Fed mantém juros de dezembro de 2025
A decisão da Fed de manter as taxas de juro a 3,64% (entre os 3,5 e os 3,75%) reflete uma postura prudente num contexto de elevada incerteza económica, marcada sobretudo pela persistência da inflação e pela subida dos preços do petróleo associada ao conflito com o Irão.
O presidente do banco central indicou na conferência de imprensa que a Fed elaborou as suas previsões de inflação, que para este ano refletem um aumento de duas décimas até aos 2,7%, no que diz respeito à inflação subjacente, ou seja, que exclui os produtos alimentares e a energia.
A Fed encontra-se, assim, numa posição muito desconfortável. Por um lado, existem as expectativas dos investidores e da Casa Branca, que continua a defender crédito mais barato para relançar o emprego e a economia. Por outro lado, a subida dos preços da energia e dos combustíveis antecipa um forte aumento da inflação. Em condições normais, a possibilidade de aumento das taxas não poderia ser descartada. Resta saber se a Fed teria coragem de desafiar a Casa Branca.
Juros da Fed e dólar americano
O dólar americano tende a beneficiar diretamente deste tipo de decisão. A manutenção de taxas de juro elevadas torna os ativos denominados em dólares mais atrativos para investidores internacionais, aumentando a procura pela moeda. Simultaneamente, num contexto de tensão geopolítica e volatilidade nos mercados, o dólar reforça o seu papel como ativo de refúgio, levando a uma valorização adicional.
A subida dos preços do petróleo contribui ainda para manter a inflação elevada, o que reduz a probabilidade de cortes de juros no curto prazo e sustenta a força do dólar.
Assim, no cenário atual, é expectável que o dólar se mantenha forte no curto prazo, embora possa vir a estabilizar ou enfraquecer mais à frente, caso a economia desacelere significativamente ou a Fed seja forçada a iniciar um ciclo de descida das taxas de juro.
Uma nova subida das taxas de juro tende a sustentar a força do dólar americano, uma vez que continua a atrair capital internacional em busca de rendimento e segurança. Neste contexto, é expectável que o dólar permaneça forte ou relativamente estável no curto prazo.
Ainda assim, uma valorização excessiva do dólar americano poderá acabar por exercer uma pressão significativa sobre a economia global, sobretudo ao encarecer o financiamento em dólares para países e empresas com dívida denominada nessa moeda.
Este efeito é particularmente sensível nas economias emergentes, onde um dólar forte tende a provocar saídas de capital, desvalorização cambial e maior dificuldade no serviço da dívida.
Juros da Fed e bitcoin
Neste enquadramento, a bitcoin tende a ser pressionada, já que taxas de juro elevadas retiram liquidez ao sistema financeiro e tornam ativos mais seguros, como obrigações, relativamente mais atrativos. Além disso, a manutenção de juros altos contribui para um dólar mais forte, o que historicamente também pesa sobre a procura por bitcoin.
Ainda assim, num horizonte mais alargado, a persistência da inflação e o aumento da incerteza global podem reforçar o interesse pela bitcoin como alternativa ao sistema financeiro tradicional, funcionando como uma espécie de reserva de valor em cenários de instabilidade.
Caso se verifique uma nova subida das taxas de juro em 0,25 pontos percentuais, o impacto inicial tende a ser negativo para a bitcoin. Um aperto adicional das condições financeiras reduz ainda mais a liquidez e aumenta a atratividade de ativos considerados mais seguros, levando frequentemente a movimentos de correção no curto prazo e a um ambiente de maior aversão ao risco. No entanto, se essa subida estiver associada a pressões inflacionistas persistentes ou a sinais de fragilidade no sistema económico, poderá mais tarde reforçar o interesse pela bitcoin como alternativa ao sistema financeiro tradicional (alegada razão pela qual a mesma foi criada), permitindo uma eventual recuperação.
BCE mantém também os juros de junho de 2025
O BCE reuniu também esta quinta-feira, dia 19 de março, onde foi decidido manter a taxa de 2% (taxa de depósito), valor que já estava em vigor desde junho de 2025. Esta decisão, amplamente esperada pelos mercados, reflete a preocupação do BCE com a elevada incerteza económica e os riscos de inflação no horizonte. Particularmente em resultado da escalada do conflito no Médio Oriente e do consequente aumento dos preços da energia, que podem pressionar os preços no curto prazo e afetar a atividade económica.
O BCE afirmou que continuará a seguir uma abordagem “data dependent” — ou seja, baseará futuras decisões nos dados económicos mais recentes — e que está preparado para ajustar a política monetária se os riscos à estabilidade de preços se intensificarem.
As novas previsões apontam para uma clara deterioração das perspetivas para este ano, com a inflação a subir para 2,6% em 2026 e o crescimento a não ultrapassar 0,9%, existindo cenários ainda mais desfavoráveis dependendo da subida dos preços dos hidrocarbonetos e do tempo necessário para normalizar este mercado.
Como o BCE não sofre a mesma pressão política do que a Fed, os mercados esperam até duas subidas das taxas diretoras em 2026.
Manter os juros não cria um impulso forte para o euro subir, mas também ajuda a evitar quedas bruscas, garantindo uma certa estabilidade, sobretudo se a inflação e a economia da zona euro se mantiverem previsíveis.
Perante a gravidade do choque provocado por este novo conflito, o BCE já anunciou a sua vontade de combater a inflação a todo custo, e os mercados antecipam até duas subidas das taxas diretoras em 2026.
Últimas cinco mudanças nos juros por parte da Fed:
- 10/dez/25 corte de -0,25%
Situando-se entre 3,50% – 3,75% - 29/out/25 corte de-0,25%
Situando-se entre 3,75% – 4,00% - 17/set/25 corte de -0,50%
Situando-se entre 4,00% – 4,25% - 07/nov/24 corte de -0,25%
Situando-se entre 4,50% – 4,75% - 18/set/24 corte de -0,50%
Situando-se entre 4,75% – 5,00%
Desde 18 de setembro de 2024, que a FED cortou os juros em cerca de 1,75%, indo de 5,50% a 3,75%, valor atual.
Últimas cinco mudanças nos juros por parte do BCE:
- 18/jun/2025 corte de 0,25%
Situando-se a 2% - 18/abr/2025 corte de -0,25%
Situando-se a 2,25% - 18/mar/25 corte de -0,25%
Situando-se a 2,5% - 18/fev/25 corte de-0,25%
Situando-se a 2,75% - 18/dez/24 corte de -0,25%
Situando-se a 3%
Desde 18 de dezembro de 2024, que o BCE cortou os juros em cerca de 1,25%, indo de 3,25% para 2%, valor atual.
As próximas reuniões da Fed e do BCE para discutirem as taxas de juro realizam-se no final do mês de abril.
O conteúdo deste artigo pode ser reproduzido para fins não-comerciais com o consentimento expresso da DECO PROteste, com indicação da fonte e ligação para esta página. Ver Termos e Condições.