As notícias provenientes dos mercados de dívida não são tranquilizadoras. As taxas de juro estão a subir acentuadamente, provocando uma queda dos preços das obrigações. Vários fatores apontam para a continuação desta tendência. Qual o impacto nos investimentos?
Porque estão as taxas de juro a disparar?
A subida das taxas afeta todas as grandes economias e assenta em mecanismos semelhantes. Nas maturidades curtas, é sobretudo a inflação que domina. Alimentada pela forte subida dos preços da energia, continua acima dos objetivos dos bancos centrais. Estes aumentam, por isso, as taxas diretoras, impulsionando os juros de curto prazo.
Nas maturidades longas, entram em jogo outros fatores. Investir numa obrigação longa implica imobilizar capital por vários anos. Neste contexto, é essencial a capacidade dos bancos centrais para trazer a inflação para níveis controlados de forma duradoura.
A situação das finanças públicas também conta, pois quanto mais se deterioram, maior é o risco percecionado. Para serem compensados, os investidores exigem receber juros mais elevados. Além disso, têm uma escolha sem precedentes devido ao multiplicar de emissões de dívida dos Estados e dos gigantes tecnológicos que têm de financiar investimentos avultados em infraestruturas ligadas à IA.
O impacto da subida das yields nos Estados e na economia
Deste modo, a subida das taxas de juro parece justificada e destinada a prosseguir. Novos máximos são atingidos semana após semana. Nos EUA, o rendimento das obrigações com o prazo de 30 anos ultrapassou 5,6%, o nível mais elevado desde 2002.
A situação é semelhante na Europa. Em plena discussão orçamental e sem uma solução credível no horizonte, a yield da dívida francesa a 10 anos atingiu 4,8%, o nível mais elevado desde 2008. Na Alemanha, próximo de 3,6%, a yield do Bund encontra-se nos níveis mais elevados desde 2009.
Quanto ao Japão, durante muito tempo símbolo de taxas próximas de zero, o rendimento da dívida a 10 anos ultrapassa agora 3,1%.
Naturalmente, o disparo do custo do crédito suscita preocupações. Em primeiro lugar para os Estados, cujos encargos com juros aumentam rapidamente, impondo escolhas difíceis (cortes na despesa, aumento de impostos). Em segundo lugar para as economias, porque um crédito mais caro penaliza o investimento e o consumo.
Por fim, os investidores interrogam-se cada vez mais sobre a capacidade de determinados emitentes em pagar juros ou reembolsar o capital dos empréstimos. Alguns chegam mesmo a evocar um colapso do mercado obrigacionista.
O que pode travar a crise obrigacionista?
O cenário mais desejável seria, naturalmente, o fim dos conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia. Um regresso à normalidade nos mercados energéticos faria recuar rapidamente os preços dos combustíveis, reduziria as pressões inflacionistas e contribuiria para aliviar as taxas de juro em geral.
Uma segunda via passaria pelo regresso a políticas orçamentais mais rigorosas. Nesta fase, tendo em conta as políticas públicas nas maiores economias desenvolvidas, esta hipótese parece pouco credível.
Bancos centrais podem evitar um colapso?
Resta o regresso em força dos programas de quantitative easing. Tal como durante a crise financeira de 2008-2009 e a pandemia, os bancos centrais criariam moeda para comprar dívida em bolsa. Esta procura adicional faria recuar as taxas de juro a que os Estados se financiam.
Contudo, uma estratégia desta natureza pode colocar em causa a credibilidade dos bancos centrais. Para ser mais aceitável, teria de ser acompanhada por programas credíveis de saneamento orçamental.
Em suma, a catástrofe obrigacionista pode ser evitada. O cenário ideal seria o fim dos conflitos em curso, uma evolução que beneficiaria a economia mundial. No entanto, a intervenção dos bancos centrais surge como o desfecho mais provável.
Trata-se de uma solução de último recurso, potencialmente acompanhada por medidas orçamentais dolorosas, mas que poderá impor-se caso as tensões nos mercados obrigacionistas continuem a agravar-se.
Obrigações: onde estão os riscos e as oportunidades?
Há certamente riscos, mas é improvável que os bancos centrais assistam parados a um colapso generalizado das obrigações, que arrastaria consigo todos os mercados financeiros.
Para os investidores, essa intervenção criaria oportunidades, uma vez que níveis de taxas tão elevados poderiam dar lugar a uma rápida descida das yields. Ou seja, uma forte valorização da cotação das obrigações em bolsa. Contudo, ainda não se vislumbra esse ponto no horizonte.
Certificados de Aforro voltam a atrair investidores
Para já, em Portugal, os Certificados de Aforro atingiram a taxa de remuneração máxima e os juros de muitos depósitos a prazo estão um pouco mais atrativos (ou, pelo menos, menos dececionantes).
Fundos e ETF de dívida de curto prazo ganham destaque
Lá fora, nos principais mercados de obrigações, o nível de rendimento encontra-se em máximos de décadas, isto é, há muito tempo que as obrigações não propiciavam tantos juros.
Para beneficiar desta situação, mas expondo-se menos ao risco de uma continuada subida das taxas de juro, deve centrar a aposta em fundos e ETF que apliquem em dívida de mais curto prazo.
O segmento de high yield é outra boa opção. O risco de emitente é superior, mas tem resistido bem graças a prazos mais curtos e ao facto de estar a ser menos inundada por novas emissões.