Cenário: pior caso
Durante o primeiro choque petrolífero de 1973, essa combinação de problemas, tida como improvável, aconteceu. Para protestar contra o apoio militar dos EUA a Israel, em guerra contra o Egito e a Síria, os países árabes decidiram reduzir as exportações de petróleo.
Em poucas semanas, a cotação do barril passou de 3 para 18 dólares. Os preços no consumidor dispararam e a atividade económica ficou paralisada nos países desenvolvidos. Surgiu então o termo estagflação, combinando as palavras estagnação e inflação.
A estagnação não pode ser combatida de forma simples. Os bancos centrais não conseguem simultaneamente controlar o disparo dos preços e suportar a atividade económica.
Os Governos também dispõem de poucos instrumentos para enfrentar a estagflação. Atenuar a subida dos preços para consumidores e empresas implica um custo orçamental pesado, numa altura em que as receitas fiscais diminuem devido ao abrandamento económico.
Semelhanças e diferenças
A situação atual no Médio Oriente apresenta algumas semelhanças com o choque petrolífero de 1973. No entanto, também existem diferenças importantes. A subida atual do preço do petróleo não é comparável à de há 53 anos.
A intensidade energética das economias desenvolvidas diminuiu significativamente ao longo das últimas décadas. Desde 2005, por exemplo, o consumo de energia por habitante diminuiu 25% na União Europeia. A evolução do preço do petróleo tem, assim, hoje um impacto menor sobre os preços e a atividade económica.
Mesmo em comparação com o último choque energético de 2022, após a invasão russa da Ucrânia, a crise atual apresenta mais diferenças do que semelhanças. Há quatro anos, a economia mundial encontrava-se numa fase de recuperação pós-covid. A procura das famílias era elevada e a escassez de mão-de-obra favorecia a subida dos salários.
A situação é hoje inversa, com uma economia em abrandamento e a inflação estava em queda antes do início da guerra no Golfo.
Duração incerta da crise é o maior problema
Durante os choques anteriores, as autoridades intervieram para apoiar a atividade económica. Contudo, essas intervenções revelaram-se contraproducentes. No prolongamento das políticas dos anos da covid, os Governos europeus gastaram massivamente para amortecer o choque energético de 2022. Tal não impediu o descontrolo dos preços e deteriorou de forma significativa as finanças públicas.
Nos anos 1970, os cortes abruptos de taxas de juro pela Reserva Federal fez disparar a inflação nos EUA tanto, ou até mais, do que o choque petrolífero inicial. Os maus resultados destas intervenções também surgem porque o choque energético tem duração incerta. Se a energia permanece cara apenas durante alguns meses, as perturbações são temporárias.
Uma crise que se prolonga por vários anos esgota rapidamente os meios financeiros dos Governos e a credibilidade dos bancos centrais que privilegiem o apoio à atividade económica em detrimento do combate à inflação. Na ausência de certezas, devem evitar-se reações excessivas. O que é válido para bancos centrais e Governos aplica-se igualmente aos investidores.
Evite decisões precipitadas
Se os preços da energia começarem a normalizar a partir do segundo semestre, a OCDE estima que o crescimento mundial não será muito penalizado este ano. A inflação mundial subirá para 4% (previsão anterior era 2,8%), mas recuará para 2,7% já em 2027. Se este cenário se concretizar, os mercados continuarão a encontrar um bom suporte.
Mas, mesmo num cenário de estagnação, o investidor que já possua uma carteira diversificada terá poucas vantagens em proceder a ajustes significativos.
Isto porque, em períodos de estagflação, a rentabilidade de todos os ativos financeiros fica sob pressão. As obrigações perdem valor devido ao aumento das taxas de juro reais e nominais (inflação).
Por seu turno, há uma menor progressão dos lucros das empresas que abrandam devido ao fraco crescimento económico (menor procura). Mesmo assim, as ações estão mais escudadas porque muitas empresas conseguem aumentar os preços de venda em linha com a inflação.