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Como avaliar e escolher um sistema fotovoltaico para autoconsumo

Analisámos as propostas “chave na mão” da EDP Comercial, Ei (Galp), Iberdrola e IKEA, para investir num sistema fotovoltaico. Siga o nosso guia para fazer contas ao retorno do investimento.

  • Dossiê técnico
  • Margarida Zacarias e Pedro Silva
  • Texto
  • Isabel Vasconcelos
21 junho 2021
  • Dossiê técnico
  • Margarida Zacarias e Pedro Silva
  • Texto
  • Isabel Vasconcelos
família e painel fotovoltaico

iStock

Uma casa no campo, rodeada de sol, uma família feliz e o apelo à poupança na fatura de eletricidade com o aproveitamento do sol: eis o mote de muitos anúncios que convidam os consumidores a investirem em sistemas fotovoltaicos para autoconsumo. O processo é apresentado como simples e as soluções e preços são “chave na mão”, ou seja, sem mais encargos para os consumidores.

Contudo, nem sempre é tudo realmente simples, e o retorno do investimento depende de uma análise cuidada, para perceber se faz sentido investir num sistema fotovoltaico para autoconsumo. Para tal, é preciso reunir alguns elementos e fazer contas, pois, se o prazo de retorno do investimento se aproximar dos dez anos, poderá não valer a pena. Neste artigo, explicamos tudo o que precisa de saber e as contas a executar.

Qual o consumo anual de eletricidade?

Este é o ponto de partida. Para saber quantos quilowatt-hora (kWh) consome, precisa das faturas de eletricidade que reuniu ao longo de mais de um ano. Olhe para as leituras reais que constam dos documentos e subtraia ao valor mais recente o correspondente ao mesmo mês, mas do ano anterior. Se possível, repita a operação para outro ano. Estas contas permitem obter o consumo médio anual.

Certifique-se de que os anos considerados não têm situações anómalas, como o confinamento ou uma ausência prolongada da habitação. Considere ainda se poderá haver, no futuro próximo, alterações do consumo, devido ao alargamento da família (com o nascimento de um filho) ou à compra de um carro elétrico. Ajuste o valor em função da análise. Na dúvida, seja conservador: é mais simples e menos oneroso ampliar o sistema do que optar por um de maior produção, que exceda as necessidades. À partida, um consumo baixo ou uma fatura de eletricidade de poucas dezenas de euros mensais são sinal de que talvez estes sistemas não sejam para si.

Como se distribui o consumo de eletricidade?

Após saber o consumo anual, há que verificar como este se distribui ao longo do dia, para conhecer a energia que terá de ser fornecida pelo sistema fotovoltaico. O mais simples é apontar a contagem quando sai de casa de manhã e, de novo, quando volta ao final do dia, durante cerca de duas semanas.

Faça esta medição num período em que não existam consumos “anormais” durante o dia, como o uso de aquecimento, no inverno, ou arrefecimento, no verão. Deste modo, consegue obter um valor médio para as horas de menor consumo e outro para as de maior gasto de energia. Também terá noção das necessidades ao fim de semana, quando, à partida, está mais gente em casa de dia.

O sistema fotovoltaico só produz energia enquanto houver sol. Não havendo armazenamento (baterias), convém que os kWh produzidos sejam todos usados em casa. Caso contrário, são injetados na rede elétrica nacional e contribuem menos para reduzir o prazo de retorno do investimento.

Quais os equipamentos ligados em simultâneo?

É preciso ter uma ideia da quantidade e da potência dos eletrodomésticos utilizados em simultâneo, pois irão influenciar alguns dos requisitos do sistema a instalar, como a potência de saída do inversor. É diferente utilizar simultaneamente o micro-ondas, a placa elétrica e o forno elétrico, para preparar o almoço, por exemplo, e recorrer a estes equipamentos em separado. O ideal é equilibrar o sistema, para que responda o melhor possível aos picos de consumo, mas sem ficar sobredimensionado quando o consumo for menor.

A nossa análise aos simuladores para investir em sistemas fotovoltaicos

Para usarmos a mesma situação em todos os simuladores, definimos um cenário. Uma família, composta por duas pessoas, vive numa moradia de um piso e quatro assoalhadas, na zona do Porto, renovada em 2005 e com um nível baixo de isolamento térmico. O casal encontra-se em teletrabalho e os equipamentos que possuem são elétricos e têm alguns anos. Por estarem em casa todo o dia, têm dois picos de consumo, à hora do almoço e à noite. Contrataram uma potência de 6,9 kVA e têm um consumo médio anual de 4850 kWh (2110 kWh de dia e 2740 kWh de noite). O tarifário é o da SU Eletricidade e costumam pagar 88 euros por mês.

Para o estudo, consultámos os comercializadores de eletricidade com uma quota de mercado conjunta de mais de 80% do consumo no mercado liberalizado, e que têm propostas “chave na mão”: EDP Comercial, Ei (Galp) e Iberdrola. No decorrer do estudo, surgiu uma solução proposta pelo IKEA, que também incluímos, por ter bastante visibilidade. A Iberdrola não disponibiliza um simulador, mas um quadro com várias soluções. A recolha de dados decorreu entre final de março de 2021 e a primeira quinzena de abril.

Para determinar o consumo, os simuladores começam por pedir a morada ou a indicação da casa num mapa. De seguida, solicitam o valor da fatura mensal de eletricidade. Contudo, o montante de uma fatura não é o melhor indicador: não se sabe qual o tarifário ou se reflete um consumo superior ou inferior ao habitual. Como os valores unitários serão a base para o dimensionamento do sistema e o cálculo da poupança estimada, o resultado pode estar bastante desfasado da realidade do consumidor.

Custo e poupança anual estimada de sete propostas

Em regra, as simulações apresentam mais de uma proposta. Estas podem diferir na quantidade, na potência ou no tipo de painéis. Por outro lado, nem sempre são considerados elementos importantes numa instalação, como a inclinação da cobertura, a orientação solar ou eventuais obstáculos à luz do sol.

As simulações revelam ainda o custo de cada proposta e a poupança anual estimada. Com estes dois dados, é possível calcular o prazo de retorno do investimento, ou seja, quanto tempo é preciso para reaver o montante gasto: basta dividir o investimento pela poupança. Foi o que fizemos para as sete propostas obtidas nos simuladores.

Resultados da simulação
Empresa e produto Painéis incluídos Investimento (€) Poupança anual (€) Prazo de retorno do investimento (anos)
EDP COMERCIAL Quality 2 1470 95 15,5
EDP COMERCIAL Premium 2 1830 101 18,1
EI (GALP) Start Line 3 1860 256 7,2
EI (GALP) High Line 3 2040 272 7,5
EI (GALP) Top Line 3 2760 281 9,8
IKEA Solstrâle 3 1970 365 5,4
IKEA Solstrâle Plus 3 3505 498 7

A estimativa de poupança anual difere bastante (entre 95 e 498 euros), o que tem um impacto direto no cálculo do retorno. Embora no caso da EDP Comercial as propostas contemplem dois painéis e na da Ei (Galp) e da IKEA três unidades, com impacto no rendimento de cada sistema, a poupança quase triplica ou mesmo quintuplica. Dado que o cenário apresentado foi sempre o mesmo, a variação tão grande nos resultados é reveladora da falta de rigor destas ferramentas de cálculo.

As simulações incluem as condições contratuais e referem que a viabilidade técnica da instalação está sujeita a confirmação no dia da mesma, o que não faz sentido. Apenas a IKEA refere que pode existir uma avaliação técnica do local antes da instalação: a atitude mais correta, para minimizar problemas entre as condições reais e o que foi estimado e proposto.

É possível obter mais dados?

O resultado da simulação do site é uma proposta simplificada. Como tal, aconselhamos o consumidor a indicar o seu contacto, para lhe ser enviada uma proposta mais detalhada. Para esta, a empresa poderá pedir informação mais específica, por telefone ou e-mail, de modo a ficar com dados mais completos. A proposta detalhada da EDP Comercial apresentava um consumo anual (4750 kWh) próximo do definido para o nosso cenário: 4850 kWh. A da Ei (Galp) também não estava longe (5000 kWh), mas a distribuição do consumo ao longo do dia era desajustada, por dar a entender que toda a eletricidade produzida seria consumida. Tal é pouco provável, visto os consumos durante o dia serem baixos e existirem apenas dois picos: ao almoço e à noite. A proposta detalhada da IKEA estima um consumo anual bastante superior ao real (5652 kWh) e uma produção dos painéis muito otimista.

É ainda necessário analisar outros aspetos das propostas. Destacamos o prazo de garantia dos componentes do sistema, a existência de sistemas de monitorização (ajudam a controlar a produção e o consumo de eletricidade), a previsão de fidelização obrigatória a tarifários, o tipo e a configuração dos painéis e do sistema e eventuais propostas de manutenção programada. Alguns destes fatores podem ser de difícil interpretação, pelo que convém esclarecer todas as dúvidas com a empresa.

Como analisar a informação obtida?

Os resultados das propostas mostram a importância de se fazer mais contas, sobretudo para encontrar o prazo real de retorno do investimento. Dez anos é o limite que considerarmos aceitável. Afinal, durante uma década, pode haver alterações que afetem os consumos de eletricidade. Podem surgir tarifas ou sistemas mais interessantes, ou alguns componentes estarem no final da sua vida útil. Também pode ocorrer uma alteração no perfil de consumo, quer por se ter comprado um veículo elétrico, quer por um filho ter saído de casa ou por se passar a estar mais horas no lar.

Uma análise mais detalhada implica alguma matemática e ajustar o cálculo do prazo de retorno do investimento. Não se assuste: pode parecer complicado, mas não é, e, se quer mesmo investir num sistema fotovoltaico para autoconsumo, as contas ajudam a tomar a melhor decisão, para não desperdiçar dinheiro nem eletricidade e, pelo contrário, conseguir poupar. Terá de ajustar o prazo de retorno para todas as propostas. Use a fórmula a seguir.

Como ajustar o prazo de retorno do investimento
Investimento A
Produção do sistema (kWh/ano) B
Preço por kWh C
Injeção na Rede D
Poupança E=B*C*(1-D)
Prazo de retorno do investimento A/E

A - Preço do sistema
B - Produção declarada na proposta
C - Preço que paga atualmente por kWh, com IVA incluído
D - Previsão da percentagem de eletricidade produzida durante o dia e que não é consumida

Para obter o valor de D, é preciso seguir os seguintes passos:

  • registe a contagem do contador às 8h e às 18h;
  • subtraia à contagem das 18h a das 8h e aponte o valor;
  • repita estes registos durante um período alargado (pelo menos, duas semanas);
  • some os consumos diários anotados e divida pelo número de dias em que registou as contagens: obterá o valor de consumo diário médio durante as horas de sol;
  • multiplique o valor obtido por 365 dias, para ficar com o consumo anual nas horas de sol e que o sistema fotovoltaico deverá fornecer;
  • divida o valor referente à produção anual do sistema da proposta que recebeu pelo consumo anual durante as horas de sol: obtém a percentagem de energia produzida que será consumida na habitação.

Fizemos as contas para as simulações recebidas. Como já tínhamos mais detalhes sobre as mesmas, escolhemos, para cada fornecedor, a proposta que mais se aproximava do que pretendíamos em termos de produção. Para a Iberdrola, como a tabela do site não exibia a produção anual estimada com dois painéis, usámos uma aproximação com base nas propostas das restantes empresas. Embora não seja exata, serve para comparar e, se interessar, resta pedir apoio técnico.

Resultados dos nossos cálculos
Empresa EDP GALP IKEA IBERDROLA
Investimento (€) 1470 2040 1970 1220
Produção do sistema constante na proposta (kWh/ano) 901 1280 1492 785
Preço por kWh (€) 0,18 0,18 0,18 0,18
Injeção na rede (%) 8 18 18 8
Poupança (€) 149 189 220 130
Prazo de retorno do investimento (anos) 9,9 10,8 9 9,4

Como decidir entre as várias propostas?

Após aplicarmos a nossa fórmula, verificámos que o prazo de retorno do investimento ajustado é muito semelhante entre as várias soluções. O mais curto é o da IKEA: nove anos para recuperar os 1970 euros investidos, o que garante uma poupança anual de 220 euros. Este prazo está longe dos quase cinco anos e meio (5,4 anos) da simulação. A forma pouco profunda segundo a qual são feitas as contas pelos simuladores é reveladora de como o consumidor pode ser induzido em erro e levado a investir num produto que pode não ser o mais indicado.

Uma estimativa de consumo mais elevada do que a real, um otimismo exagerado sobre a produção e a coincidência com o momento de consumo ou a consideração de um elevado preço por kWh são fatores que constam das propostas e que, além de não serem comparáveis, podem levar a falsas conclusões e expectativas.

Que outros cuidados se deve ter?

Decidido o sistema a comprar, mesmo assim, peça que um técnico visite o local para confirmar o perfil de consumo e apoiar na solução mais adequada. Cada caso é um caso, e o que serviu para um conhecido pode não ser o melhor para si: os consumos diferem entre lares e não é o montante final da fatura que ajuda a diferenciar.

A visita de um técnico instalador permitirá ainda analisar a viabilidade da solução a instalar. Também servirá para ajustar as propostas a possíveis limitações e desafios técnicos: por exemplo, sombreamento do telhado por alguma árvore, orientação solar, inclinação, eventuais obras para instalar e ligar o sistema ou verificar a instalação elétrica da habitação, para garantir que é compatível com o sistema.

Sempre que existirem dúvidas ou assimetrias significativas nas propostas recebidas, convém ser conservador. Este ponto é muito relevante quando se trata de um investimento mais elevado: um sistema sobredimensionado vai traduzir-se num prazo de retorno do investimento mais alargado. É preferível optar por um sistema de menor potência, e ajustar mais tarde, pois o caminho inverso é mais oneroso e complexo.

E se precisar de um crédito? Qual o melhor produto?

A melhor solução em qualquer compra é o pagamento a pronto: evita os juros, que aumentam o montante investido e diminuem a poupança prevista. Contudo, nem sempre há disponibilidade para pagar todo o capital necessário.

Tanto a EDP Comercial como a Ei (Galp) propõem a possibilidade de pagar o sistema em prestações mensais, sem mais encargos, durante cinco anos. Mas a EDP Comercial obriga a uma fidelização do tarifário, que pode não ser o mais vantajoso.

No caso da compra de equipamentos para produção de energia a partir de fontes renováveis, como é o caso dos sistemas fotovoltaicos para autoconsumo, os bancos têm condições de financiamento especiais face ao crédito pessoal sem finalidade: apresentam um prazo máximo mais alargado (dez anos, em vez de sete) e uma taxa anual de encargos efetiva global (TAEG) inferior. Para usufruir destas vantagens, o consumidor tem de apresentar um comprovativo em como o valor solicitado se destina a energias renováveis, como a fatura, o orçamento ou a fatura pró-forma do bem a adquirir.

Usando preços indicativos para soluções de autoconsumo com dois e três painéis (com um custo de 1150 e 1450 euros, respetivamente), como as obtidas nos simuladores, fomos verificar por quanto ficaria o crédito. Analisámos a oferta de 35 bancos e verificámos que apenas cinco têm condições especiais para financiar a compra de equipamentos para produzir energia através de fontes renováveis: Banco BPI, Banco Montepio, Crédito Agrícola, Millennium bcp e Santander. Mas mesmo estas têm limites, mínimos e máximos, ao prazo de financiamento ou ao montante a emprestar.

Para os valores propostos, apenas se poderia recorrer ao Banco BPI e ao Millennium bcp. As restantes instituições só financiam valores superiores, pelo que foram excluídas. Para ambos os cenários do estudo, o Banco BPI apresenta a TAEG mais baixa: entre 4,8% e 5,7%, em função do prazo do empréstimo. Para o prazo mais longo (60 meses), traduz-se num total de 1288 euros, para o financiamento de 1150 euros, e de 1624 euros, para um sistema de 1450 euros.

Se o crédito for mesmo a solução a seguir, saiba os cuidados a ter para fazer a melhor escolha e conseguir a maior poupança:

  • peça simulações em várias instituições e compare as TAEG, pois incluem todos os custos com o crédito, entre juros, comissões, seguros e impostos;
  • optar por um prazo dilatado pode ser uma tentação, para conseguir uma prestação mais baixa, mas torna o crédito mais caro. Daí ser preferível escolher o menor prazo que permita uma prestação confortável para o orçamento familiar;
  • pode parecer boa ideia incluir as despesas iniciais no financiamento, mas irá encarecer o crédito, ao aumentar o valor financiado, além de implicar o pagamento de juros sobre esse valor.

Embora estas soluções “chave na mão”, algumas com financiamento incluído, sejam apetecíveis, é preciso ter noção de que existem muitos instaladores habilitados no mercado e que se deslocam ao local, para verificarem a viabilidade técnica da operação. A decisão não deve passar por uma solução de crédito fácil, mas pela análise do sistema mais adequado, com melhores garantias e ao preço mais baixo.

O investimento num sistema fotovoltaico para autoconsumo tem de ser uma solução ponderada, que considere todas as contas e analise todos os meandros dos contratos. Só assim se pode garantir que poupa.

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