Em ambos os casos, as partículas podem ser de tal modo pequenas que ficam suspensas na atmosfera e têm efeitos nocivos na saúde humana.

A legislação sobre a emissão de gases poluentes tornou-se mais restritiva, mas só por si esta medida não é suficiente. Ainda que não se antecipem grandes variações nos valores de partículas emitidas por desgaste (pneus e travões), pertence-lhes uma fatia maior do total de emissões.

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Composição de pneus e travões contribui para poluição

Em média, um pneu de um automóvel ligeiro de passageiros contém cerca de 30 tipos de borracha sintética, oito de borracha natural, outros tantos de negro de fumo (o que dá a cor ao pneu), fios de aço, nylon e poliéster. Isto sem contar com 40 tipos diferentes de químicos, ceras, óleos, pigmentos e sílica. Ao longo dos cerca de 50 mil km que cada pneu percorre no ciclo de vida normal, entre 10% e 30% de todos estes componentes são libertados sob a forma de partículas e lançados na atmosfera. Já ao nível dos travões cerca de 50% das partículas criadas durante o processo de desgaste acabam na atmosfera.

Independentemente de serem travões de disco ou de tambor, a fricção entre as pastilhas de travão e o componente rotativo gera o desgaste dos materiais e causa a libertação de partículas. Nos pneus, além do processo normal de desgaste mecânico, gerado pelo atrito entre o pavimento e o pneu, sempre que a temperatura provocada por esse atrito excede os 180ºC (travagem brusca, curva em alta velocidade ou outra manobra violenta) partes do pneu são volatilizadas.

Vários fatores contribuem para uma maior ou menor emissão de partículas dos pneus. No caso dos travões, os materiais usados na construção influenciam a emissão de partículas, tal como as condições atmosféricas e o estilo de condução.

No que toca aos pneus, os fatores abrangem quatro grandes grupos:

  • características do pneu (tamanho, construção, pressão, área de contacto, entre outros);
  • características do automóvel (tipologia, peso, carga e distribuição, potência do motor, sistema de travagem, manutenção, etc.);
  • características do piso (material, textura, porosidade, manutenção, etc.);
  • operação do veículo (velocidade, aceleração linear, frequência e força de travagem ou de curva, entre outros).

Efeitos das partículas de pneus e travões na saúde

O ar ambiente contém entre 0,2 e 11 µg/m3 de partículas de pneu, uma fração do total emitido. Grande parte acaba na estrada ou nas bermas. Do restante, existe ainda uma parte que adere às superfícies do veículo, fruto da carga eletroestática que a borracha tende a desenvolver. Assim, apenas 10% do total de partículas emitidas acaba por encontrar o caminho para os nossos pulmões.

Também respiramos partículas microscópicas geradas pelo desgaste dos travões, mas numa percentagem muito maior: 80% de todas as partículas que ficam no ar são ultrafinas e constituem perigo para a saúde humana, como é o caso do agravamento da asma, algumas doenças cardiovasculares e até o cancro do pulmão.

Os efeitos tóxicos das partículas dos pneus atribuem-se maioritariamente à presença de zinco, um material nocivo para a saúde, com efeitos adversos para os sistemas respiratório e vascular. Também o tipo de pneu e o pavimento em que este rola influenciam os efeitos na saúde.

Também foram examinados os componentes orgânicos destas partículas, que constituem 10% do total de resíduos de pneu e, quando volatilizados, criam compostos cancerígenos, como os HAP (hidrocarbonetos aromáticos policíclicos). Segundo os testes, a exposição das células alveolares a estes compostos leva a um aumento na mortalidade e a danos no ADN, bem como a elevadas alterações na morfologia celular, sobretudo em doses mais elevadas. A inalação de partículas com origem no látex presente nos pneus também provoca o aumento de reações alérgicas e da mortalidade ligada à asma.

Como diminuir a exposição a partículas poluentes?

A resposta é simples: reduzir as partículas emitidas para a atmosfera. Com gestos simples. Em primeiro lugar, a opção pela utilização dos transportes públicos é uma boa atitude. Os autocarros também têm pneus e travões, mas o rácio de partículas emitidas por pessoa é muito inferior ao de um automóvel ligeiro ou de uma moto.

Se não puder prescindir do automóvel nas deslocações, opte por praticar uma condução sem acelerações e travagens bruscas ou excessos de velocidade. O portal Mais Mobilidade destaca pistas para adotar um estilo de condução que, além de diminuir o desgaste destes componentes, permite poupar no gasto com combustíveis e na conta da oficina.

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