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4 ideias para baixar a potência na energia

Aceitámos o desafio do ministro. Fizemos contas ao consumo dos equipamentos que pode usar em casa se quiser baixar a potência contratada e usufruir da taxa mínima de IVA. 

21 novembro 2018
potencia eletricidade

iStock

A equipa da DECO PROTESTE aceitou o desafio do ministro do Ambiente e da Transição Energética, Matos Fernandes, na apresentação do Orçamento do Estado de 2019 e calculou o que teriam os portugueses de fazer para beneficiarem da redução do IVA na energia de 23% para 6%. Conclusão: é possível viver com uma potência contratada até 3,45 kVA. Só tem de organizar um sistema de senhas para uso sequencial dos eletrodomésticos em casa.

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1. Máquina da roupa e da loiça à vez

Usufruir da tarifa bi-horária e ligar as máquinas de lavar roupa e loiça após a meia-noite é uma das estratégias usadas pelas famílias portuguesas para pouparem energia. Mas, para isso, são necessários 3 a 4 kW de potência. Para manter os 3,45 kVA propostos pelo Governo terá de programar as máquinas para funcionarem de forma desfasada (caso tenham essa funcionalidade) ou abdicar da poupança proporcionada pelas horas de vazio.

2. Liga o forno, mas não usa água quente

Um forno elétrico gasta cerca de 2,8 kW. Ligar qualquer aparelho igualmente potente, como secador de cabelo, jarro elétrico, termoventilador, aspirador, torradeira, micro-ondas, termoacumulador ou ar condicionado, faz disparar o disjuntor. Com 3,45 kVA de potência pode continuar a fazer assados no forno, mas não usar água quente do termoacumulador. 

3. Aquece a casa, mas não cozinha

De um ponto de vista do uso de equipamentos eficientes, se quiser substituir uma caldeira a gás (com uma eficiência de 85%) por um ar condicionado multisplit (eficiência de 400%, no mínimo), num apartamento T3, tem de garantir 2 kW de potência só para o ar condicionado. Sobra 1 kW para o frigorífico, a televisão, a iluminação e a box da TV, mas já não pode ligar o forno, nem o micro-ondas.

4. Placa de indução ou carro elétrico: esqueça

Para usar uma placa de indução, o equipamento mais eficiente de todos a cozinhar, tem mesmo de abdicar dos 3,45 kVA. Com dois focos ligados à potência máxima, cenário muito provável na preparação de uma refeição simples, a placa consome 3,6 kW, mais do que o limite proposto pelo Governo. O mesmo se aplica a um carro elétrico, que é o desígnio último de eficiência na mobilidade individual. Para carregá-lo em casa são necessários, pelo menos, 3,5 kW. 

Falta de coerência ou de estratégia?

Na verdade, como mostram os cálculos da DECO PROTESTE, o Governo não está a pedir às famílias portuguesas que sejam mais eficientes do ponto de vista energético. Está a pedir-lhes que abdiquem de qualidade de vida e de conforto para usufruírem de uma redução no IVA que representa, em média, menos de 1 euro por mês nas suas faturas.

Dados da Comissão Europeia revelam que existe um problema grave de pobreza energética em Portugal. Em 2015, mais de 43% dos portugueses não conseguiam manter as casas quentes, contra uma média europeia que se situava nos 23 por cento. Quando há famílias com dificuldades em pagar a fatura da energia, a solução proposta é passar frio e/ou organizar um sistema de senhas para uso sequencial dos eletrodomésticos em casa, que de funcional ou de eficiente nada tem.

Baixar a potência contratada não é sinónimo de eficiência energética. Pedir para aumentar a eficiência energética nos consumos domésticos e dizer que bastam 3,45 kVA para viver é apenas demagógico.

Mais: quando se assume a descarbonização, que se traduz num aumento de consumo de eletricidade, como objetivo estratégico para o País e se definem metas exigentes para cumprir no que respeita à produção de energia renovável – nas palavras do ministro, há um compromisso político para "garantir a descarbonização até 2050" – todo o discurso soa a falta de coerência... ou a falta de estratégia.

Habitualmente na cauda da Europa, Portugal alinha pelos países mais caros, como a Finlândia (24%), a Dinamarca, Suécia e Croácia (25%) e a Hungria (27%), no que se refere ao IVA na energia. Repor o IVA mínimo para todas as famílias, situação que vigorava antes da entrada da troika em Portugal e da retoma da economia, não é só uma questão de justiça. É também uma questão de bem-estar e de eficiência.

 

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