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Serviços e apps de restauro de fotos não fazem milagres

Prometem recuperar a informação de cor, incluindo em imagens a preto e branco, mas funcionam sobretudo em situações previsíveis. Se as cores originais forem pouco óbvias, os algoritmos não as adivinham.

  • Dossiê técnico
  • António Alves
  • Texto
  • Inês Lourinho
01 setembro 2020
  • Dossiê técnico
  • António Alves
  • Texto
  • Inês Lourinho
Máquina fotográfica, computador portátil, tablet com thumbnails, objetivas e provas de contacto sobre uma mesa de trabalho

iStock

Bem de mansinho, pé ante pé, as cores vão-se evaporando do seu fulgor inicial para darem lugar a uma dança aleatória de manchas e desbotamentos, a que nem mesmo o preto e branco consegue resistir. Luz solar, calor e humidade são inimigos mortais das fotografias impressas. Mas existem outros agentes menos óbvios, que também deixam a sua marca com o passar do tempo, como os adesivos ou as películas de celofane com que as imagens são fixadas aos álbuns para mais tarde recordar. Todos reagem quimicamente com o papel e deixam nele a sua impressão digital, ameaçando a fidelidade das memórias, que se querem para sempre com as cores originais.

A solução para resgatar esses pedacinhos de vida das garras do tempo? Ao introduzir num motor de busca, como o Google, os termos “colorize photos”, encontra vários serviços, e até aplicações para o telemóvel, que se propõem repor a cor e o esplendor das suas antigas amizades e demais relações. Um teste rápido permitiu-nos concluir que os resultados não diferem de forma muito significativa entre estas opções. Algumas situações, mais óbvias, conseguem resolver. Mas não fazem milagres.

Restauro de cores nem sempre resulta

Uma menina sorridente ao colo de uma avó feliz e um menino desconfiado, que receia o cenário que se desenrola à sua volta no dia do batizado: usámos estas duas chaves de acesso ao passado para testar a inteligência artificial do presente. Os serviços e as aplicações que se destinam ao restauro de fotos dizem recorrer a esta tecnologia para preencher a informação de cor entretanto desvanecida. Mas será que a inteligência artificial cumpre a tarefa? A resposta é clara: sim e não. Ou, dito de outro modo, depende.

apps restauro

Usar uma app no telemóvel envolve poucas etapas. Basta descarregar a app, digamos a Colorize Images, para Android, ou a Colorize - Color to Old Photos, para iOS, ambas gratuitas. Depois, é digitalizar ou fotografar a imagem em papel. O mais fácil é fotografar com o telemóvel, para o ficheiro ficar na galeria de imagens. Aconselhamos uma edição simples da foto, para retirar o espaço envolvente da imagem. Passos finais: abrir a foto na app e carregar no botão para proceder ao restauro das cores.

Seguimos este percurso com as duas imagens que escolhemos. Et voilà! As nossas provas de fogo devolveram resultados relativamente satisfatórios. A menina e a avó, que tinham como pano de fundo um previsível cenário de vegetação, ganharam nova dignidade cromática, ainda que o algoritmo tenha tropeçado nas tonalidades do casaco da criança, a puxar para o cinzento nas zonas mais claras e a hesitar entre o castanho e a cor de vinho nas partes mais escuras.

O comportamento parece mais consistente na cena da igreja. A fotografia original foi capturada a preto e branco, pelo que o algoritmo se viu confrontado com o desafio de adivinhar cores. As vestes, previsivelmente brancas, eram prova fácil. Idem para os cabelos, os olhos e até os óculos do senhor prior. Mas, se observarmos com olhos de ver, descobrimos que o painel de azulejos tornou-se... castanho. Perdoemos, pois, a ignorância ao algoritmo, por certo pouco ou nada familiarizado com azulejaria barroca. Ou talvez não. Faz falta a exuberância do azul à nossa sensibilidade cultural.

apps restauro

Não fossem as hesitações de cor no casaco da criança e o painel de azulejos castanhos (em vez de... azuis) no ambiente da igreja, o nosso teste prático às opções de restauro, como a app Colorize Images, teria devolvido bons resultados no caso de fotos antigas.

Acertar nas cores é tão difícil como acertar na lotaria

Quisemos, no entanto, testar outros cenários e preparámos uma maldade ao algoritmo. Pedimos uma caixa de brinquedos de empréstimo a uma criança, e fotografámo-la em cima de uma mesa de madeira. Convertemos a foto para preto e branco, fizemos o respetivo carregamento na app, premimos o botão de recuperação de cores... e eis que surgiu uma caixa de brinquedos renascida em termos cromáticos. Era amarela, embranqueceu. Porém, mais evidentes serão os casos da seringa e do termómetro de plástico. Em mil e uma, senão mil e duas, possibilidades, o algoritmo escolheu o amarelo, ao invés do azul-claro. Mas aqui, sim, merece a total absolvição dos seus pecados, pois o acerto seria tão provável como ganhar a lotaria. Salvou-se a mesa, castanha na origem, ainda que a tonalidade se tenha tornado mais intensa.

Por percebermos as limitações do algoritmo, demos-lhe uma folga, para que pudesse voar sobre a fasquia da exigência. Escolhemos, por fim, uma imagem com componentes mais previsíveis, e confirmámos as nossas conclusões. A foto de um prédio inserido num ambiente com alguns elementos rurais foi passada para preto e branco e ressuscitada com a ajuda da app. É verdade que a barra amarela do prédio empalideceu e que a relva se tornou mais verdejante, mas o resultado é bastante mais consistente. 

Regressamos à pergunta: a inteligência artificial consegue mesmo restaurar a cor das fotografias? E a resposta: depende da previsibilidade do cenário. Se as cores originais forem aleatórias, nem pensar. No dia em que houver algoritmos para adivinhar a lotaria, seremos todos ricos...

O teste prático com cenários mais exigentes

Fotografámos dois cenários, passámos as imagens para preto e branco e tratámo-las com a app de restauro. Uma caixa de brinquedos com cores aleatórias deu resultados muito diferentes. Já um prédio num ambiente rural ficou mais consistente.

Imagens originais

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Imagens convertidas em preto e branco

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Imagens tratadas com uma aplicação de restauro

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