Notícias

Como descodificar rótulos que podem induzir em erro

Início

Mostramos 12 produtos cujas embalagens nem sempre são aquilo que parecem. Conheça as estratégias que as marcas usam para captar a atenção do consumidor.

  • Dossiê técnico
  • Sofia Mendonça e Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Myriam Gaspar e Nuno César
11 julho 2018
  • Dossiê técnico
  • Sofia Mendonça e Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Myriam Gaspar e Nuno César
descodificar rótulos

iStock

A lei da rotulagem, aplicável desde final de 2014, veio obrigar as marcas a prestarem mais informação aos consumidores. Alguma é facultativa, outra obrigatória, como a lista e a quantidade de ingredientes que são usados no fabrico e figuram na denominação ou que são destacados por imagens ou palavras. As embalagens, porém, nem sempre correspondem ao conteúdo. Para captar a atenção e convencer os consumidores a comprarem, a imagem é fundamental.

As marcas gastam milhões de euros para influenciar as suas escolhas, uma tarefa cada vez mais difícil nos dias que correm. Todos os anos são lançados milhares de novos artigos para o mercado. Distinguir-se da concorrência não é fácil. O sucesso de qualquer negócio depende muito, por isso, do marketing. A imaginação das marcas é o limite, desde que não violem a lei.

Consumidores e especialistas inspecionam prateleiras

Visitámos supermercados e hipermercados para procurar rótulos de produtos alimentares que criam, quer pela denominação, quer por imagens ou palavras, a perceção no consumidor de que contêm determinados ingredientes (veja exemplos na fotogaleria). Casos como estes que encontrámos, e de outras marcas, podem acontecer sobretudo quando o ingrediente é mais caro.

Para enriquecer o nosso estudo, convidámos os consumidores online a enviarem-nos casos de produtos que, na sua opinião, não correspondiam ao que esperavam. A grande maioria dos participantes (80%) disse ter o hábito de verificar os rótulos dos artigos, sobretudo quando são processados (bolachas, sumos, bolos, etc.) ou quando é a primeira vez que compram determinada marca.

Contudo, quem lê mais atentamente a composição são as pessoas que seguem regimes alimentares, têm crianças ou problemas de saúde (exemplo dos diabéticos e celíacos.) Apenas 20% admitiram não consultar os rótulos, quer porque têm confiança na marca, quer porque não conseguem perceber as informações apresentadas. 

Caso encontre algum produto que induza em erro, partilhe connosco, enviando os exemplos para o endereço alimentacaoesaude@deco.proteste.pt, com o assunto "rótulos".

Falta de clareza

Os participantes salientaram, sobretudo, a discrepância entre o que está na frente da embalagem e o que vem na lista de ingredientes. Há rótulos em que os ingredientes principais não surgem destacados, mas vêm na lista. Outros aparecem em menor quantidade do que o esperado, mas surgem em destaque. Os participantes mencionaram também a presença frequente de aditivos, como corantes e conservantes, em produtos que pensavam ser naturais. A falta de clareza em relação à origem dos produtos é outra das queixas. Para saber mais, consulte a nossa página dedicada à rotulagem. Para este estudo, tivemos apenas em conta exemplos enviados que ilustram a omissão e presença de ingredientes que, através de palavras ou imagens, se tornam potencialmente enganadores para os consumidores.

Lei pode melhorar

A legislação tem evoluído positivamente. Hoje, existem menções que são obrigatórias, como a declaração nutricional, e que no passado eram facultativas. Por exemplo, já não basta referir a utilização de óleos vegetais, é preciso indicar a origem específica: óleo de girassol, óleo de palma, etc. Contudo, ainda há espaço para melhorar a lei. Devem ser definidas regras sobre o destaque dado a ingredientes nos rótulos, através, por exemplo, de imagens ou denominações.

Um ingrediente só deveria aparecer destacado se fosse o principal. Isto é, se estivesse nos primeiros lugares da lista de ingredientes. Além disso, só faz sentido um ingrediente ser destacado se outros, que existem em maior quantidade, também o forem. A obrigatoriedade de indicação da percentagem do ingrediente também na frente do rótulo torná-lo-ia mais transparente. Falta ainda definir o termo “sabor a ...”. O uso de aromas em produtos que referem o sabor, por exemplo, a fruta, causa desconfiança, sobretudo quando, na lista de ingredientes, o consumidor só encontra aromas, e não fruta ou sumo de fruta.

Também nada se diz sobre o modo de apresentação da informação nutricional. Há muito que defendemos a harmonização em toda a União Europeia, por exemplo, recorrendo a um sistema de cores do tipo "semáforos". Mais: segundo as regras, esta informação pode ser expressa por 100 g ou 100 ml e, adicionalmente, por porção, quando o ideal seria que fosse sempre expressa por 100 g/100 ml e por porção.

As bebidas alcoólicas continuam isentas da indicação de uma lista de ingredientes, quando esta informação é já obrigatória nos restantes alimentos embalados. O vinho inclui aditivos que o consumidor desconhece, mas a lei só exige a indicação de sulfitos (expressos pelo símbolo SO2), quando presentes em concentrações acima de 10 mg/l, pelo seu potencial alergénico. Não obriga a revelar a presença de outros ingredientes, como o ácido sórbico. A bem da transparência, exigimos a lista completa de ingredientes no vinho.


Imprimir Enviar por e-mail