Quando os investidores começavam a digerir um regresso progressivo à normalidade, o risco geopolítico voltou abruptamente ao primeiro plano.
A escalada terá consequências económicas. Resta só saber a dimensão dos efeitos na inflação, taxas de juro e mercados financeiros.
Regresso do risco geopolítico aos mercados globais
Nas últimas semanas, os mercados tinham-se convencido progressivamente de que o conflito estava a aproximar-se do fim. A assinatura de um acordo de princípios permitiu restaurar algum otimismo.
Com esse acordo preliminar, os preços do petróleo regressaram aos níveis anteriores à guerra e as pressões inflacionistas pareciam atenuar-se.
O cenário central apontava para uma normalização progressiva: retoma dos fluxos energéticos, estabilização das cadeias de produção e manutenção das políticas monetárias em vigor.
O fim do cessar-fogo altera radicalmente esta dinâmica.
Após o anúncio de Trump, os mercados energéticos reagiram de imediato. O petróleo voltou a subir, com os investidores a integrarem a possibilidade de uma extensão do conflito a toda a região.
O risco é particularmente elevado para as infraestruturas energéticas do Golfo, das quais depende uma parte relevante da produção global de crude.
Bancos centrais entre crescimento e estabilidade de preços
O primeiro efeito desta deterioração geopolítica será nas taxas de inflação.
Após o acordo EUA-Irão, os bancos centrais podiam equacionar um regresso progressivo a políticas monetárias menos restritivas, graças ao alívio das tensões nos preços da energia. Uma subida sustentada do petróleo coloca, no entanto, este cenário em causa.
Na Europa, esta inversão permite ao Banco Central Europeu validar a sua decisão de aumentar as taxas diretoras e admitir níveis ainda mais elevados.
Nos Estados Unidos, a equação revela-se mais complexa. A Reserva Federal já atua num enquadramento marcado por tensões contraditórias. Por um lado, existe pressão política de Washington para baixar os juros. Por outro lado, o ressurgimento duradouro da inflação reduz significativamente a margem de manobra.
Quanto mais elevado permanecer o preço do petróleo, mais os bancos centrais terão de equilibrar crescimento económico e estabilidade de preços.
Obrigações sob pressão num contexto de procura por capital
O mercado obrigacionista será igualmente impactado por esta nova fase de incerteza.
Nas últimas semanas, as yields registaram uma ligeira descida, refletindo a expectativa de inflação mais moderada. Esta evolução mantinha-se, contudo, frágil. Mesmo antes do agravamento das tensões no Médio Oriente, vários fatores já limitavam o potencial de descida das taxas de longo prazo.
Os Estados intensificam o recurso ao endividamento. Os Estados Unidos continuam a acumular défices significativos. A Europa mobiliza recursos expressivos para defesa e a transição energética. O Japão prossegue políticas de apoio à atividade.
Resultado: a emissão de dívida aumenta, a concorrência por investidores intensifica-se e os juros sobem.
A esta pressão junta-se o setor tecnológico nos Estados Unidos. Os grandes grupos tecnológicos investem montantes sem precedentes na corrida à inteligência artificial. Estes investimentos atingem atualmente centenas de milhar de milhões de dólares e exigem financiamento significativo, quer via mercado obrigacionista quer via ações.
Neste enquadramento, uma queda acentuada e duradoura das yields já era pouco provável. Agora, a subida dos juros nos prazos mais longos é um cenário quase inevitável.
Ações enfrentam incerteza e aumento do custo de capital
Nos mercados acionistas, a retoma do conflito constitui igualmente motivo de preocupação.
A primeira razão prende-se com a incerteza. As empresas dependem de cadeias de produção globais complexas, sensíveis a perturbações logísticas e variações nos custos energéticos. Quanto maior a instabilidade geopolítica, menor a visibilidade sobre a evolução dos resultados.
A segunda relaciona-se com o custo de capital. Ao longo dos últimos trimestres, o crescimento nos Estados Unidos assentou numa vaga significativa de investimento, particularmente em inteligência artificial.
Este modelo é sustentável desde que o financiamento seja abundante e relativamente acessível. Se as taxas permanecerem elevadas, o custo destes investimentos aumenta, pressionando o lucro das empresas tecnológicas, que têm funcionado como motor dos mercados globais. A retoma do conflito representa, assim, um risco para as bolsas.
Estratégias de investimento para um cenário mais volátil
O fim do cessar-fogo surpreendeu os mercados. Os investidores antecipavam uma redução sustentada das tensões energéticas, uma inflação mais controlada e, progressivamente, um alívio das condições financeiras.
A situação permanece volátil e suscetível de rápida evolução, mas, este cenário otimista pode, agora, ser bastante irrealista. Neste contexto, a diversificação torna-se mais importante.
- Evite uma exposição excessiva a ações de um único setor económico ou temática. As cotações das denominadas ações de crescimento (growth stocks) são as mais sensíveis a aumentos das taxas de juro.
E muitos dos temas da moda, como o espaço ou a computação quântica, assentam em empresas que ainda apresentam prejuízos e elevadíssimas necessidades de financiamento.
- Mantenha parte da carteira aplicada em ETF de obrigações de dívida soberana de curto prazo denominada em euros, dólares norte-americanos e coroas norueguesas.
O rendimento atual (yield) encontra-se em níveis muito mais interessantes do que no período pré-covid. É certo que as yields podem subir (penalizando as cotações), mas esse efeito é mais limitado nas maturidades curtas.