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Nutri-score: as cores no rótulo que classificam os alimentos

Através de um código de cores e de letras, o Nutri-score dá uma nota global a cada alimento. Associações de consumidores e outros setores da sociedade civil pediram à Comissão Europeia que seja obrigatório nos países da União Europeia.

  • Dossiê técnico
  • Sofia Mendonça
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
28 abril 2020
  • Dossiê técnico
  • Sofia Mendonça
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
nutriscore

João Ribeiro

Algumas embalagens alimentares já têm um logótipo retangular dividido em cinco cores (verde, verde-claro, amarelo, laranja e vermelho), ligadas, por sua vez, às letras A a E. Com esta escala, pretende-se mostrar a qualidade nutricional dos alimentos e, ao mesmo tempo, apostar numa interpretação fácil e rápida. Em defesa da obrigatoriedade do sistema de rotulagem nutricional Nutri-score no espaço europeu, mais de 30 organizações, entre associações de consumidores, académicos e empresas alimentares, endereçaram, a 27 de abril, uma carta a Stella Kyriakides, comissária europeia para a saúde e segurança alimentar. O pedido surge antes da implementação da estratégia Farm to Fork (Do Prado ao Prato), iniciativa anunciada este ano pela Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, como parte integrante do "Green Deal" (Pacto Ecológico Europeu), e cujo objetivo é tornar o sistema alimentar sustentável. 

Escolher o alimento com conhecimento

Para debater a sinalética preconizada pelo Nutri-score, o auditório do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) encheu-se, logo pela manhã, a 13 de fevereiro. A conferência "Rótulos dos alimentos - Escolhas informadas", organizada pela DECO PROTESTE, era o mote para falar do símbolo Nutri-score. O "pai" do Nutri-score, Serge Hercberg, deslocou-se a Portugal para apresentar os seus argumentos a favor de um sistema de rotulagem que pretende simplificar a interpretação do consumidor sobre os alimentos que compra quando vai ao supermercado.

Além de Dulce Ricardo, em representação da DECO PROTESTE, marcaram presença Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Marta Borges, da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, e Isabel Castanheira, do INSA. Marcas como a Auchan (Paulo Monteiro), a Danone (Pedro Neves) e a Nestlé (Gonçalo Granado), que já adotaram esta rotulagem nutricional nos seus produtos, estavam presentes. Mas também a Sonae, representada por Ondina Afonso. Dois painéis moderados por Francisco Sena Santos, um dedicado à importância dos sistemas de rotulagem na relação com o consumidor, e outro às vantagens da uniformização dos sistemas de rotulagem nutricional, foram a oportunidade para se colocar em cima da mesa variadas abordagens. O secretário de Estado da Defesa do Consumidor, João Torres, encerrou a conferência.

 
Serge Hercberg apresentou o sistema de rotulagem por si concebido. 

 "Ajudar o consumidor a fazer escolhas saudáveis e a comparar facilmente vários produtos alimentares" e a levar "os fabricantes a inovar na composição dos alimentos" são os objetivos principais do Nutri-score, nas palavras de Serge Hercberg, o primeiro orador de fundo da conferência. "Quarenta publicações científicas defendem o Nutri-score", afirmou. Além disso, o "Nutri-score assinala como menos favoráveis alimentos associados ao risco acrescido de desenvolvimento de doenças crónicas, como o cancro e a obesidade".

Hercberg apoiou a sua argumentação em vários estudos práticos, que testaram, a partir da exposição ao Nutri-score, a melhoria da qualidade nutricional dos alimentos à venda. Outra questão levantada por este académico, formado em medicina, com especialização em nutrição, é a da igualdade do acesso à alimentação, algo que o Nutri-score promove, por ter uma apresentação muito simples. Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Países Baixos e Suíça já adotaram este sistema. 

 
Pedro Neves, da Danone, Gonçalo Granado, da Nestlé, Francisco Sena Santos, moderador, Ondina Afonso, da Sonae, e Paulo Monteiro, da Auchan, integraram a mesa redonda sobre a importância da rotulagem na relação com o consumidor.
 Ambos os painéis de debate lançaram perguntas e dúvidas. Paulo Monteiro, da Auchan, perante as incertezas lançadas por Ondina Afonso, da Sonae, em relação ao Nutri-score, respondeu que "não há um sistema ideal. Mas o Nutri-score tem a capacidade de se fazer entender pelos consumidores menos letrados". E permite um salto qualitativo em termos de "saúde pública". Gonçalo Granado, da Nestlé, afirma que "o Nutri-score permite que o consumidor, na fração de segundo em que fica em frente de um produto no supermercado, tome uma decisão". Pedro Neves, da Danone, defende ser "essencial haver uma uniformização ao nível europeu". No que foi secundada por Alexandra Bento, a bastonária da Ordem dos Nutricionistas: "os hábitos alimentares são inoportunos. Não nos sabemos alimentar bem ou não podemos, por limitações económicas. Temos dificuldade na altura da escolha do alimento. É urgente e necessário agir, porque a sinalética impulsiona a indústria a melhorar os seus produtos. É tempo de decidir".
 
Dulce Ricardo, da DECO PROTESTE, Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Francisco Sena Santos, moderador, Marta Borges, da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, e Isabel Castanheira, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, da esquerda para a direita, debateram a uniformização dos sistemas de rotulagem.
Dulce Ricardo não tem dúvidas quanto à "interpretação fácil" permitida pelo Nutri-score, e "para todos os extratos sociais". Marta Borges, da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, não se mostrou muito segura quanto à adoção do Nutri-score, avançando que esta simbologia se enquadra no que se chama "uma alegação nutricional". Dulce Ricardo, técnica alimentar da DECO PROTESTE, relativizou: "À França e à Bélgica foi-lhes permitido pela Comissão Europeia usar o Nutri-score. Não me parece que haja um grande problema técnico. Seria discriminatório não autorizar noutros países".  É também o próprio Serge Hercberg a refutar tratar-se de uma alegação: "Como poderia tratar-se, se o Governo francês e a Comissão Europeia apoiaram o Nutri-score em França?". 

Maria João Gregório, do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, da Direção-Geral da Saúde (DGS), numa intervenção ancorada em vários estudos sobre rótulos e informação nutricionais, concluiu que o modelo do Nutri-score "tem um bom desempenho e permite classificar segundo o perfil nutricional". Considera, porém, que "pode haver no futuro necessidade de pequenos ajustes". Mas foi clara nas conclusões: "A DGS apoiará qualquer sistema de rotulagem nutricional simplificado".

O que é o Nutri-score

Um A sobre verde ou um E em cima de vermelho possui, na zona que os medeia, uma escala progressiva que distingue um alimento nutricionalmente mais interessante de outro no polo oposto. Atrás das letras está uma nota determinada pelo teor em fibras, proteínas, fruta, legumes e frutos secos, ácidos gordos saturados, açúcares, sal e calorias.

Para bebidas, óleos, gorduras e queijos, o cálculo é diferente. O algoritmo de base considera tanto os pontos favoráveis, como os desfavoráveis. A percentagem de fruta, legumes e frutos secos, fibras e proteínas são consideradas pontos positivos. Já os pontos a merecerem reprovação referem-se às calorias, à gordura saturada, aos açúcares e ao sódio (vulgo sal). O resultado é uma classificação correspondente à qualidade nutricional global do alimento. 

 
Nos supermercados portugueses encontram-se já, por exemplo, bolachas, chips à base de milho, leite, bebidas de soja, ervilhas enlatadas e refrigerantes com o logótipo Nutri-score. Do A ao E, encontrámos classificações distintas.
 

Proposta por uma equipa francesa de pesquisa em nutrição, liderada por Serge Hercberg, médico com especialização em epidemiologia e nutrição, o Nutri-score é, desde 2016, a escolha das autoridades de saúde francesas, aplicável aos alimentos transformados e pré-embalados, incluindo bebidas não-alcoólicas, para colocar na frente dos rótulos. Portugal convive com vários tipos de sinalética para comunicar os valores nutricionais dos géneros alimentícios, o que pode gerar alguma confusão. A harmonização seria vantajosa. De acordo com um estudo de 2017, encomendado pela Direção-Geral da Saúde, 40% dos inquiridos em Portugal não compreendem a informação nutricional nos rótulos. O Nutri-score é precisamente uma tentativa de ajudar o consumidor a compreender a mensagem, ajudando-o a tomar as melhores decisões. Com caráter opcional, o Nutri-score foi adotado em França, Bélgica e Espanha. Na Alemanha, alguns produtores também já o perfilharam voluntariamente, bem como na Áustria, na Suíça e na Eslovénia.

 

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