As principais justificações para a valorização recente do ouro assentam nos trunfos tradicionalmente atribuídos ao metal dourado. O primeiro é a concorrência do dólar. Por isso, com as taxas de juro dos Estados Unidos destinadas a descer (e, com elas, o interesse pelo dólar), o cenário torna-se mais favorável para o ouro.
Em segundo lugar, a forte queda das bolsas no início deste mês de agosto provocou uma fuga para ativos de refúgio. Por fim, as eleições nos EUA são sempre um momento de incerteza, o que, juntamente com a situação no Médio Oriente e na Ucrânia, constituem outro fator a favor do ouro.
Novo paradigma?
Contudo, atualmente, esses argumentos parecem pouco convincentes. Os mercados de ações já recuperaram todo o terreno perdido e estão novamente perto dos máximos. Aliás, praticamente desde 2023, as bolsas estão a bater recordes consecutivos.
Por seu turno, o rendimento (yield) das obrigações soberanas dos EUA pode estar a recuar, mas ainda permanecem nos níveis mais elevados desde a crise financeira e não vão recuar para os níveis tão baixos como os anteriores à pandemia. O ouro continuará com uma forte concorrência desse ponto de vista. Por fim, os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente já não são, infelizmente, uma novidade.
Os números também confirmam a mudança. Entre 2004 e 2019, os investidores em euros podiam contar com uma correlação negativa entre o preço do ouro e o mercado de ações global. Um fator crucial para ser uma diversificação eficaz.
Porém, nos últimos cinco anos, a correlação tornou-se significativamente positiva. Ou seja, o ouro começou a “mexer” mais em linha com o comportamento das ações globais, o que reduziu o seu potencial de diversificação de uma carteira de investimento (e de amortecer choques nas bolsas).
‘Desdolarização’
O principal fator para a valorização do ouro assenta agora noutra tendência. Muitos países emergentes têm vindo a diminuir deliberadamente a sua dependência do dólar dos EUA, cujos riscos se tornaram mais evidentes com as sanções à Rússia, após a invasão da Ucrânia. Há receios de que, em caso de conflito, os seus ativos financeiros possam ser congelados pelo Ocidente.
Neste cenário, o ouro constitui uma ótima alternativa para as reservas (além de outros metais preciosos e eventualmente até algumas formas de criptoativos). As reservas da China e da Rússia em ouro mais do que duplicaram em dez anos. Cada um destes países tem, atualmente, à volta de 2300 toneladas, ocupando o 5.º e 6.º lugares do ranking mundial.
Se o ouro pode ter perdido outros trunfos, esta tendência para a "desdolarização" emergente é inexorável e tenderá a suportar o valor do ouro nos próximos anos, independentemente de outros fatores.
Como investir?
A forma mais eficaz de apostar no ouro é através de ETC, produtos muito idênticos aos ETF, mas vocacionados para o investimento em commodities. São negociados em bolsa e seguem a cotação de matérias-primas, nomeadamente o ouro (carteiras constituídas por barras de ouro ou instrumentos financeiros derivados)..
Para investir, destacamos o Xetra-Gold (código ISIN: DE000A0S9GB0). Contudo, a oferta é vasta, e, dada a natureza do investimento, as diferenças entre o desempenho dos vários ETC, entre si e face à cotação do ouro, é reduzida. Por isso, como alternativa, pode optar por produtos como o Invesco Physical Gold (IE00B579F325), iShares Physical Gold (IE00B4ND3602) ou Xtrackers Physical Gold (DE000A1E0HR8).
Veja os nossos conselhos sobre o potencial de outros metais preciosos que têm valorizado na esteira do metal dourado.
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