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O risco do uso de testosterona e outras hormonas em estética

A testosterona é uma das hormonas mais usadas fora da indicação, para fins estéticos, como o aumento muscular, e combate ao envelhecimento. Há mais e todas acarretam riscos.

  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Sofia Frazoa e Filipa Nunes
18 setembro 2019
  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Sofia Frazoa e Filipa Nunes
hormonas

iStock

A testosterona é uma das hormonas mais usadas off-label (fora das suas indicações terapêuticas aprovadas) para fins estéticos, como o aumento muscular, e para combate ao envelhecimento, na chamada “medicina anti-ageing". Mas não é a única. Há várias hormonas a serem usadas, mas podem ser prejudiciais para a saúde.  

O sistema endócrino, responsável pela produção de hormonas que regulam a função de múltiplos processos no corpo humano, sofre alterações da sua função com o envelhecimento. Os níveis das hormonas sexuais (estrogénios na mulher, testosterona no homem), das hormonas da tiróide ou da hormona do crescimento, entre muitas outras, variam em função da idade. Essas alterações hormonais são normais e não devem ser compensadas, quando em níveis normais para a idade. Têm-se verificado um melhor estado de saúde e uma maior longevidade em pessoas idosas com níveis hormonais característicos da sua idade do que em idosos com níveis hormonais característicos de pessoas mais jovens. 

Aumentar a massa muscular com esteroides e outras hormonas

Tem sido demonstrado que os esteroides androgénicos anabolizantes (EAA), onde se inclui a testosterona e outras hormonas, como a do crescimento e o fator de crescimento tipo insulina 1 (IGF-1), aumentam a massa muscular em pacientes que sofrem de várias doenças relacionadas com atrofia muscular.

Apesar dos efeitos colaterais associados a estas substâncias, os efeitos anabólicos (síntese de substâncias no organismo) levaram ao uso e abuso por parte de culturistas e atletas que tentam melhorar o desempenho e aumentar a massa muscular.

Embora as propriedades anabólicas diretas não tenham sido reconhecidas, o uso de insulina também tem ocorrido entre culturistas e atletas de força que procuram este aumento muscular. A insulina tem propriedades preventivas em relação à degradação de proteínas e é uma poderosa hormona transportadora, muitas vezes usada antes ou depois de um treino, apesar do risco de hipoglicemia, com o objetivo de transportar o máximo de nutrientes possível para as células musculares danificadas. Também é usada para aumentar a absorção de nutrientes.

Altas doses de EAA podem causar efeitos colaterais, como a acne ou a retenção de líquidos, ou mais graves, como o desenvolvimento exagerado das mamas nos homens (ginecomastia), infertilidade e alteração da libido, diminuição do "colesterol bom" (HDL) e apneia do sono. Efeitos colaterais extremos podem levar a complicações letais, como insuficiência hepática e desenvolvimento de certos tipos de cancro.

Os efeitos secundários mais comuns no abuso da hormona do crescimento são diabetes em indivíduos propensos, agravamento das doenças cardiovasculares, dores musculares, das articulações e dos ossos, hipertensão e deficiências cardíacas, crescimento anormal dos órgãos e osteoartrite acelerada.

Hormonas no combate ao envelhecimento

Nos últimos anos tem-se assistido à proliferação de terapêuticas não aprovadas para tratar problemas relacionados com o envelhecimento. A falta de aprovação deve-se ao facto de não ter sido demonstrada eficácia ou de estas terapêuticas colocarem em risco a saúde. Vulgarmente designadas por “alternativas” ou “não-convencionais”, estas terapêuticas são utilizadas no contexto da chamada “medicina antienvelhecimento”.

Termos como “modulação hormonal” ou “hormonas bioidênticas” também são utilizados para designar a administração de substâncias com efeitos no sistema endócrino, as quais nem sempre são controladas pelas entidades reguladoras do medicamento ou são utilizadas fora das indicações para que foram aprovadas.

São vários os agentes, muitos sem formação na área, que promovem a utilização destes compostos mesmo quando os níveis hormonais são normais para a idade, ultrapassando a indicação geral de os utilizar quando os níveis hormonais são insuficientes. 

Algumas das substâncias mais utilizadas neste contexto são a testosterona, a hormona do crescimento, os estrogénios e a DHEA (Dehidroepiandrosterona).

Testosterona

A testosterona é a principal hormona sexual masculina. No homem, os seus níveis sofrem um normal declínio progressivo com o avançar da idade.

Quando existe insuficiência comprovada desta hormona, o tratamento está aprovado e verifica-se uma melhoria na função sexual e na saúde óssea e muscular. No entanto, os mesmos benefícios não se têm verificado em homens mais velhos que tenham valores desta hormona considerados normais para essa faixa etária e que tomem suplementos com testosterona.

O tratamento com testosterona está associado a vários efeitos secundários, como um aumento de volume da próstata, a promoção do crescimento do cancro da próstata e o aumento dos glóbulos vermelhos no sangue, o que pode originar tromboses. Uma vez que os riscos ultrapassam, em muito, os benefícios, a utilização da testosterona contra o envelhecimento não está aprovada.

Em Portugal, estão autorizados medicamentos de administração intramuscular que contêm testosterona, com indicações terapêuticas bem estabelecidas. É necessária prescrição médica para a compra e têm de ser administrados por profissionais de saúde. 

Hormona do crescimento

A principal função desta hormona é promover o crescimento em crianças, aumentando a massa óssea e a massa muscular e diminuindo a massa gorda.

A utilização desta hormona em contexto de envelhecimento apenas esteve associada a benefícios marginais na massa gorda. Os efeitos secundários que ocorreram passaram por inchaço e dor nas articulações, edema generalizado, síndrome do canal cárpico e aumento do risco de diabetes. Existe, também, o risco de aumentar o número de pólipos no intestino.

O tratamento com a hormona de crescimento está contraindicado na presença de qualquer tipo de cancro, pois pode facilitar a sua progressão. Devido ao facto de os riscos ultrapassarem, em muito, os benefícios, a utilização desta hormona no envelhecimento não é recomendada.

Estrogénios

Os estrogénios podem ser utilizados nas mulheres depois da menopausa, para terapêutica hormonal de substituição na menopausa: no tratamento dos sintomas vasomotores (afrontamentos, sensação de calor, vermelhidão na pele) ou genitais (atrofia e secura vaginal).

Apesar de poderem ter outros benefícios, nomeadamente nos ossos, os estrogénios estão associados a maior risco de cancro da mama e de trombo-embolismo (tromboses venosas, embolia pulmonar, acidente vascular cerebral).

Por este motivo, o tratamento com estrogénios após a menopausa deve ser cuidadosamente discutido entre médico e paciente. De uma forma geral, está desaconselhado em mulheres mais velhas.

DHEA (Dehidroepiandrosterona)

A DHEA é uma hormona produzida pelas glândulas suprarrenais, que funciona como uma hormona sexual com potência reduzida. Na maior parte dos estudos, a sua utilização não esteve associada a quaisquer benefícios, pelo que não se recomenda.

Prevenir o envelhecimento de forma natural

Alguns défices, perdas de funcionalidade e doenças crónicas relacionadas com o envelhecimento podem ser prevenidos ou minorados com a adoção de estilos de vida saudáveis desde cedo.

No contexto da utilização de hormonas na “medicina anti-ageing”, a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM) defende que sejam cumpridas as seguintes recomendações:

  • antes de qualquer tratamento hormonal substitutivo, deve consultar um médico endocrinologista para uma avaliação e interpretação dos parâmetros hormonais, que variam de pessoa para pessoa;
  • os tratamentos hormonais de substituição estão indicados em várias situações de défices hormonais comprovados, mas devem ser considerados os efeitos adversos do seu uso ou monitorização desadequados;
  • desaconselha-se o uso de tratamentos hormonais com intuitos meramente estéticos ou para alegado alívio de sintomas sem um diagnóstico concreto ou fora do âmbito das indicações terapêuticas habitualmente recomendadas.

A utilização de medicamentos ou tratamentos hormonais apenas deverá ser feita se os mesmos estiverem aprovados e sob recomendação médica, sempre mediante receita.

 

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