A subida das taxas de juro afeta de forma particular as ações do setor tecnológico. Como ajustar a sua carteira a esta nova realidade?
Ao influenciar o custo do financiamento e a valorização dos lucros futuros, juros mais altos penalizam especialmente as empresas de forte crescimento, que ainda não geram lucros e possuem necessidades de investimento muito elevadas.
Como a subida das taxas de juro mudou o cenário financeiro
Durante quase uma década, as taxas de juro mantiveram-se em níveis historicamente baixos, facilitando o financiamento das empresas. O regresso da inflação levou o BCE e a Fed a aumentarem as taxas diretoras, contribuindo para o encarecimento do crédito. Nos últimos meses, as taxas de juro de longo prazo registaram uma forte subida.
Nos EUA, as yields das obrigações do Tesouro a 10 anos atingiram os níveis mais elevados dos últimos vinte anos, enquanto na Europa regressaram a níveis que não eram observados há mais de uma década.
Para o setor tecnológico, intensivo em capital e frequentemente baseado em lucros futuros, esta mudança de cenário é bastante impactante.
Porque os lucros futuros perdem valor quando os juros sobem
As empresas tecnológicas sofrem mais do que os restantes setores por uma questão simples de matemática financeira, frequentemente designada por "efeito de atualização". Em bolsa, o valor de uma empresa tecnológica assenta em grande medida nos lucros excecionais que promete gerar dentro de cinco, dez ou mais anos. No entanto, quando mais elevadas as taxas de juro, mais compensa ter já 1 dólar agora do que “X” dólares incertos daqui a 10 anos.
Assumir o risco de esperar que uma startup se torne rentável é menos atrativo quando as obrigações do Tesouro dos EUA, consideradas investimentos sem risco, oferecem atualmente rentabilidades entre 4% e 5% ao ano. Logo, os investidores abandonam promessas futuras em favor de ganhos garantidos à partida, comprimindo automaticamente as cotações das ações de crescimento. No entanto, o impacto não afeta todas as empresas da mesma forma.
Startups endividadas enfrentam maiores desafios de financiamento
Os gigantes tecnológicos dispõem de consideráveis meios financeiros, mas a situação é bastante diferente para os atores mais frágeis do setor. Muitas empresas apresentam um forte crescimento, mas ainda não geram lucros e inúmeras startups estão fortemente endividadas.
Estas empresas necessitam de financiamentos para suportar as perdas operacionais até começarem a obter lucros. Com custos de financiamento mais elevados, novos empréstimos são difíceis de obter e de pagar. E captar dinheiro junto de investidores através de aumentos de capital exige frequentemente vender ações a preços muito baixos. Para estas empresas, a subida dos juros não constitui apenas um problema de valorização bolsista, podendo tornar-se uma ameaça direta à sobrevivência.
Big Tech demonstram resiliência num ambiente de juros elevados
Perante a pressão exercida sobre as empresas mais frágeis, as grandes tecnológicas constituem uma exceção. Algumas conseguem absorver a subida das taxas e utilizar a robustez da sua situação financeira para limitar os respetivos efeitos. São as Big Tech, como a Nvidia, a Microsoft, a Alphabet, a Amazon.com e a Apple, que dispõem de atividades consolidadas e recursos financeiros significativos.
Impulsionada por estes grandes intervenientes, a situação financeira do setor tecnológico apresenta-se particularmente sólida, com uma elevada cobertura dos encargos financeiros pelos lucros operacionais. E isto apesar dos investimentos massivos atualmente realizados pelos hyperscalers para desenvolver infraestruturas e responder às necessidades, bem como às promessas, da Inteligência Artificial.
Além disso, as Big Tech comercializam serviços cujos clientes dificilmente conseguem prescindir, como subscrições cloud, software e ferramentas de IA. Estas atividades garantem receitas recorrentes e capacidade para ajustar os seus preços face ao aumento dos custos.
Como investir em tecnologia com maior seletividade
A subida das taxas tem a vantagem de atuar como uma “peneira” em bolsa, separando as empresas de qualidade das restantes. Os grupos que dispõem de sólidos fluxos de tesouraria e de produtos indispensáveis afirmam-se até como valores de refúgio.
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Por seu turno, as empresas que prometem lucros distantes financiados por dívida devem ser abordadas com a maior prudência pelos investidores.
O impacto das taxas de juro nos ETF tecnológicos e globais
Se investe em ETF associados aos principais índices de ações, como o MSCI World ou o S&P 500, não estará exposto a start-ups endividadas.
Pelo contrário, estes índices são dominados pelos gigantes do setor tecnológico. Por um lado, qualquer impacto da subida das taxas de juro nas cotações destas empresas e no ETF é menor. Por outro lado, não está a salvo de um revés generalizado na temática da IA.
Uns mais do que outros, mas todos os gigantes tecnológicos têm investido massivamente nas infraestruturas que treinam e suportam os modelos de IA. A rentabilidade a retirar destas apostas é ainda bastante incerta.