Notícias

Combater o plástico descartável

Início

A batalha para reduzir o plástico que usamos no dia-a-dia já começou. O projeto europeu Circ-Pack, no qual colaboramos, pretende perceber os hábitos dos consumidores.

  • Dossiê técnico
  • Ana Almeida e Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Nuno César
10 setembro 2019
  • Dossiê técnico
  • Ana Almeida e Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Nuno César
Embalagens inuteis

iStock

Cada cidadão do Velho Continente, estima a Comissão Europeia (CE), gera, sozinho, 58 toneladas de plástico anualmente, e mais de metade são embalagens. O plástico é indispensável para embalar alimentos em segurança, é prático e tomou conta do mundo. Mas há uma contrapartida: a inundação do meio ambiente com resíduos de plástico – muitos terão uma vida útil de meros minutos e séculos para desaparecer – a um nível insuportável. E só 30% é reciclado. No vídeo, veja os exemplos de embalagens inúteis que descobrimos. Partilhe as suas imagens e denúncias de uso desnecessário de plástico, através de um e-mail específico e nas redes sociais através da #plasticoamais. Vamos encaminhar os exemplos para os produtores ou retalhistas e pressionar para mudanças.

  

No inquérito recente online a 1115 consumidores, procurámos perceber o uso dado aos sacos de plástico de compra desde que passaram a ser pagos. A maioria dos portugueses já reutiliza os sacos de plástico, sobretudo para transportar outras compras ou objetos e para colocar o lixo. Outro dado positivo: 72% dos inquiridos revelam levar sacos de casa de tecido, de plástico reforçado ou os tradicionais para transportar as compras do supermercado. Mais de metade dos consumidores admitem reutilizar mais os sacos desde que são pagos, sobretudo para outras compras ou objetos. Já 41% afirmam reutilizá-los e colocá-los no ecoponto amarelo.

Projeto Circ-Pack

Aderimos ao projeto Circ-Pack, que visa perceber melhor a relação dos europeus com o plástico e até que ponto estão disponíveis para aceitar novos tipos deste material. Objetivo: melhorar o contributo para a economia circular no espaço europeu, numa sociedade sem desperdícios, reaproveitando o plástico usado. Testámos a experiência dos consumidores com o plástico em Portugal, Espanha, Bélgica, Itália, Croácia e Kartal, um bairro de Istambul (Turquia).

Os resultados não surpreendem e denotam a preocupação dos cidadãos. Daí que uma das medidas do projeto seja conhecer a recetividade dos europeus ao uso de bioplásticos. Podem ser vulgares sacos de compras (e outros produtos de embalagem) feitos com materiais biodegradáveis (e que têm um tempo de vida muito inferior aos plásticos convencionais), como o milho ou a cana-de-açúcar, ou que, tendo matérias-primas de origem fóssil, podem degradar-se ao fim de uns meros seis meses. Os inquiridos portugueses, tal como os congéneres europeus participantes, afirmam que o plástico de uso doméstico é um perigo para a saúde do planeta (94 por cento).

Mas das palavras e das reflexões aos atos ainda parece haver uma distância considerável. Apesar disso, 42% afirmam tomar muitas medidas para reduzir o uso de plástico no quotidiano. Prova disso talvez sejam os 78% que afirmam trazer sacos de casa para evitar comprar novos, por um lado, e, por outro, que só 2% ainda comprem sacos de plástico quando vão às compras.

Em termos genéricos, as preocupações ambientais aparecem em quarto lugar nas decisões de compra de produtos: a qualidade e o preço e as promoções associadas aos produtos lideram as preferências do consumidor.

Olhar para os preços com cuidado acrescido, especialmente depois da experiência recente de crise que vivemos, tornou-se um desporto nacional. Mesmo assim, 80% consideram-se dispostos a pagar por sacos biodegradáveis e a maioria acredita que 7,36 cêntimos é uma fasquia suportável para os bolsos. Quanto a produtos embalados, no que diz respeito a novos materiais de plástico, a tendência também é animadora: 46% preferem o plástico biodegradável, contra 33% que afirmam ainda recorrer ao plástico convencional ou a embalagens sem ser de plástico.

Já antes nos tínhamos pronunciado sobre a entrada dos bioplásticos como substitutos privilegiados e amigos do ambiente no mercado. Mas, na altura, afirmámos duas condições para conseguir conjugar, com sucesso, as necessidades dos cidadãos com a saúde do planeta: a produção de bioplásticos não pode ser feita à custa de terrenos onde se produzem alimentos e o custo adicional não pode sair, na íntegra, dos bolsos dos consumidores.

Preocupação global

"O problema não é o plástico, mas o que fazemos dele”. A frase é do norueguês Erik Solheim, diretor da divisão de ambiente das Nações Unidas. Mas podia ser de qualquer um de nós. Das mais de 360 milhões de toneladas de plástico produzidas anualmente, 13 milhões vão parar diretamente ao mar. Para a produção atual de plástico são necessários 17 milhões de barris de petróleo.

É necessário diminuir o uso do plástico a partir da fonte, mas também precisamos de gerir melhor os resíduos que produzimos. Apenas 9% de todos os resíduos de plástico foram reciclados, a nível mundial. 12% desses resíduos foram incinerados e o resto, 79%, acumula-se em aterros, lixeiras ou no ambiente.

A Comissão Europeia decidiu, em finais de maio, atacar o problema e propor medidas robustas contra os plásticos descartáveis. A ideia é banir o plástico de diversos objetos de uso quotidiano, com destaque para os cotonetes, talheres, pratos, palhinhas, agitadores de bebidas e paus para balões em plástico, dado que podem já ser produzidos exclusivamente a partir de matérias-primas de fontes renováveis. Além destes produtos, também os recipientes descartáveis para alimentos e bebidas estão na mira da Comissão Europeia.

Os Estados-membros terão de reduzir a utilização de plástico, seja por fixar objetivos nacionais de redução, tornando disponíveis produtos alternativos nos pontos de venda, seja proibindo o fornecimento gratuito de plásticos descartáveis , tal como aconteceu com os sacos de plástico distribuídos nas caixas dos supermercados.

Outra novidade da proposta prende-se com o aumento da recolha das garrafas de plástico descartável para bebidas, esperando que a mesma atinja 90% em 2025. Para alcançar este valor, pode-se recorrer à restituição de depósitos, como taras recuperáveis, como acontecia na generalidade das garrafas de vidro noutros tempos. Esta prática é, aliás, comum em vários países europeus, nos quais se conseguem elevadas taxas de recuperação de embalagens de vidro, metal e mesmo plástico.

A situação nos oceanos preocupa, sobretudo no Pacífico e no Índico: os países asiáticos têm muita dificuldade em gerir os seus resíduos – muitos não fazem, sequer, a recolha e o tratamento – e o destino, na maior parte dos casos, é o mar. Cerca de metade dos resíduos de plástico que acabam nos oceanos são gerados em cinco países: China, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietname. Mas os oceanos não têm fronteiras e o plástico, que pode demorar centenas de anos a “desaparecer” do fundo dos mares, vai-se degradando em partículas cada vez mais finas – os chamados microplásticos – e afetar espécies marinhas.