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Alegações “verdes” dos detergentes podem confundir os consumidores

Nem todos os detergentes são amigos do ambiente, mas muitos alegam compromissos ambientais que podem induzir os consumidores em erro.

31 maio 2021
máquina de lavar roupa

iStock

Empenhados em combater o greenwashing, prática através da qual as empresas afirmam estar a fazer mais pelo ambiente do que na realidade estão, temos analisado, em conjunto com outras organizações de defesa do consumidor europeias, as alegações “verdes” e a performance ambiental de 228 detergentes.

Este estudo realizou-se no âmbito do projeto europeu CLEAN, uma iniciativa financiada pelo Programa Europeu para os Consumidores, da Comissão Europeia, que pretende aumentar a consciência dos consumidores para o impacto ambiental dos detergentes de uso doméstico, assim como contribuir para a disciplina relativamente a alegações pouco fundamentadas e práticas comerciais desleais.

Além de detergentes para a máquina da loiça e para a lavagem manual da loiça, foram analisados detergentes multiúsos e detergentes para WC de marcas “tradicionais” e de marcas que se assumem como ecológicas. Ingredientes presentes na composição do produto, e o respetivo impacto nos ecossistemas, certificações ambientais, como o Rótulo Ecológico Europeu, e a presença de autodeclarações ecológicas estiveram na mira desta análise.

Maioria dos consumidores não confia nas alegações ecológicas das marcas

Como ponto de partida para o estudo, 4210 consumidores em Portugal, Bélgica, Itália e Espanha foram ouvidos. Os resultados revelam que a maioria dos consumidores presta atenção às alegações ambientais quando compra detergentes. Contudo, apenas uma minoria considera estar bem informada sobre o tema.

Além das dúvidas acerca das alegações ambientais, mais de metade dos inquiridos no âmbito deste estudo acredita que estas alegações servem apenas como ferramenta de marketing, o que revela desconfiança na informação prestada pelas marcas.

Substâncias evitáveis continuam a fazer parte da composição

Nos 228 detergentes analisados, apenas uma pequena percentagem é isenta de substâncias nocivas quer para o ambiente quer para a saúde. Além disso, muitos destes detergentes continuam a ter na sua composição ingredientes que se podem evitar, uma vez que não comprometem a sua eficácia, como fragrâncias e corantes.

Principal fonte de microplásticos nos ciclos de lavagem é a roupa

Descobrimos também que os detergentes em cápsula hidrossolúvel para máquinas de lavar roupa e para máquinas de lavar loiça não libertam quantidades significativas de microplásticos nas águas residuais durante os ciclos de lavagem.

Porém, os testes indicam que a roupa em tecido sintético é a principal responsável pela libertação de microplásticos nas águas residuais durante a lavagem, o que significa que é preciso um esforço colaborativo entre todos, incluindo a indústria têxtil, para encontrar uma solução que trave a poluição causada pelas microfibras da roupa. Ainda assim, não se pode excluir a influência que alguns detergentes em cápsula hidrossolúvel têm na libertação de microplásticos presentes nas fibras da roupa.

Ecodesign ainda não é prioridade

O ecodesign, por outro lado, que pode ajudar a reduzir o impacto ambiental das embalagens no fim do seu ciclo de vida, ainda não é uma prioridade para a maioria das marcas.

Muitos dos produtos analisados ainda têm embalagens que não incorporam materiais reciclados, com rótulos que não são destacáveis e que, por isso, dificultam a reciclagem, ou com cores que comprometem a reciclagem do material. A somar a tudo isto, as instruções para a separação correta continuam a não estar presentes em algumas das embalagens de detergentes.

Alegações ambientais a mais

No que diz respeito à referência a atributos ambientais nos rótulos dos detergentes, a maioria dos produtos “tradicionais” fazem, sobretudo, alegações ambientais com referência aos ingredientes e à própria embalagem. No caso dos detergentes que se assumem como ecológicos, as alegações estão, quase sempre, relacionadas com bem-estar animal e o impacto ambiental geral do produto.

Informação de confiança pode acelerar a adoção de opções sustentáveis

As alegações ambientais podem contribuir para a escolha de opções mais sustentáveis, contudo, se a informação disponibilizada pelas marcas for parcial, exagerada e falsa, sem suporte de evidência científica, as alegações podem estar apenas a contribuir para confundir e enganar os consumidores.

Os rótulos dos produtos devem conter apenas informação verificada e verdadeira e excluir alegações baseadas em aspirações futuras ou compromissos ambientais genéricos. A informação deve também ser clara e descomplicada para que qualquer consumidor a consiga entender.

Defendemos que a escolha de produtos sustentáveis deve ser a mais fácil possível para o consumidor. Já existem produtos no mercado que combinam uma boa performance e um menor impacto ambiental. Por isso, acreditamos que a decisão de produzir fórmulas e embalagens com menor impacto ambiental está nas mãos da indústria e que essa mudança não tem de resultar num produto mais caro ou menos eficiente para o consumidor. 

 

CLEAN Aproved by Tomorrow - Euroconsumers

União Europeia

Este projeto foi financiado pelo Programa Europeu para os Consumidores. O conteúdo desta publicação representa apenas a opinião do(s) autor(es) e é da sua inteira responsabilidade. A Comissão Europeia não aceita qualquer responsabilidade pelo uso que possa ser feito da informação nele contida.

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