À medida que os ETF ganham importância, surgem mais receios da sua influência nos próprios mercados. Ao comprarem automaticamente as maiores empresas dos índices, estarão a contribuir para aumentar artificialmente a respetiva valorização?
Porque os ETF conquistam cada vez mais investidores
O sucesso dos ETF não é fruto do acaso. Com uma única transação, permitem investir em dezenas ou mesmo milhares de empresas. Por outras palavras, proporcionam diversificação imediata. E essa está longe de ser a única vantagem: custos de gestão mais reduzidos (TER), transparência e uma gestão simples.
Para muitos investidores, representam uma forma simples de investir a longo prazo sem terem de escolher as ações a comprar. É especialmente por essa razão que são frequentemente recomendados aos investidores iniciantes.
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As críticas mais frequentes aos ETF
Este sucesso suscita, contudo, vários receios. Os mais céticos face ao papel dos ETF apresentam essencialmente três argumentos:
- poderão alimentar uma bolha
- reforçar a concentração de determinados índices
- amplificar as quedas durante as correções bolsistas
Os ETF podem contribuir para uma bolha bolsista?
Ao contrário de um gestor ativo, um ETF não procura identificar as empresas mais promissoras. Limita-se a reproduzir a composição de um índice. Se uma empresa representar 6% de um índice, também terá aproximadamente um peso de 6% no ETF.
Este mecanismo poderá criar um ciclo autoalimentado: quanto mais os investidores compram ETF, mais estes investem nas mesmas grandes empresas, contribuindo para sustentar a respetiva cotação. É esta ideia que está na base dos receios de que os ETF possam criar bolhas.
Como os índices favorecem as maiores empresas
Os grandes índices são geralmente ponderados em função da capitalização bolsista. Quanto mais vale uma empresa em bolsa, maior é o seu peso.
Quando um investidor compra um ETF MSCI World ou S&P 500, uma parte importante do capital é, portanto, investida em alguns gigantes como Apple, Microsoft ou Nvidia, que têm um peso elevado à escala mundial.
Se as cotações destas empresas continuarem a ganhar terreno o respetivo peso aumenta ainda mais, levando os novos investidores de ETF a dedicar-lhes automaticamente uma parcela mais importante da carteira. Este mecanismo pode reforçar a concentração dos grandes índices.
Os ETF amplificam as quedas do mercado?
Outra crítica frequentemente apresentada é que, em caso de forte correção dos mercados, muitos investidores poderão vender os seus ETF. E, como um ETF pode deter várias centenas de ações, alguns analistas receiam que estas vendas agravem os movimentos de queda.
Até à data, as provas continuam limitadas. Os principais episódios de volatilidade observados nos mercados não mostraram que os grandes ETF amplifiquem de forma duradoura as correções bolsistas. E o mercado assistiu a choques assinaláveis nos últimos anos como o "dia da Libertação" de Donald Trump.
Além disso, embora os ETF representem uma parcela crescente do mercado, os investidores ativos continuam a assegurar uma parte significativa das transações. Estes investidores analisam as empresas, publicam recomendações, avaliam a respetiva valorização e decidem comprar ou vender ações.
Sejam fundos, analistas ou particulares, continuam a representar uma parte importante das transações. Desempenham, assim, um papel essencial na formação dos preços.
Debate ainda em aberto
Uma boa dose de ceticismo é saudável para o funcionamento dos mercado. De facto, a influência dos ETF não pode ser simplesmente ignorada porque geram um elevado (e crescente) número de operações de compra e venda.
A verdadeira questão é saber se essa influência se tornou suficientemente importante para impedir que os preços reflitam o valor real das empresas. Os estudos disponíveis não chegar a esse conclusão, mas os ETF continuam a crescer em dimensão e o debate não está encerrado.
O culminar das dúvidas é: se todos investissem apenas através de ETF, quem continuaria a determinar a cotação das ações? É uma questão muito pertinente, mas teórica. Na realidade, estamos muito longe desse cenário e nada indica que se possa vir a materializar um dia.
Porque a concentração dos índices preocupa mais do que os ETF
De momento, o principal debate diz menos respeito aos ETF e mais aos índices que estes replicam. Por exemplo, um ETF que replica o MSCI World dedica atualmente uma parte importante da carteira às ações norte-americanas, em particular às grandes empresas tecnológicas.
Esta concentração não resulta diretamente dos ETF, mas reflete a composição do índice determinada pela capitalização bolsista das empresas.
Por outras palavras, se algumas empresas ocupam hoje uma posição tão importante nos ETF, é sobretudo porque já ocupam uma posição dominante em vários mercados financeiros.
A bolsa de Seul tem sido um mau exemplo desta relação. Apenas duas empresas, essencialmente ativas na produção de memórias, representam mais de metade do valor do índice local.
Quais são os riscos dos ETF para os investidores?
Em bolsa, o risco nulo não existe. No caso dos ETF, o perigo não resultará tanto dos próprios produtos financeiros, mas da forma como são utilizados.
Por exemplo, investir exclusivamente num setor ou tema muito específico, utilizar ETF com efeito de alavancagem ou concentrar toda a carteira num único mercado pode aumentar consideravelmente o risco.
Pelo contrário, um ETF amplamente diversificado, integrado numa estratégia de longo prazo adaptada ao perfil do investidor, continua a ser um instrumento particularmente relevante para investir nos mercados financeiros.
PARA SABER MAIS | Quanto se pode perder com um ETF?
Deve recear investir em ETF?
O sucesso dos ETF levanta questões legítimas e continua a alimentar numerosos trabalhos de investigação. Mas, por enquanto, nada permite afirmar que contribuam para a formação de bolhas ou impeçam os mercados de funcionar corretamente. E a existir, o problema será mais inerente aos mercados em geral do que especificamente para os detentores de ETF.
O principal ponto de atenção deve estar mais centrado nos problemas criados pela concentração de determinados índices, em especial nas grandes empresas tecnológicas, do que com os próprios ETF.
Para o pequeno investidor, o essencial continua a ser construir uma carteira diversificada (exemplo: Fundo DECO PROteste Carteira Global) e adaptada aos objetivos. Utilizados desta forma, os ETF continuam atualmente a ser um dos meios mais simples, acessível e eficaz para investir a longo prazo.