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Cigarros eletrónicos: alternativa ao tabaco tradicional?

A Direção-Geral da Saúde desaconselha os e-cigarros, por suspeitas de estarem associados a doenças pulmonares. São prejudiciais, refere a Organização Mundial de Saúde.

  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Fátima Ramos
07 fevereiro 2020
  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Fátima Ramos
mulher a fumar cigarro eletrónico

iStock

A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que os cigarros eletrónicos são prejudiciais à saúde e não são seguros. Contudo, afirma que é muito cedo para fornecer uma resposta clara sobre o impacto a longo prazo de usá-los ou de estar expostos a eles.

Por cá, a Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) desaconselham a sua utilização, com particular destaque para os que contêm líquidos com canabidiol e outros derivados de canábis, acetato de vitamina E e diacetil.

Cigarros electrónicos associados a doenças respiratórias

Nos Estados Unidos, foram reportados ao Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) 2668 casos de doença respiratória grave possivelmente associados ao uso de cigarros eletrónicos.

Apesar de variável, a doença tem algumas caraterísticas comuns nos casos relatados, nomeadamente, febre, fadiga ou dor abdominal, sintomas respiratórios (tosse, falta de ar, dor no peito) e gastrointestinais (náuseas, vómitos ou diarreia).

As autoridades norte-americanas estão a investigar a eventual relação causal entre os casos relatados e o uso dos e-cigarros, bem como as substâncias envolvidas. O acetato de vitamina E, o canabidiol e outros derivados de canábis parecem ser substâncias associadas às lesões pulmonares descritas. 82% dos pacientes hospitalizados, em 2019, relataram usar produtos contendo canabidiol, sendo que 33% admitiram o uso exclusivo de produtos contendo esta substância.

Até à data, não há casos reportados em Portugal.

Componentes dos e-cigarros sob suspeita

O líquido que dá origem ao aerossol dos cigarros eletrónicos não tem só água: há solventes, como a glicerina vegetal e o propilenoglicol, aromas e, na maioria dos casos, a famosa nicotina.

Muitos dos aromas presentes nos e-cigarros são usados, de forma segura, na alimentação. Porém, não se conhecem bem as consequências que podem ter, quando aquecidos e inalados. Já a nicotina está bem estudada: a substância age sobre determinados recetores no cérebro e fora dele, provocando estimulação ou depressão, conforme a intensidade e a frequência com que é inalada. Por exemplo, pode estimular o sistema nervoso central, e a pessoa fica mais ansiosa, ou atuar sobre o sistema cardíaco, acelerando o ritmo do coração (taquicardia). A nicotina pode ainda prejudicar os vasos sanguíneos, o sistema hormonal e o metabolismo, entre outros.

É verdade que há e-cigarros sem nicotina, mas continua a desconhecer-se o impacto do restante cocktail que compõe o aerossol. As diferentes combinações de solventes e aromas resultam numa grande variedade de produtos químicos no aerossol, o que dificulta o estudo dos efeitos toxicológicos dos cigarros eletrónicos.

Entre as substâncias químicas já identificadas, encontram-se compostos de carbonilo (por exemplo, formaldeído, acetaldeído, acetona e acroleína), compostos orgânicos voláteis (benzeno e tolueno, entre outros), nitrosaminas do tabaco e metais pesados, como níquel, cobre, zinco, estanho e chumbo. Estas substâncias são suspeitas de causar danos no DNA e, por consequência, mutações genéticas.

Os e-cigarros não produzem combustão, fenómeno que origina os componentes mais prejudiciais do tabaco tradicional, mas ambos comungam de outras substâncias potencialmente perigosas. E, mesmo que a concentração e a temperatura de aquecimento sejam inferiores nos cigarros eletrónicos, os danos na saúde não estão excluídos. 

Algumas investigações associam o uso de cigarros eletrónicos a tentativas bem-sucedidas de deixar de fumar, enquanto outras apontam no sentido contrário, sugerindo um potencial efeito negativo no cumprimento desse objetivo. A OMS diz que não há provas suficientes de que ajudem os fumadores a deixar de fumar. 

Por outro lado, é sabido que alguns fumadores usam concomitantemente tabaco tradicional e cigarros eletrónicos, prática que se suspeita ser mais arriscada do que o recurso a apenas uma das versões.

Os novos fumadores são outra preocupação. O cigarro eletrónico pode ser uma rampa de lançamento para a aquisição de hábitos tabágicos, pensando os utilizadores que estão a consumir apenas vapor de água.

Há também "riscos significativos para as mulheres grávidas, porque pode alterar o desenvolvimento do feto”, refere a OMS.

Conselhos para defender a saúde respiratória

  • Os cigarros eletrónicos, com ou sem nicotina, nunca devem ser usados, sobretudo por jovens, jovens adultos ou grávidas.
  • Os consumidores de cigarros eletrónicos não devem modificar os líquidos para cigarro eletrónico legalmente comercializados e devidamente rotulados pelo fabricante.
  • Não recorrer a líquidos ou produtos comprados fora dos circuitos legais de comercialização, incluindo através da internet.
  • As instruções de uso e contraindicações que, obrigatoriamente, acompanham os cigarros eletrónicos devem ser observadas e os dispositivos devem ser mantidos fora do alcance das crianças.
  • Os consumidores de cigarros eletrónicos devem ir ao médico se tiverem tosse, falta de ar, dor no peito, febre, calafrios, náuseas, vómitos, dor abdominal ou diarreia. Os sintomas podem desenvolver-se durante alguns dias ou várias semanas.
  • Os adultos que usam cigarros eletrónicos para deixar de fumar devem avaliar os riscos e benefícios desta alternativa e considerar a utilização de terapêuticas de substituição de nicotina aprovadas pelo Infarmed, ou procurar apoio do médico ou numa consulta de apoio à cessação tabágica.

 

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