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Burnout: um terço dos inquiridos em risco

Um inquérito a 1146 portugueses revela que três em cada 10 estão em risco de burnout, expressão normalmente traduzida por esgotamento profissional.

  • Dossiê técnico
  • Bruno Carvalho
  • Texto
  • Fátima Ramos
25 setembro 2018
  • Dossiê técnico
  • Bruno Carvalho
  • Texto
  • Fátima Ramos
Tumb Burnout

iStock

Quem está muito insatisfeito com o seu trabalho, os que, não estando satisfeitos nem insatisfeitos, sentem pouco ou nenhum apoio dos superiores hierárquicos em situações de stresse laboral e, em particular, as mulheres são os grupos em maior risco de burnout, segundo o nosso inquérito a 1146 trabalhadores portugueses, realizado entre janeiro e fevereiro de 2018. Os resultados respeitam maioritariamente a trabalhadores por conta de outrem, com contrato de trabalho a termo certo ou incerto. 

O burnout, que pode ser traduzido por esgotamento físico e mental, resulta do stresse crónico mal gerido associado ao trabalho. Caracteriza-se por uma grande falta de energia ou exaustão, distanciamento mental face à atividade profissional e sentimentos negativos ou de cinismo relativamente ao próprio trabalho, bem como perda de eficiência no trabalho.

As respostas ao nosso inquérito revelam que os profissionais em maior risco de desenvolver a chamada síndrome de burnout são empregados de lojas e supermercados.

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Segundo a Organização Mundial da Saúde, o stresse profissional poderá surgir quando as exigências profissionais são desajustadas dos conhecimentos e capacidades do trabalhador. Em geral, a situação piora quando o profissional julga não controlar o processo de trabalho e quando sente pouco apoio dos superiores hierárquicos ou dos colegas. No nosso estudo, cerca de metade dos inquiridos queixou-se precisamente da falta de apoio dos supervisores em situações de stresse e um quarto, dos colegas. Atividades monótonas, ambientes de trabalho caóticos, falta de apoio social e desequilíbrio entre a vida pessoal e profissional são outros fatores que potenciam o stresse laboral, muitas vezes, associado a absentismo e à mudança de emprego.

Dos inquiridos, 8% faltaram ao trabalho em média 12 dias no último ano, devido ao stresse. A percentagem de mulheres nesta situação (10%) é quase o dobro da dos homens e a dos trabalhadores do setor público (15%), três vezes superior à dos empregados do privado. Estas faltas prejudicam a carreira, no entender de cerca de dois terços dos que nos responderam. Mas permanecer no local de trabalho pode não ser mais vantajoso: o indivíduo tende a tornar-se menos produtivo e menos eficaz, e a satisfação com o trabalho, bem como o envolvimento com a organização, diminuem.

De insatisfeitos a exaustos

Com a atual organização da sociedade, é praticamente impossível imaginar um local de trabalho sem pressão. Esta entra na grande maioria dos ambientes profissionais, podendo variar de intensidade, consoante a função. Em níveis aceitáveis, pode contribuir para manter os trabalhadores em alerta, motivados e com vontade de aprender. Contudo, quando a pressão se torna excessiva, difícil de gerir e se prolonga no tempo, pode transformar-se em stresse crónico, e afetar a vida pessoal e familiar, a saúde e, claro, o desempenho profissional. Se a pessoa não gostar do que faz, sentir que tem demasiado trabalho, é mal recompensada (financeiramente ou não) ou injustiçada, a pressão aumenta e o burnout surge no horizonte.

A maioria dos inquiridos que indiciaram estar em risco de desenvolver esta síndrome confessa-se globalmente muito insatisfeita com o trabalho. De entre as explicações para o descontentamento, destacam-se o conteúdo das próprias funções, que os trabalhadores vislumbram como (im)possibilidades de progressão na carreira, e a (má) relação com os superiores hierárquicos.

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Em 77% dos casos, os inquiridos são trabalhadores ditos efetivos, isto é, com contrato a termo incerto, e três quartos trabalham total ou parcialmente na área em que se especializaram em termos profissionais ou académicos. Dos que têm formação superior, 81% exercem funções na sua área de especialização. Contudo, no geral, só 37% de todos os que nos responderam estão muito satisfeitos com aquilo que fazem. Neste caso, 15% manifestam sinais de esgotamento (no grupo dos muito insatisfeitos, são 64 por cento).

A diferença entre trabalhar ou não na área de especialização parece não se refletir nos números do burnout: 30% dos que exercem funções na sua área estão em risco, contra 33% dos que não o fazem.

Exercício físico é (uma) solução

Cerca de um quinto dos inquiridos afirmou ter tomado medidas contra o stresse nos últimos cinco anos. A maioria (78%) tomou medicamentos e 55% optaram pela prática de exercício físico. Este proporciona níveis de satisfação elevados, sobretudo por ser visto como eficaz e com resultados duráveis: 79% dos inquiridos estão muito satisfeitos com a eficácia e 64%, com a durabilidade dos efeitos. Dos que tomaram medicamentos, só 30% se revelaram muito satisfeitos com a eficácia e 20%, com a durabilidade dos resultados.

As intervenções para prevenir e tratar o burnout não estão bem estudadas. Ainda assim, uma revisão de estudos do departamento de saúde pública inglês aponta para uma solução conjunta, que inclua alterações no ambiente de trabalho e medidas individuais de combate aos fatores de stresse. De acordo com o relatório, a estratégia deverá passar por uma cultura de participação e envolvimento dos trabalhadores no planeamento e no desenvolvimento dos programas, bem como pela promoção do apoio dos superiores hierárquicos e entre colegas.

Na falta de uma evidência forte sobre a eficácia das intervenções para prevenir e tratar o burnout, pede-se à ciência que faça mais investigações. Dos empregadores, espera-se que aliviem um pouco a válvula da pressão laboral, através de ambientes mais participativos, que deem ao trabalhador maior sensação de segurança, controlo e recompensa. De acordo com os estudos existentes, as alterações nas organizações têm efeitos mais duradouros do que aquelas que apenas implicam o indivíduo.

Aos trabalhadores, recomenda-se que identifiquem os fatores de stresse e, se possível, discutam com os supervisores a possibilidade de contorná-los ou torná-los mais leves. Mudar a atitude face ao trabalho e desempenhar atividades de que gosta fora do meio laboral também ajuda a retemperar forças. A prática de exercício físico e 7 a 8 horas de sono por noite contribuem para o bem-estar físico e mental, o que, por sua vez, reduz o risco de burnout.

 

 

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