A Cimeira de Pequim de 2026, envolvendo Donald Trump e Xi Jinping, tornou‑se um dos eventos geopolíticos do ano. Também compareceram 17 CEOs de empresas americanas, sendo 16 delas cotadas.
O encontro decorreu num contexto de tensões sobre Taiwan, controlo de exportações tecnológicas, guerra no Médio Oriente e preocupações económicas globais.
Principais temas discutidos:
-Taiwan como ponto mais sensível da relação EUA–China, com Xi a reforçar que é uma linha vermelha.
-negociações sobre tecnologia, incluindo chips avançados, IA, minerais críticos e possíveis flexibilizações de restrições.
-pressão dos EUA para maior abertura do mercado chinês a empresas americanas, especialmente tecnologia, pagamentos e aviação.
-possíveis acordos comerciais envolvendo aviões, produtos agrícolas e energia.
-discussão sobre estabilidade económica global e cadeias de fornecimento.
Como interpretar as performances das empresas cotadas desde a Cimeira
Após o Beijing Summit, existiram ganhos expressivos em empresas como Cisco e Qualcomm, enquanto Boeing e Micron registaram quedas (no caso da Micron a ação depois disparou mais de 18% no dia 26 de maio, depois do um dia de pausa nos mercados americanos. Os resultados evidenciam variações significativas entre setores e lideranças, algumas empresas beneficiaram do período e outros a perder valor.
No conjunto, as oscilações refletem um comportamento desigual do mercado. Em aglomerado, as 16 empresas (Cargil não está disponível) apresentaram uma performance de 14,80% desde o evento. Contudo, desde o início do ano, estas mesmas 16 empresas já valorizaram agregadamente um total de 352,14%.
Tecnologia e semicondutores
-Qualcomm subiu de forma expressiva (+11,72%) devido a uma reavaliação das perceções da sua utilidade e à procura por chips de IA e à possibilidade de maior acesso ao mercado chinês.
-Cisco valoriza significativamente (+18,20%) porque aumentou os seus objetivos de receitas e depende de cadeias de fornecimento globais e de estabilidade regulatória.
-Coherent cai (-6,47%), possivelmente por estar exposta a componentes sensíveis a restrições tecnológicas, onde o summit não trouxe garantias.
-Meta e Illumina mostraram movimentos ligeiramente negativos (-1,03% e -0,41%, respetivamente) pois o impacto da China no seu crescimento imediato é limitado.
Razões para estes movimentos:
-o summit aumentou expectativas de redução de tensões tecnológicas e possível flexibilização de controlo de exportações.
-o mercado global já estava num forte ciclo de valorização impulsionado por IA.
-empresas ligadas a memória, redes e infraestrutura beneficiam diretamente de qualquer sinal de estabilidade.
Big Tech diversificada
A Apple depende fortemente da China para produção e vendas. O summit reduziu o risco de perturbações, mas não trouxe mudanças estruturais. Daí a subida moderada (+3,33%).
Veículos elétricos e aeroespacial
-Tesla desvalorizou (-4,33%) sendo que o summit não trouxe clareza sobre tarifas, baterias ou acesso ao mercado chinês, num momento em que a concorrência chinesa cresce rapidamente. Elon teve mais do que chance para ajudar a narrativa da Tesla mas a conversa com Larry Fink foi mais em torno de criptomoedas e sobre a tokenização dos mercados financeiros.
-Boeing (-8,97%) desvalorizou apesar de grandes encomendas chinesas como parte das negociações, contudo até ao momento apenas foi conhecido um contrato de compra de 200 aviões.
-GE Aerospace (+2,76%) sobe de forma moderada com a perspetiva de maior estabilidade e potenciais contratos.
Serviços financeiros e pagamentos
Visa (–2.68%), Mastercard (+1.61%), Citigroup (+0.80%), Goldman Sachs (+4.32%)
-o mercado interpretou que Visa (-2,68%) teria mais dificuldades do que Mastercard (+1,61%) pelo facto de não ter havido progressos sobre licenças de pagamentos na China.
-Goldman Sachs (+4,32%) subiu porque lucra com fluxos de capitais e reabertura de canais financeiros. Já o Citigroup reagiu pouco (+0,80%) devido à sua exposição diversificada.
Private equity e gestão de ativos
Apesar da presença dos seus CEO no evento, não houve sinais de abertura significativa para investimentos americanos na China. A correção é pequena e reflete expectativas moderadas. A BlackRock e a Blackstone desvalorizaram ambas, (–1,93% e –0,93% respetivamente).
Performances das cotadas vs performance dos setores
A comparação entre as performances das empresas e os respetivos setores mostra diferenças bastante relevantes no comportamento relativo das ações entre 13 e 22 de maio. Apesar de alguns setores terem apresentado desempenhos modestos, várias empresas conseguiram gerar retornos significativamente superiores aos benchmarks setoriais, evidenciando forte momentum e preferência dos investidores por determinados títulos.
No setor tecnológico, Cisco destacou-se claramente como a empresa com melhor performance relativa de toda a amostra. A ação valorizou 18,20%, superando o índice tecnológico mundial em 17,76 pontos percentuais. Também Qualcomm apresentou um desempenho excecional, com uma subida de 11,72%, muito acima da evolução do setor tecnológico. Apple manteve igualmente um comportamento muito sólido, registando ganhos de 3,33%, ainda bastante acima do benchmark do setor.
Em contrapartida, nem todas as tecnológicas acompanharam esta tendência positiva. Meta ficou abaixo do setor, enquanto Coherent registou uma das piores performances relativas da análise, caindo 6,47% apesar de o setor tecnológico ter permanecido positivo.
Também Micron Technology apresentou uma correção significativa, com um desempenho claramente inferior ao benchmark de semicondutores. Contudo, subiu de 751 para 895 dólares (+19,17% em apenas um dia) após o comentário de Trump dizendo que a empresa é muito boa.
No setor financeiro, a Goldman Sachs foi o principal destaque positivo, com uma valorização de 4,32%, superando confortavelmente o índice bancário global. Visa e Mastercard também conseguiram desempenhos superiores aos respetivos benchmarks financeiros, com maior destaque para a Visa. Por outro lado, BlackRock e Blackstone ficaram claramente abaixo do setor, enquanto Citigroup apresentou uma performance ligeiramente inferior ao índice bancário.
Na indústria aeroespacial, GE Aerospace mostrou resiliência e conseguiu superar o setor. Já Boeing apresentou o pior desempenho relativo de toda a tabela, com uma queda de 8,97% num período em que o setor aéreo subiu 2,84%, traduzindo uma diferença negativa muito expressiva face ao benchmark.
No segmento de biotecnologia, Illumina teve uma ligeira queda, mas ainda assim conseguiu superar o desempenho negativo do setor, demonstrando maior estabilidade relativa.
| Empresa | Desvio Empresa | Desvio Setor | Empresa vs Setor |
|---|---|---|---|
| Apple | 3.3% | 0.4% | 2.9% |
| Tesla | -4.3% | -2.9% | -1.5% |
| BlackRock | -1.9% | 1.7% | -3.7% |
| Blackstone | -0.9% | 1.7% | -2.7% |
| Citigroup | 0.8% | 1.7% | -0.9% |
| Goldman Sachs | 4.3% | 1.7% | 2.6% |
| Visa | 2.7% | 1.2% | 1.5% |
| Mastercard | 1.6% | 1.2% | 0.4% |
| Boeing | -9.0% | 2.8% | -11.8% |
| GE Aerospace | 2.8% | 0.7% | 2.1% |
| Qualcomm | 11.7% | 0.4% | 11.3% |
| Micron Technology | -6.6% | -1.1% | -5.5% |
| Meta | -1.0% | 0.4% | -1.5% |
| Coherent | -6.5% | 0.4% | -6.9% |
| Illumina | -0.4% | -2.2% | 1.8% |
| Cisco | 18.2% | 0.4% | 17.8% |
O principal ponto a destacar desta análise é que o mercado não evoluiu de forma homogénea entre setores e empresas. Mesmo dentro de setores positivos, houve empresas com desempenhos muito divergentes, o que mostra que os investidores estiveram particularmente focados em qualidade, crescimento e momentum específico de cada empresa. As maiores surpresas positivas foram Cisco e Qualcomm.
As melhores performances
A Cisco e a Qualcomm foram as empresas que mais se destacaram das 16, e face aos seus respetivos setores.
A Cisco aumentou significativamente os objetivos de receitas e de lucro por ação para o exercício de 2025/26 (encerra no final de julho), devido a uma procura mais forte do que o esperado, por parte dos gigantes tecnológicos que continuam a investir massivamente em infraestruturas de inteligência artificial. Achamos que ainda não chegou o momento de realizar mais-valias. Se seguiu a nossa recomendação de compra de fevereiro de 2016 e posteriormente de conservar a partir de 2018, a sua rentabilidade em euros foi superior a 20% por ano.
O mercado estava habituado a ver a Cisco como uma empresa “velha” de redes. O que mudou foi a narrativa: os investidores estão a começar a ver a empresa como uma fornecedora crítica para datacenters de IA (switches, routers, optics, SiliconOne, Ethernet AI fabric). Isso provocou uma reavaliação brutal do múltiplo da ação.
Já a Qualcomm subiudevido a um “re-rating” gradual. O mercado começou a perceber três coisas: computadores com IA, segmento de automóveis e uma menor dependência da valorização do segmento smartphones.
A Qualcomm está a ganhar tração nos AI PCs com os Snapdragon X, entrando num mercado antes dominado pela Intel e AMD. No automóvel, a receita cresceu 38% face ao período homólogo, aumentando o interesse dos investidores no pipeline da empresa. Ao mesmo tempo, o mercado deixou de ver a Qualcomm apenas como uma empresa de smartphones Android, passando a valorizar também as oportunidades em edge AI, PCs, automóvel e IoT industrial.
Conclusão
O BeijingSummit de 2026 não resolveu as tensões estruturais que temos vindo a presenciar. Contudo, reduziu o risco imediato de escalada entre EUA e China, o que foi suficiente para impulsionar os setores ligados à tecnologia, semicondutores, aviação e agricultura.
No fundo, o Summit funcionou como um travão ao risco sistémico e como uma plataforma de realização de alguns acordos comerciais, não como uma solução estrutural. E, sendo que os mercadosvivem de expectativas, reagiram ao que mais lhes interessou: a probabilidade de curto prazo de um choque diminuiu, e isso libertou capital para setores que estavam a ser sufocados pela incerteza.
Continuaremos atentos a novas evoluções.