Notícias
Forex: autoestrada para o inferno Há 2 anos - terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Aceder ao mercado cambial é relativamente fácil, mas para a maioria dos investidores a experiência acaba por ser uma forma rápida de perder dinheiro. Mantenha-se afastado.

Poderíamos estar a falar do aclamado álbum da banda australiana AC/DC que estará em Portugal em 2016, mas aqui a música é outra. A nossa análise prende-se com os investimentos no mercado cambial ou de divisas (maior mercado financeiro do mundo), vulgarmente conhecido como Forex, onde são realizadas transações de câmbio.

 

Uma operação de forex envolve a compra de uma moeda e a venda simultânea de outra, isto é, as moedas são negociadas em pares. Até certa altura, este mercado estava praticamente reservado às instituições financeiras, devido às avultadas margens de negociação exigidas. A realidade hoje é diferente, devido ao acesso dado a investidores particulares de investirem com margens mais pequenas e à proliferação de plataformas digitais.

 

Mas, a assimetria de informação e a diferença abissal na capacidade dos vários intervenientes em tomarem risco tornam este mercado um terreno muito perigoso para os pequenos investidores que, na ilusão de obterem ganhos elevados e rápidos, acabam por perder grande parte do seu capital.

 

Além disso, face às características do forex (descentralizado, dimensão, liquidez...), muitas vezes este mercado é palco de propostas desonestas, desde operadores que prometem rendimentos garantidos a corretoras com práticas pouco lícitas, que se aproveitam da menor regulação nos países onde estão sediadas.

 

Via rápida

O forex implica estudo e análise dos fatores que influenciam a evolução das divisas (taxas de juro, taxas de inflação...) e é um processo que envolve alguma complexidade devido, por exemplo, à utilização de margens. Face aos riscos que comporta é um produto que desaconselhamos aos pequenos investidores. Mesmo para os mais qualificados, as operações requerem um acompanhamento cuidadoso devido à possibilidade de se negociar em qualquer horário e de ocorrerem variações significativas nos montantes investidos num curto espaço de tempo.

 

O facto de o investidor não necessitar de possuir em dinheiro o valor total da posição que vai assumir é um aliciante deste mercado. Mas a má gestão, na forma como é utilizada a alavancagem, é uma das principais razões para se perder dinheiro.

 

Se o intermediário financeiro indicar um rácio de 100:1 significa que pode alavancar 100 vezes o seu capital. Com um investimento de 1000 euros pode ficar exposto a uma posição de 100 000 euros (este rácio pode atingir valores muito mais elevados).

 

Vejamos o seguinte exemplo: um investidor negoceia um lote EUR/USD a 1,0560 (equivale a comprar 100 mil euros e a vender 105 600 dólares). No final do dia fecha a sua posição a 1,0660. Esta operação gera um ganho de 1000 dólares ou 938 euros, ou seja, de 0,94% (sem alavancagem). Porém, se estivesse a investir com um rácio de 100:1, a margem exigida seria apenas de 1000 euros. Neste caso quase duplicaria a sua margem. Mas se o euro não tivesse apreciado em relação ao dólar e a perda fosse na mesma proporção, o investidor teria perdido praticamente todo o seu capital.

 

Deste modo, uma variação desfavorável em relação à posição assumida pode levar à perda total do capital investido. Em situações extremas é possível que a perda seja superior ao capital investido. Neste cenário, a posição é automaticamente fechada pelo intermediário financeiro, ficando o investidor responsável pela dívida resultante, tendo que reforçar os fundos da sua conta.

 

 

 

Negociar com conhecimento

Para negociar forex é necessário ter conta aberta num intermediário financeiro. A maioria dos investidores utiliza plataformas digitais, onde tem acesso a preços em tempo real e a ferramentas de análise. Dirigindo-se a intermediários internacionais é possível negociar com margens menores e diversos corretores disponibilizam diferentes tipos de conta com diferentes dimensões nos lotes transacionados. Um lote padrão corresponde a 100 mil unidades, mas podem ser transacionados lotes mais pequenos. Em regra, as comissões de negociação estão refletidas nos preços que são disponibilizados aos investidores. O intermediário financeiro acrescenta ao preço de mercado a sua margem (spread). Se o par EUR/USD cotar a 1,0876 e a margem for 2 pips, significa que o preço de compra é 1,0877 e o preço de venda 1,0875. Quanto menor o spread, menor a comissão que se paga à corretora. Alguns intermediários, além deste custo, cobram uma comissão fixa. Outros, em vez de uma comissão fixa, podem aplicar uma comissão variável.

 

Por outro lado, se não alienar a aplicação num câmbio antes do final do dia da compra, então é provável que tenha de pagar juros ao intermediário financeiro (calculados com base no diferencial das taxas de juro de um dia para o outro das duas moedas). Por norma, as corretoras deduzem também uma margem sobre as taxas de referência.

 

Uma das particularidades neste mercado é que não existe uma casa de compensação que centralize as operações. Isto implica que cada corretora possa praticar preços diferentes para o mesmo câmbio. Porém, na prática estas diferenças tendem a ser mínimas, caso contrário existiria a possibilidade de arbitragem - um investidor compraria um câmbio numa corretora com o preço mais baixo e vendê-lo-ia na que tem o preço mais elevado.

 

Não se esqueça que o forex é um investimento tendencialmente de soma... negativa. Se um investidor ganha, a contraparte perde o montante correspondente e, pelo meio, ainda têm que ser suportadas as comissões da corretora.

 

 

 

Cuidados redobrados

Caso, ainda assim, esteja a ponderar investir neste mercado, outro aspeto essencial é verificar a segurança do intermediário financeiro. Confira o nome e dados da instituição e veja junto da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários se esta está autorizada a prestar serviços de investimento em Portugal ou se está sujeita à supervisão de outra autoridade bem como se já foi referenciada por prestar serviços de investimento sem autorização. As regras diferem de um país para o outro e muitos operadores escolhem moradas em paraísos fiscais onde os regimes legais são menos exigentes. No limite, algumas propostas escondem esquemas fraudulentos.

Partilhe este artigo