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Carne já picada sem condições para ser vendida

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Há seis anos que o cenário se repete: sulfitos proibidos e temperaturas de conservação elevadas. A carne já picada dos talhos do nosso teste é um caldo de bactérias e de conservantes. Não recomendamos a sua compra. Escolha uma peça de carne e mande picar.

  • Dossiê técnico
  • Nuno Lima Dias e Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
26 fevereiro 2019
  • Dossiê técnico
  • Nuno Lima Dias e Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
carne picada

iStock

 

Tudo de novo e nada de novo na venda de carne picada nos talhos. A grande maioria das amostras (15 em 20) chumbou nos testes em laboratório. Pelas mesmas razões dos estudos anteriores: encontrámos sulfitos proibidos, temperaturas elevadas e elevado número de bactérias. A carne picada dos talhos que visitámos, em outubro de 2018, é um cocktail de bactérias e de sulfitos. E há uma combinação perfeita com o descuido no controlo das temperaturas das montras frigoríficas onde se encontra exposta. Apesar de todos os alertas e avisos, os resultados, seis anos desde o primeiro teste, continuam a ser maus. Em 20 amostras de carne picada de talhos visitados na Grande Lisboa e no Grande Porto, apenas quatro são razoáveis e uma boa.

Quem vende carne picada tem responsabilidade na situação. E a fiscalização deve ser mais robusta. Os talhos e os organismos de controlo ainda têm muito trabalho a desenvolver. Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), Secretário de Estado da Agricultura e Alimentação e Federação Nacional das Associações de Comerciantes de Carne (FNACC): a todas estas entidades já enviámos as conclusões do nosso estudo.

Sulfitos proibidos e temperaturas elevadas

A carne picada só pode conter sal, e em quantidades inferiores a 1 por cento. Os sulfitos não são permitidos. No entanto, descobrimos amostras com outros ingredientes. Ou seja, o consumidor está a ser enganado ao comprar um produto que já não é só carne picada. Os resultados são piores do que em 2013 e não muito diferentes dos de 2017. Só não encontrámos sulfitos em cinco amostras. Na carne picada comprada no Talho do Largo, no Porto, detetámos um valor superior a 1000 mg por quilo.

A carne picada é particularmente sensível, pelo que deve ser conservada a uma temperatura baixa. Não é fácil atingir os 2ºC, dado que, com frequência, o equipamento de frio está aberto e é o mesmo para conservar carne comum, definida para um máximo de 7ºC. Só três estabelecimentos cumpriam a lei: Pingo Doce e Talhos Luís & Edgar, ambos em Lisboa, e Carnes Pacheco, no Porto. A temperatura média de venda dos produtos analisados superou os 5ºC.

 

 
Os resultados dos testes a carne picada desde 2013 revelam que a maioria das amostras analisadas contém sulfitos e está conservada acima dos 2ºC, ao contrário do que manda a lei. Detetámos também ingredientes de origem vegetal, não autorizados na carne picada.

 Lei dispersa

A lei permite manter a carne já picada no expositor de venda. Contudo, nem sempre assim foi. Durante vários anos e até meados da década de 1990, só era permitida quando preparada a pedido e à vista do consumidor. Uma restrição, porém, abandonada nessa mesma década. Embora os requisitos sejam hoje mais rigorosos e os meios técnicos melhores, esse ponto de partida não se reflete nos resultados dos testes. Provam que a razão estava do nosso lado: não estão reunidas condições para a venda de carne previamente picada. Por seu turno, os critérios microbiológicos definidos para as carnes picadas, são muito escassos.

 

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