Notícias

Combater o plástico descartável

Início

A batalha para a redução do plástico que usamos no dia-a-dia ainda agora começou. O projeto europeu Circ-Pack, no qual colaboramos, pretende perceber os hábitos dos consumidores. Começámos por um inquérito a quase dois mil portugueses.

  • Dossiê técnico
  • Ana Almeida e Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Nuno César
25 outubro 2018
  • Dossiê técnico
  • Ana Almeida e Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Nuno César
thumb-sacos-plastico

iStock

Cada cidadão do Velho Continente, estima a Comissão Europeia (CE), gera, sozinho, 58 toneladas de plástico anualmente, e mais de metade são embalagens. Este ano, a CE começou a contagem de espingardas para esta luta. O plástico é indispensável para embalar alimentos em segurança, é prático e, por isso, literalmente, tomou conta do mundo. Mas há uma contrapartida: a inundação do meio ambiente com resíduos de plástico – muitos terão um tempo de vida útil de meros minutos e séculos para desaparecer – a um nível insuportável. E só 30% é reciclado. 

Aderimos, entretanto, ao projeto Circ-Pack, que visa perceber melhor a relação dos europeus com o plástico e até que ponto estão disponíveis para aceitar novos tipos deste material. Objetivo: melhorar o contributo para a economia circular no espaço europeu, numa sociedade sem desperdícios, reaproveitando o plástico usado em novas cadeias de valor.

Testámos, por isso, a experiência dos consumidores com o plástico em Portugal, Espanha, Bélgica, Itália, Croácia e Kartal, um bairro de Istambul (Turquia).

Os resultados não surpreendem e denotam a preocupação generalizada dos cidadãos em relação ao problema. Daí que uma das medidas do projeto seja conhecer a recetividade dos europeus ao uso de bioplásticos. Podem ser vulgares sacos de compras (e outros produtos de embalagem) feitos com materiais biodegradáveis (e que têm, por isso, um tempo de vida muito inferior aos plásticos convencionais), como o milho ou a cana-de-açúcar, ou que, tendo matérias-primas de origem fóssil, podem degradar-se ao fim de uns meros seis meses.
Os inquiridos portugueses, tal como os seus congéneres europeus participantes no estudo, afirmam que o plástico de uso doméstico é um perigo para a saúde do planeta (94 por cento). Mais de metade (55%) até se considera bem informada sobre este impacto ambiental específico.

Mas das palavras e das reflexões aos atos ainda parece haver uma distância considerável. Apesar disso, 42% afirmam tomar muitas medidas para reduzir o uso de plástico no quotidiano. Prova disso talvez sejam os 78% que afirmam trazer sacos de casa para evitar comprar novos, por um lado, e, por outro, que só 2% ainda comprem sacos de plástico quando vão às compras.

Aliás, em termos genéricos, as preocupações ambientais aparecem em quarto lugar nas decisões de compra de produtos no dia-a-dia: a qualidade e o preço e as promoções associadas aos produtos lideram as preferências dos consumidores.

Olhar para os preços com cuidado acrescido, especialmente depois da experiência recente de crise que vivemos, tornou-se um desporto nacional. Mesmo assim, 80% consideram-se dispostos a pagar por sacos biodegradáveis e a maioria acredita que 7,36 cêntimos é uma fasquia suportável para os bolsos. Quanto a produtos embalados, no que diz respeito a novos materiais de plástico, a tendência também é animadora: 46% preferem o plástico biodegradável, contra 33% que afirmam ainda recorrer ao plástico convencional ou a embalagens sem ser de plástico.

Já antes nos tínhamos pronunciado sobre a entrada dos bioplásticos como substitutos privilegiados e amigos do ambiente no mercado. Mas, na altura, afirmámos duas condições para conseguir conjugar, com sucesso, as necessidades dos cidadãos com a saúde do planeta: a produção de bioplásticos não pode ser feita à custa de terrenos onde se produzem alimentos e o custo adicional não pode sair, na íntegra, dos bolsos dos consumidores.

Uma preocupação global

"O problema não é o plástico, mas o que fazemos dele”. A frase é do norueguês Erik Solheim, diretor da divisão de ambiente das Nações Unidas. Mas podia ser de qualquer um de nós. Das mais de 360 milhões de toneladas de plástico produzidas anualmente, 13 milhões vão parar diretamente ao mar. Para a produção atual de plástico são necessários 17 milhões de barris de petróleo.

É necessário diminuir o uso do plástico a partir da fonte, mas também precisamos de gerir melhor os resíduos que produzimos. Apenas 9% de todos os resíduos de plástico foram reciclados, a nível mundial. 12% desses resíduos foram incinerados e o resto, 79%, acumula-se em aterros, lixeiras ou no ambiente.

A Comissão Europeia decidiu, em finais de maio, atacar o problema e propor medidas robustas contra os plásticos descartáveis. A ideia é mesmo banir o plástico de diversos objetos de uso quotidiano, com destaque para os cotonetes, talheres, pratos, palhinhas, agitadores de bebidas e paus para balões em plástico, dado que podem já ser produzidos exclusivamente a partir de matérias-primas de fontes renováveis. Além destes produtos, também os recipientes descartáveis para alimentos e bebidas estão na mira da Comissão Europeia.

Os Estados-membros terão de reduzir a utilização de plástico, seja por fixar objetivos nacionais de redução, tornando disponíveis produtos alternativos nos pontos de venda, seja proibindo o fornecimento gratuito de plásticos descartáveis , tal como aconteceu com os sacos de plástico distribuídos nas caixas dos supermercados.

Outra novidade da proposta prende-se com o aumento da recolha das garrafas de plástico descartável para bebidas, esperando que a mesma atinja 90% em 2025. Para alcançar este valor, pode-se recorrer à restituição de depósitos, como taras recuperáveis, como acontecia na generalidade das garrafas de vidro noutros tempos. Esta prática é, aliás, comum em vários países europeus, nos quais se conseguem elevadas taxas de recuperação de embalagens de vidro, metal e mesmo plástico.

A situação nos oceanos preocupa, sobretudo no Pacífico e no Índico: os países asiáticos ainda têm muita dificuldade em gerir os seus resíduos – muitos não fazem, sequer, a recolha e o tratamento – e o destino deles, na maior parte dos casos, é o mar. Cerca de metade dos resíduos de plástico que acabam nos oceanos são gerados em cinco países: China, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietname. Mas os oceanos não têm fronteiras e o plástico, que pode demorar centenas de anos a “desaparecer” do fundo dos mares, vai-se degradando em partículas cada vez mais finas – os chamados microplásticos – e afetar espécies marinhas.

Estima-se que 100 mil animais marinhos morram todos os anos devido à ação do plástico. Os peixes que consumimos também têm vestígios destes materiais no estômago: portanto, também nós poderemos estar a consumir plástico por via indireta, e ainda não sabemos quais as consequências disso.