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Consulta de nutrição ou plano de emagrecimento? Pergunte antes de marcar

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As intervenções nutricionais propostas às nossas colaboradoras até foram adequadas, mas a gestão das expectativas nem sempre se mostrou a melhor. Além disso, alguns locais com consultas mais baratas tentaram vender-lhes suplementos.

01 abril 2022 Exclusivo
Maçã vermelha com gráfico de eletrocardiograma e coração por cima, envolta num estetoscópio, sobre uma superfície branca

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Algures entre a reverência de outrora a formas generosas enquanto sinónimo de beleza e a ditadura de hoje, que policia sem misericórdia os quilos supostamente excessivos, estará o equilíbrio de um peso saudável.

Antes da pandemia, Portugal era já um país com números preocupantes. O Instituto Nacional de Estatística mostra que, em 2019, mais de metade da população a partir dos 18 anos tinha excesso de peso ou mesmo obesidade. Por outro lado, os números da Direção-Geral da Saúde (DGS) revelam um aumento das hospitalizações por anorexia nervosa entre 2016 e 2019. Acontece que a pandemia teve um efeito disruptivo na dieta de muitos de nós. Cerca de 42% dos inquiridos no âmbito do REACT-COVID, estudo da DGS, afirmaram ter piorado os hábitos alimentares, e mais de 26% declararam ter aumentado de peso.

Quisemos, assim, analisar a oferta de consultas de nutrição proporcionadas por clínicas e farmácias e, em regra, ficámos satisfeitos com o que vimos. A maioria dos nutricionistas visados fizeram uma correta avaliação das nossas três colaboradoras, que receberam uma intervenção nutricional, as mais das vezes, adequada aos seus perfis e às suas necessidades. Ainda assim, frequentemente, esqueceram-se de quantificar as porções a ingerir. Veja os principais resultados do nosso estudo.

Analisámos três cenários em 14 clínicas e farmácias de Lisboa

Neste estudo por cenário, em que participaram três colaboradoras de forma anónima, considerámos os indicadores das entidades reguladoras, como a Ordem dos Nutricionistas, quanto às boas práticas para a realização de consultas de nutrição presenciais e online. Entre outros, analisámos a intervenção nutricional, investigámos a venda de suplementos alimentares e recolhemos os preços das consultas. Após cada consulta, as colaboradoras preencheram um inquérito.

Concebemos um cenário para cada uma das três colaboradoras. A primeira, com índice de massa corporal superior a 30 kg/m2, ou seja, numa situação de obesidade, pretendia emagrecer, pelo menos, 20 quilos... mas em dois ou três meses. A perda de peso era altamente recomendada neste caso, mas não tantos quilos em tão pouco tempo. Havia que traçar objetivos realistas. Por exemplo, perder 500 gramas a um quilo por semana é concretizável e traz benefícios para a saúde. Por sua vez, a colaboradora com índice de massa corporal inferior a 18,5 kg/m2, bastante magra, pretendia ver-se livre de quatro quilos. A atitude correta seria demovê-la de tal objetivo. O último cenário apontou a mira aos efeitos da pandemia. Queixando-se de ter aumentado três a quatro quilos num ano e meio de confinamentos, a terceira paciente gostaria de regressar ao peso inicial. Nos dois primeiros cenários, as consultas foram presenciais e, no terceiro, por videoconferência.

No total, avaliámos 37 consultas de nutrição em 14 clínicas e farmácias de Lisboa. Fomos obrigados a descartar três consultas. As razões? Na Farmácia Açoreana, a nutricionista aconselhou a paciente magra a aumentar de peso, mas referiu que apenas ajudava pessoas a emagrecer, o que não era o caso. Já perante a hesitação da colaboradora com obesidade em adquirir suplementos, recomendou que procurasse ajuda noutro lugar, porque só trabalhava com o método EasySlim.

Na Farmácia Algarve, a paciente mais magra saiu da consulta sem qualquer recomendação, mas também não teve de pagar. Foi-lhe dito que voltasse na semana seguinte.

Também na Very Clinic, a colaboradora com peso a mais recusou os suplementos exigidos para levar a cabo a Dieta dos 3 Passos. No caso da paciente magra, a abordagem foi completa e adequada, com foco no aumento de peso − nem sequer falaram em suplementos alimentares.

Os resultados a que chegámos são uma fotografia do momento.

Expectativas dos pacientes nem sempre bem geridas

A relação entre peso e altura, para determinada idade, é a trave-mestra de qualquer regime alimentar. Em todas as consultas online, os nutricionistas tiveram a preocupação de questionar ou dar indicações que lhes permitissem fazer esta avaliação antropométrica. Mas atribuímos nota máxima aos que perguntaram ainda sobre valores recentes e perímetro da cintura e da anca. Nas versões presenciais, deveriam ser os nutricionistas a fazer as medições, o que aconteceu sempre. Mas, em relação à altura, a maioria limitou-se a perguntar. Ora, no caso da colaboradora abaixo do peso normal, deveriam ter sido feitas medições, importantes para o cálculo do índice de massa corporal. Sem valores rigorosos, a intervenção nutricional pode não ser adequada.

O historial clínico-nutricional é outra vertente a considerar. Doenças, antecedentes familiares, problemas gastrointestinais, toma de medicamentos, suplementos alimentares ou produtos para emagrecer, e tentativas ou perdas de peso devem ser investigados, e foram-no de um modo geral. Mas, na Farmácia Holon (Campo Grande), avaliada negativamente, as questões dirigidas à paciente mais magra ficaram aquém do suficiente para conhecer o seu estado de saúde.

Os hábitos alimentares (anamnese, em termos técnicos), que incluem, entre outros, o número de refeições diárias, o tipo e a quantidade de alimentos ingeridos e o consumo de água e bebidas alcoólicas, também foram averiguados de forma correta pela maioria dos profissionais. Nota negativa, no entanto, para a consulta online da Farmácia Algarve: o nutricionista questionou apenas sobre o consumo de líquidos, prescrevendo de imediato a dieta EasySlim, assente na toma de suplementos alimentares.

Investigado o paciente e as suas circunstâncias, o nutricionista deve fazê-lo compreender que só o pode guiar na conquista dos seus objetivos. Para tal, tem de saber que objetivos são esses, se são realistas e, se o não forem, ser claro e orientar sobre a forma como podem ser alcançados os resultados mais adequados. Deve ainda perceber a relação do paciente com a alimentação, o seu estado emocional e a sua motivação.

Mais de metade dos nutricionistas deram resposta equilibrada ao pedido da nossa colaboradora com obesidade. Alertaram para a necessidade de a perda de peso ser lenta, de modo que os quilos não fossem recuperados. A eliminação de bolos ou refrigerantes, por exemplo, traz já uma redução das calorias diárias e promove a alteração dos hábitos, uma estratégia menos drástica, que permite a habituação a um novo estilo de vida. Mas este processo leva mais tempo, o que deve ser explicado.

No caso da colaboradora mais magra, 10 em 14 nutricionistas, além de indagarem as motivações para a perda de quilos, não aceitaram o pedido. Pelo contrário, a paciente foi aconselhada a aumentar o peso.

Quanto à colaboradora com índice de massa corporal normal, em cinco das nove consultas online, foi questionada a motivação e a disponibilidade para a perda de peso. Os objetivos foram, então, ajustados às necessidades da paciente, que pretendia perder só uns quilos e, assim, não teria riscos para a saúde.

Com todas as informações afinadas, são desenhados os planos nutricionais. O recurso a suplementos de minerais e vitaminas pode ser válido, já que, em dietas com poucas calorias, por vezes, é difícil assegurar as necessidades nestes micronutrientes. Mas o processo deve ser bem gerido, tanto na dosagem como na duração da toma.

A nossa colaboradora com excesso de peso obteve, no geral, boas propostas. Mereceram apreciação negativa a Clínica Persona e a Farmácia Algarve. No primeiro caso, foi aconselhado um plano alimentar restritivo e desequilibrado, com menos de 1000 quilocalorias diárias e limitado no consumo de hidratos de carbono. No segundo, foi sugerida a perda de um quilo e meio por semana, a tal dieta EasySlim, que é muito restritiva e recorre a suplementos dietéticos de certa marca. Sendo a suplementação vitamínica e mineral a única adequada, a restante era dispensável... com custos financeiros para a paciente.

Já a paciente demasiado magra ouviu da maioria dos nutricionistas que deveria ganhar peso. Mas, na Nutrialma, não recebeu orientações para o fazer. Por sua vez, a colaboradora que ganhou quilos durante a pandemia recebeu uma intervenção nutricional equilibrada na Nutrialma. Já na Farmácia Algarve, voltou a ser proposta a compra de suplementação e a dieta EasySlim, demasiado restritiva e muito além dos seus objetivos e necessidades.

A recomendação de atividade física completou a intervenção nutricional em todos os cenários, ainda que, para a colaboradora abaixo do peso normal, não fosse prioritária. A maioria recomendou caminhadas diárias de, pelo menos, 30 minutos. Para encontrar os melhores locais de treino, visite a nossa plataforma FitMap.

Planos de emagrecimento escondidos atrás de consultas

Uma consulta custa, em média, 50 euros, embora o preço mais frequente seja de 30 euros. Na maioria dos casos, não existe diferença entre a versão presencial e online. Ainda assim, as farmácias tendem a cobrar menos do que as clínicas. Entre 9 e 20 euros foi quanto as nossas colaboradoras pagaram. Em compensação, quase todos estes estabelecimentos propuseram suplementos como parte do plano, o que encarece os preços. Entre os produtos sugeridos, estão comprimidos, infusões, pão, bolachas e snacks.

Verificámos ainda que alguns nutricionistas recomendam alimentos específicos, como iogurte magro 0% da marca X ou queijo da marca Y. É certo que estas indicações podem ajudar o paciente a escolher as opções mais acertadas. Mas há outros profissionais que aconselham um leque de escolhas mais abrangente, com marcas de produtos equivalentes ou o nome genérico do tipo de alimentos. Portanto, desde que a lista de recomendações ofereça uma gama variada de produtos, não se focando tanto em marcas, as indicações podem ser bastante úteis na ida às compras.

O que já não é aceitável é a recusa de pacientes por não se enquadrarem em esquemas de emagrecimento preconcebidos. As consultas são da responsabilidade de um nutricionista. Segundo várias normas de orientação profissional e guias publicados pela Ordem dos Nutricionistas, devem ser evitadas abordagens padronizadas e embutidas em nomes comerciais. Independentemente das relações entre nutricionistas, farmácias e empresas detentoras de planos de emagrecimento, não é aceitável recusar pacientes, por não se enquadrarem em esquemas preconcebidos.

Por exemplo, na Farmácia Açoreana, ao recusar os suplementos, a paciente com obesidade recebeu da nutricionista o conselho de procurar outro especialista, pois a sua empresa só trabalhava com aquele método. Resposta idêntica obteve na Very Clinic, que só trabalhava com a Dieta dos 3 Passos.

Partilhámos estes cenários com Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, que nos lembrou as normas da sua instituição: “As consultas de nutrição devem refletir uma atuação baseada na evidência científica e nos princípios deontológicos que regulam a profissão de nutricionista, independentemente do local onde são realizadas e dos motivos.” E acrescentou que, se assim não for, “tais situações deverão ser reportadas ao Conselho Jurisdicional da Ordem dos Nutricionistas, para a devida análise e averiguação dos factos, sob pena de incorrerem em responsabilidade disciplinar”.

Portanto, já sabe: ao contactar a clínica ou a farmácia, questione se se trata de uma consulta ou de um plano de emagrecimento. Não se esqueça de perguntar se estará obrigado à compra de suplementos ou se terá uma intervenção talhada à sua medida.

 

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