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Private markets: ameaça real ou risco controlado?

Curso Finanças para Não Financeiros

Devido à incerteza do momento é prudente evitar fundos que aplicam em private debt

Publicado em: 20 março 2026
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Curso Finanças para Não Financeiros

Devido à incerteza do momento é prudente evitar fundos que aplicam em private debt

Private equity e private debt têm sido motores de inovação e crescimento, mas as dificuldades em alguns fundos cria riscos de contágio. 

O papel do private equity na economia 

A lógica do private equity é simples. Trata-se de oferecer financiamento de longo prazo, normalmente cinco anos ou mais, a startups ou empresas jovens. O objetivo de quem concede o financiamento é, muitas vezes, colocar estas empresas em bolsa no futuro quando tiverem a atividade mais sustentada. Nessa altura, os investidores iniciais são recompensados pela sua paciência. 

Por seu turno, o private debt (dívida privada) consiste na atribuição de empréstimos fora do tradicional sistema bancário. 

Estes mecanismos permitem financiar a inovação e dar aos empreendedores os meios necessários para desenvolverem as suas ideias sem as pressões do mercado. 

Na sua melhor versão, estes mercados privados (private market) constituem um pilar essencial do desenvolvimento tecnológico nos Estados Unidos e têm sido uma das bases do seu sucesso. 

No entanto, com o entusiasmo em torno do setor tecnológico e da inteligência artificial, os montantes investidos através destes tipos de financiamento aumentaram significativamente nos últimos anos. 

Naturalmente, este crescimento, aliado às rentabilidades elevadas (e maior risco), tipicamente superiores a 10%, atraiu numerosos intervenientes financeiros.

Crescimento acelerado e abertura a novos investidores

Numa conjuntura favorável, marcada por níveis relativamente baixos de incumprimento e por uma procura persistente de instrumentos com rentabilidade interessante, Wall Street abriu estes fundos a um leque mais amplo de investidores. 

Mas introduziu uma diferença importante: a possibilidade de resgatar capital, frequentemente de forma trimestral, até cerca de 5% do total investido. 

O interesse pelo setor foi elevado. Atualmente, Blackstone, Brookfield Asset Management e Apollo Global Management gerem cada mais de 1 bilião de dólares em private equity. Outros intervenientes, como BlackRock e Blue Owl Capital, também estão presentes. 

Desde a década de 2010, os fundos dedicados à dívida privada desenvolveram-se bastante, a ponto de atualmente representarem cerca de 2,5 biliões de dólares em ativos sob gestão, principalmente norte-americanos. É este mercado que atualmente é o mais problemático.

Pressão sobre os fundos e primeiros sinais de alerta 

Em condições normais, o limite trimestral de 5% é coerente e funciona adequadamente. No entanto, quando algumas empresas devedoras enfrentam dificuldades, acumulam perdas significativas ou correm risco de incumprimento, os investidores tendem a retirar rapidamente os capitais doo fundos. 

As dificuldades financeiras de First Brands, Century Capital e a elevada exposição de alguns fundos de dívida concedida ao setor do software, cujo futuro é incerto face à inteligência artificial, aumentaram as preocupações. 

As entradas de capital estagnaram e os resgates ultrapassaram 10 mil milhões de dólares no primeiro trimestre. Perante esta pressão, BlackRock, Morgan Stanley e outros intervenientes limitaram o acesso aos capitais investidos nestes fundos. O sinal de alerta foi acionado.

Estagflação e impacto no crédito

No contexto atual, começam a levantar-se três problemas: 

- estes fundos representam uma parte reduzida dos ativos sob gestão do private equity, mas contribuíram de forma relevante para os lucros, mais de 10% nos últimos anos; 

- o incumprimento de algumas empresas devedoras poderá desencadear um efeito de contágio, acelerando os resgates noutros fundos e colocando pressão sobre o sistema financeiro. Jamie Dimon (CEO do JP Morgan) afirmou que, quando surge um problema isolado, é provável que existam outros semelhantes. As dificuldades de Blue Owl e a sua forte exposição à dívida do setor ao software e da IA como sinais de um possível aumento dos incumprimentos. 

- os incumprimentos tendem a aumentar quando a economia desacelera e a inflação sobe, elevando o custo do crédito e restringindo o seu acesso. Neste contexto, o conflito no Médio Oriente e o seu impacto nos juros não contribui para tranquilizar os mercados.

Comparação com crises financeiras anteriores 

Para os investidores, a forma como alguns intervenientes de Wall Street estruturaram e redistribuíram produtos de private equity recorda o episódio dos ativos ligados ao imobiliário que esteve na origem da crise financeira de 2007-2009. 

No entanto, importa relativizar. Embora as ações dos principais intervenientes estejam sob pressão, não se observa, nesta fase, um movimento de pânico nos mercados nem vendas generalizadas a preços reduzidos. 

As limitações aos resgates eram conhecidas e desempenham o seu papel num contexto mais difícil. 

Como em qualquer setor em forte crescimento, existe alguma exuberância. Contudo, afirmar que o conjunto do private equity e private debt constituem um problema sistémico seria excessivo. 

É possível que estes fundos venham a ser mais regulados no futuro, mas o seu papel no desenvolvimento económico dos Estados Unidos torna-os difíceis de substituir. Em termos fundamentais, o sistema financeiro permanece sólido e as autoridades norte-americanas mantêm-se vigilantes para evitar choques significativos.

Estratégia de investimento no contexto atual 

Perante a incerteza acrescida, é prudente evitar, nesta fase, fundos que aplicam em private debt. Os investidores que detenham este tipo de ativos devem ponderar a venda caso pretendam reduzir o risco num contexto já exigente. 

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