É possível perder 100% com um ETF? Os ETF são menos arriscados do que as ações? Conheça os riscos associados a cada tipo de ETF e as boas práticas para limitar as perdas.
Sim, é possível perder dinheiro com ETF. E, por vezes, muito dinheiro. Durante a grande crise financeira de 2008, os ETF globais, apesar de serem amplamente diversificados, perderam mais de metade do seu valor antes de recuperarem gradualmente e anularem as perdas apenas vários anos depois.
A verdadeira questão não é saber se um ETF é arriscado “por natureza”. É compreender de que depende realmente esse risco, quanto pode perder temporariamente e em que situações uma perda pode tornar-se duradoura.
Um ETF é uma excelente base para investir a longo prazo, desde que se compreenda bem o que está a comprar e não se subestime as possíveis oscilações.
É possível perder 100% do capital num ETF?
Em teoria, sim. Na prática, perder todo o capital investido num ETF diversificado é um cenário extremamente improvável. Para que tal acontecesse, seria necessário que a totalidade dos títulos (ações, obrigações, derivados) detidos pelo ETF perdessem de forma permanente todo o seu valor. Trata-se de um cenário extremo ou mesmo impossível.
No entanto, o nível de risco não é o mesmo para todos os ETF. Depende da natureza dos ativos financeiros na carteira e do nível de diversificação do ETF. Com a proliferação da oferta de ETF é preciso cuidados redobrados.
- ETF de ações globais são amplamente diversificados
- ETF setorial, temático ou dedicado a um único país é mais concentrado
- ETF de obrigações também podem registar quedas significativas se as taxas de juro subirem
- ETF com efeito de alavancagem podem sofrer perdas muito rápidas e acentuadas;
A questão deve ser: “Que tipo de perda é realista para o ETF que estou a considerar comprar?”.
Quanto se pode perder consoante o tipo de ETF?
1. ETF globais: quedas por vezes acentuadas, mas risco limitado pela diversificação
Um ETF global investe em centenas, ou mesmo milhares, de empresas distribuídas por vários países e setores. É o expoente máximo da diversificação no mercado acionista.
Ainda assim, pode registar quedas significativas. Durante a grande crise financeira de 2008, o índice mundial de ações registou uma perda superior a 50% face ao anterior máximo. Foi necessário esperar até 2013 para que o índice regressasse ao nível inicial.
Um ETF mundial pode, portanto, sofrer uma perda temporária significativa, mas a sua ampla diversificação protege-o muito mais.
Desde que o investidor seja paciente, mesmo que tal exija vários anos, as perdas podem ser integralmente recuperadas e dar lugar a ganhos atrativos. Um investimento realizado em 2007, pouco antes da crise financeira, quase quintuplicou de valor até agora.
O exemplo ilustra uma ideia essencial: até um ETF muito diversificado pode recuar significativamente no curto ou médio prazo. A diversificação reduz o risco de perda definitiva, mas não elimina as oscilações dos mercados.
2. ETF setoriais, temáticos ou centrados num país: perdas muito mais pesadas
Os ETF temáticos, setoriais ou focados num único país são muito menos diversificados do que os ETF globais.
Apostar num setor económico específico, numa tendência de investimento ou numa determinada zona geográfica pode ser excelente durante algum tempo, mas também pode produzir resultados muito negativos.
O ETF VanEck Hydrogen Economy (IE00BMDH1538) ilustra bem esta situação. Este ETF investe em empresas ligadas à economia do hidrogénio, uma temática associada à transição energética que despertou grande entusiasmo entre os investidores há alguns anos. Contudo, quando esse entusiasmo desapareceu, a queda foi colossal e o ETF chegou a perder quase 80% face ao seu máximo histórico.
Um dia poderá recuperar parte ou a totalidade dessas perdas. No entanto, investir neste tipo de ETF é uma aposta no sucesso de uma tecnologia específica. Se a temática não corresponder às expectativas, se as valorizações eram excessivas ou se os lucros esperados demorarem a materializar-se, as perdas podem ser muito elevadas ou até definitivas.
Um ETF temático de ações é, portanto, muito mais arriscado do que um ETF de ações globais. Para um pequeno investidor, os ETF temáticos, setoriais ou similares devem representar apenas uma pequena parte numa carteira bem diversificada e não o núcleo da estratégia de investimento.
O exemplo demonstra que um ETF temático não é comparável a um ETF global: é uma aposta num setor específico, com um risco de perda bastante superior.
3. ETF de obrigações: menos voláteis, mas não isentos de risco
Um ETF obrigacionista não é necessariamente um investimento “seguro”. Um ETF que investe em obrigações também pode perder valor, sobretudo quando as taxas de juro aumentam. Quanto maior for a maturidade das obrigações detidas pelo ETF, mais sensível tende a ser a sua cotação às variações das taxas de juro.
O exemplo do Amundi Euro Government Bond 7-10Y UCITS ETF (LU1287023185) demonstra essa realidade. Este ETF investe em obrigações soberanas da zona euro com maturidades entre 7 e 10 anos. Em 2022, numa conjuntura de inflação elevada no pós-pandemia e início da guerra na Ucrânia, as taxas de juro subiram significativamente.
As obrigações já detidas pelo ETF, emitidas numa época em que os cupões eram muito mais baixos, tornaram-se menos atrativas. Como consequência, o seu valor diminuiu.
Resultado: o ETF perdeu cerca de 20% em poucos meses. Desde então, a cotação recuperou gradualmente, mas ainda não regressou ao seu máximo histórico.
Uma queda desta dimensão continua a ser pouco habitual para um ETF investido em obrigações soberanas de elevada qualidade. No entanto, não é impossível. Os investidores que procuram sobretudo preservar o capital devem ter este risco em consideração.
Os ETF obrigacionistas podem continuar a ocupar um lugar relevante numa carteira diversificada, sobretudo quando o horizonte de investimento se aproxima e o investidor pretende reduzir gradualmente a exposição às ações.
No entanto, a escolha do ETF de obrigações é fundamental. Um ETF com títulos de dívida de longo prazo pode continuar a apresentar oscilações significativas, enquanto um ETF investido em obrigações de prazo mais curto será geralmente menos sensível às variações das taxas de juro.
Antes de escolher um ETF obrigacionista, tenha em consideração:
- A duração das obrigações: quanto maior for, maior será o risco de queda em caso de subida das taxas de juro;
- A qualidade de crédito: as obrigações soberanas de países financeiramente sólidos são geralmente menos arriscadas do que as obrigações emitidas por empresas ou as economias emergentes;
- A divisa: se o ETF investir em obrigações emitidas em moedas estrangeiras, por exemplo em dólares, também estará exposto ao risco cambial face ao euro.
O exemplo demonstra que um ETF de obrigações não é um investimento garantido: quando as taxas de juro sobem, o valor das obrigações já emitidas pode recuar de forma significativa.
4. ETF com efeito de alavancagem: os mais arriscados
Os ETF com efeito de alavancagem utilizam instrumentos financeiros derivados para multiplicar as variações diárias de um índice. Por exemplo: ETF x2 procura duplicar o desempenho diário do índice. Um ETF x3 procura triplicá-lo.
Naturalmente, o mecanismo funciona nos dois sentidos. Se o índice perder 10% num único dia: um ETF x2 perderá cerca de 20%; um ETF x3 perderá cerca de 30%.
Estes ETF destinam-se sobretudo a investidores experientes e para especulações de curto prazo. Os restantes investidores devem ficar afastados.
Perda temporária versus perda definitiva: qual a diferença?
Esta distinção é essencial. Quando a cotação de um ETF desce, existe efetivamente uma perda de valor nesse momento. Contudo, essa perda apenas se torna definitiva se vender a posição, se necessitar do dinheiro antes da recuperação da cotação ou se o investimento nunca voltar a atingir o nível anterior.
Por essa razão, o horizonte de investimento é determinante. Um ETF de ações, por exemplo, não é adequado para dinheiro que possa ser necessário nos próximos 5 ou mesmo 10 anos. Num período curto, os mercados podem ser muito imprevisíveis.
Pelo contrário, num horizonte de longo prazo, o investidor tem maior probabilidade de atravessar quedas temporárias e de dar tempo aos mercados para recuperarem, sobretudo quando detém um ETF amplamente diversificado.
Importa, contudo, ser claro: os desempenhos passados nunca garantem ganhos futuros. O facto de os grandes mercados terem historicamente recuperado após as crises não constitui uma garantia absoluta de que o mesmo acontecerá no futuro.
Ações ou ETF: qual é o mais arriscado?
Uma ação individual está exposta a dois grandes tipos de risco:
- Risco específico: uma empresa pode perder quota de mercado, ver os seus lucros cair acentuadamente, ser vítima de fraude, acumular dívida excessiva ou até entrar em insolvência. Se detiver apenas algumas ações, este risco pode ter um impacto muito significativo na sua carteira.
- Risco de mercado: mesmo uma empresa de qualidade pode ver a sua cotação cair significativamente em caso de recessão, crise financeira, subida das taxas de juro, choque geopolítico ou pânico generalizado nos mercados.
Um ETF amplamente diversificado reduz significativamente o risco específico. Se uma empresa enfrentar dificuldades, o seu peso no índice tende a permanecer limitado e, frequentemente, acaba por ser substituída por outra empresa. Por esse motivo, o impacto de problemas numa única empresa é geralmente muito menor.
No entanto, um ETF não protege contra o risco de mercado. Se os mercados mundiais caírem, um ETF mundial também registará perdas.
Então, qual é o mais arriscado?
De forma geral, uma ação individual é mais arriscada do que um ETF mundial diversificado, porque acumula simultaneamente:
- o risco específico da empresa;
- o risco de mercado.
Já um ETF mundial elimina grande parte do risco específico através da diversificação, deixando principalmente o risco associado à evolução dos mercados financeiros.
Por exemplo:
- Uma ação individual pode perder 80%, 90% ou mesmo 100% do seu valor se a empresa falir.
- Um ETF mundial pode sofrer quedas temporárias superiores a 50% durante uma crise grave, mas o risco de perder a totalidade do capital é praticamente impossível devido à diversificação.
Esta é uma das principais razões para começar a construir a carteira com base ETF amplamente diversificados, em vez de tentarem selecionar algumas ações individuais. A diversificação não elimina as perdas temporárias, mas reduz significativamente o risco associado ao desempenho de uma única empresa.