É inegável que a sustentabilidade é um termo apreciado pela grande maioria dos portugueses, mas, quando se entra na esfera financeira, apenas um em cada dez investe em produtos financeiros sustentáveis.
A larga maioria aplica o dinheiro em produtos de poupança tradicionais (depósitos, títulos do Estado, obrigações, entre outros), revela este nosso inquérito, que resulta de uma parceria entre as associações de consumidores de 11 países: Bélgica, França, Dinamarca, Alemanha, Itália, Países Baixos, Noruega, Polónia, Portugal, Suécia e Espanha.
Isto não significa, no entanto, que os investidores sejam avessos a produtos financeiros sustentáveis. Segundo o inquérito, se tivessem 5000 euros para investir, 40% equacionariam aplicar nestes ativos. Por outro lado, a escassez de informações fiáveis sobre as credenciais "verdes" é o motivo apontado por 60% dos entrevistados para não investir.
Sustentabilidade "não convence"
Apesar de, nos últimos anos, o valor global destes ativos financeiros ter crescido substancialmente, nos últimos trimestres caiu nos EUA e na Europa. A política menos "green" de Trump e o facto de o atual quadro legislativo da UE (regulamento SFDR) não estabelecer requisitos mínimos para investimentos sustentáveis promovem o greenwashing.
Esta estratégia de marketing usada para publicitar produtos sustentáveis que não o são parece estar a minar a confiança entre os investidores. Quatro em cada cinco inquiridos consideram que os produtos financeiros sustentáveis deveriam estar sujeitos a regras rigorosas sobre o que é considerado "sustentável", e as autoridades de supervisão deveriam atuar contra os prestadores de serviços financeiros que vendem produtos enganosos.
Esta convicção é ainda mais forte entre aqueles que investem em ativos financeiros sustentáveis. Há também um forte sentimento de que as alegações de sustentabilidade devem ser suportadas por dados científicos (70%), e que são necessários testes independentes aos investimentos sustentáveis (74 por cento).
O questionário enviado, em maio e junho, a uma amostra representativa da população nacional, com idades entre 25 e 64 anos, reforça a ideia de que a confiança nestes produtos é moderada. Apenas um quinto dos inquiridos afirmou ter total confiança na conformidade legal e no real alinhamento destes ativos com as expectativas de sustentabilidade.
O índice de confiança é maior entre aqueles que já investiram. Pelo menos, 40% estão confiantes de que cumprem leis rigorosas sobre o que pode ser vendido como produto financeiro sustentável. São os mais jovens, até aos 29 anos de idade, os mais propensos a fazerem investimentos sustentáveis.
De salientar que o uso de termos como "sustentabilidade" ou "verde" no nome do produto financeiro influenciou em certa medida a escolha de 71% dos entrevistados que investiram, nos últimos três anos. Um quinto (21%) admitiu que foi determinante para a sua decisão.
Cerca de três quartos (73%) também estão satisfeitos com o ativo financeiro que adquiriram, mas quando questionados sobre o nível de informação recebido – retorno esperado, classe de ativos, custos, informação sustentável e climática, exclusões, política de envolvimento, universo de investimento –, apenas um em cada sete (14%) admitiu estar bem informado em todos os oito parâmetros.
Quase metade respondeu estar apenas razoavelmente informada. No geral, cerca de três quartos estão satisfeitos com as informações recebidas sobre as características financeiras do produto, mas o número cai para 61% quando se trata da sustentabilidade em si dos produtos.
Com efeito, nos últimos 12 meses, 14% dos portugueses responderam que adquiriram ou foi-lhes apresentado um produto financeiro considerado sustentável que não o era, ou era menos sustentável do que pretendia sê-lo.
A falta de critérios claros, a incompatibilidade com as expectativas pessoais de sustentabilidade e o investimento em setores controversos foram as razões apontadas.
Quando questionados sobre como reagiriam se descobrissem que o produto descrito como sustentável não o era de todo ou era menos do que o anunciado, quase metade dos inquiridos (44%) responderam que se sentiriam manipulados, e 36% deixariam de comprar no banco ou sociedade gestora que comercializou o produto. Uma parte relevante (32%) admitiu apresentar queixa.
Em que investem os portugueses?
- Produtos financeiros não tradicionais, mas não sustentáveis: 47%
- Produtos financeiros tradicionais, mas não sustentáveis: 43%
- Produtos financeiros sustentáveis: 10%
Fontes de informação preferidas
Ao investir em ativos financeiros sustentáveis, o banco é, de longe, o principal intermediário. Segue-se a corretora ou plataforma de negociação online e instituições especializadas em investimentos.
No que respeita aos produtos financeiros em geral, os portugueses utilizam, sobretudo, três fontes de informação: funcionários dos bancos ou outro consultor financeiro (53%); site do banco ou de empresas de investimentos (50%); amigos, família e conhecidos (49 por cento).
A grande maioria considera estas fontes muito úteis. Devido à falta de independência e possível conflito de interesse dos funcionários que oferecem o produto, pode ser um erro.
Um em cada quatro investidores também usa redes sociais e assistentes de inteligência artificial, sendo que, para metade, são de grande utilidade. No que respeita à poupança, 21% dos portugueses não conseguem poupar nem investir. Para 7%, investir é demasiado complexo.
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