Artigos Tempo de leitura: 6 min.
Publicado em: 07 abril 2026
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Autor: Adelino Gonçalves

Um ano depois das tarifas de Trump: o que mudou para o dólar?

Desde a implementação do novo ciclo de tarifas comerciais promovidas por Donald Trump, o impacto das medidas continua a ecoar na economia global e no dólar americano.  

As tarifas foram prejudiciais ao dólar?

O uso de tarifas comerciais pode ser frequentemente visto como um instrumento de proteção industrial, contudo os seus efeitos sobre moedas são mais complexos e revelam tensões entre política comercial, confiança internacional e fluxos de capital. 

As tarifas impostas pelos Estados Unidos tiveram como objetivo reduzir o défice comercial, proteger setores estratégicos e pressionar parceiros comerciais, especialmente a China. Ao encarecer importações, a lógica era incentivar a produção doméstica e fortalecer a economia interna. 

No entanto, a política rapidamente desencadeou respostas retaliatórias, criando um ambiente de incerteza nos mercados globais. Cadeias de abastecimento foram ajustadas, custos aumentaram e empresas passaram a operar com maior cautela.

O começo da guerra no médio oriente foi benéfico para o dólar? 

Já o início da guerra no Médio Oriente teve um efeito mais direto e, em grande medida, favorável ao dólar no curto prazo. Conflitos geopolíticos desta natureza tendem a intensificar a aversão ao risco a nível global, levando os investidores a procurar liquidez e segurança. Mais uma vez, o dólar surge como principal beneficiário deste movimento, não apenas pela dimensão e profundidade dos mercados financeiros dos Estados Unidos, mas também pela ausência de alternativas com escala comparável. 

Ainda assim, este efeito positivo não é necessariamente permanente. Se o conflito se prolongar e tiver impactos significativos sobre os preços da energia, a inflação global pode intensificar-se, obrigando os bancos centrais a ajustarem a política monetária. Nos Estados Unidos, isso pode implicar uma manutenção de taxas de juro elevadas por mais tempo, o que tende a sustentar o dólar. Por outro lado, um choque energético prolongado pode também abrandar o crescimento económico global, incluindo o americano, o que introduz novas pressões negativas sobre a moeda.

O papel das taxas de juro

Outro elemento crucial foi a política monetária. Se, por um lado, as tarifas criaram volatilidade, por outro, a resposta do banco central influenciou diretamente o valor do dólar. 

Taxas de juro mais elevadas tendem a atrair capital estrangeiro, fortalecendo a moeda. Perceba mais sobre esta mecânica.

Reconfiguração global 

Um ano depois, também se torna evidente que as tarifas aceleraram mudanças estruturais: 

Empresas diversificaram cadeias de produção para fora da China.  

Países emergentes ganharam relevância como alternativas industriais.  

O comércio global tornou-se mais fragmentado.   Para o dólar, isto representa um desafio de longo prazo. Embora continue dominante, um sistema comercial mais multipolar pode, gradualmente, reduzir a dependência global da moeda americana.

Confiança e perceção internacional 

Talvez o efeito mais subtil — mas igualmente importante — tenha sido na perceção dos Estados Unidos como líder económico global. Políticas comerciais agressivas podem ser vistas como sinais de imprevisibilidade, o que afeta decisões de investimento de longo prazo. 

Ainda assim, o dólar mostrou resiliência. Isso revela que a confiança na moeda americana vai além de decisões políticas pontuais: está enraizada na profundidade dos mercados financeiros dos EUA, na estabilidade institucional e na escala da sua economia. 

O aumento das yields da dívida americana, o que significa que os investidores passam a receber uma remuneração maior, também tem sido benéfico, tornando esses ativos mais competitivos em termos relativos. Além disso, durante crises ou momentos de aversão ao risco, há frequentemente uma valorização do dólar, que reforça ainda mais a atratividade desses títulos para investidores estrangeiros.

As reações: após 1 dia e após 1 ano

Impacto face ao dólar (1 dia após o Liberation Day) 

Após o anúncio das tarifas, existiu uma reação mista, com destaque para desvalorização forte do dólar face ao franco suíço (-2,53%), e também face ao iene (-2,13%). O dólar apenas demonstrou valorização imediata, ainda que não muito relevante face á libra (+0,70%). Já contra o yuan chinês o dólar apresentou-se estável. 

Impacto após 1 ano 

USD/EUR (dólar vs euro): -6,46% → perda relevante  

USD/CNY (dólar vs yuan chinês): -5,28% → perda relevante após valorização inicial  

USD/GBP (dólar vs libra esterlina): +2,35% → ganho moderado  

USD/CHF (dólar vs franco suiço): -9,60% → a maior desvalorização  

USD/JPY (dólar vs iene japonês): +6,67% → a maior valorização  

USD/CAD (dólar vs dólar canadense): -2,68% → queda moderada  

Após um ano, as variações indicam um enfraquecimento do dólar face a euro, yuan, franco suíço e dólar canadense, refletindo uma recomposição de fluxos cambiais. 

Em contraste, o dólar valorizou contra a libra esterlina e o iene japonês, o que sugere uma divergência de política monetária e menor atratividade relativa desses mercados.

Em suma

Um ano após a introdução das tarifas, o comportamento do dólar revela um ajustamento mais complexo do que uma simples dinâmica de refúgio. Embora tenha beneficiado ultimamente no curto prazo da incerteza global, da procura por liquidez, e devido a pressões geopolíticas, esse efeito não se sustentou de forma homogénea no tempo. 

A evidência cambial sugere uma depreciação seletiva do dólar americano, visível sobretudo face ao franco suíço (-9,60%), ao euro (-6,46%), e ao yuan (-5,28%), o que aponta para uma erosão relativa da sua posição à medida que os efeitos secundários das políticas — como pressões inflacionistas internas, distorções no comércio e reconfiguração de fluxos globais — se tornam mais evidentes. Em paralelo, a valorização de moedas como o franco suíço reforça a ideia de que o estatuto de refúgio do franco ainda se mantém.  

Por outro lado, o fortalecimento do dólar face ao iene e à libra indica que essa perda de força não é generalizada, mas sim condicionada por divergências de política monetária e fundamentos macroeconómicos específicos de cada economia. 

Além do dólar ter desvalorizado no último ano face ao euro, em períodos de stress significativo nos mercados, os títulos do Tesouro americano retomam rapidamente o interesse dos investidores. O mesmo deve-se não apenas ao seu papel tradicional de ativo de refúgio, mas também ao fato de que os rendimentos das obrigações do tesouro americano tornaram-se mais atrativos do que os oferecidos por títulos europeus e de outros mercados desenvolvidos. 

No nível de renda fixa, as nossas carteiras são dominadas pela dívida do governo dos Estados Unidos, tendo sido penalizadas devido a um dólar fraco ao longo de 2025, contudo esses ativos retomam o interesse dos investidores, com uma maior probabilidade de consolidação ou mesmo recuperação do dólar americano nos próximos tempos.  

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