A Mota-Engil está a emitir 100 mil obrigações com valor de 500 euros cada uma, podendo ainda decidir ampliar o montante da emissão. As obrigações Mota-Engil 2022-2027 têm uma maturidade de cinco anos e uma taxa de cupão bruta de 5,75% - mas com algumas nuances a ter em atenção. O período de subscrição decorre até ao dia 17 de outubro. Deve investir?
Obrigações Mota-Engil 2022-2027 5,75%: principais dados
- Data de Emissão: 3 de outubro de 2022.
- Prazo: 5 anos.
- Data de Reembolso: 20 de outubro de 2027.
- Taxa Anual Nominal Bruta (Taxa de cupão) *: 5,75%
- Taxa Anual Efetiva Líquida (após impostos) *: 4,14%
- TAEL (após dedução de custos; para 10 titulos-5000 euros): 3,88%
- Valor Nominal de 1 obrigação: 500 euros
- Mínimo a subscrever (5 títulos): 2500 euros
- Pagamento dos juros: semestral, a 20 de abril e 20 de outubro
- Notação de risco: não tem.
- ISIN: PTMENZOM0004
Meta sustentável
À semelhança do que aconteceu na última emissão obrigacionista, à taxa de juro (5,75% anual bruta), pode acrescer uma remuneração adicional de 1,25 euros por obrigação, paga na maturidade, caso a Mota-Engil não cumpra uma meta de sustentabilidade a que se está a vincular. Essa meta consiste num rácio de segurança no trabalho, que relaciona o número de acidentes não mortais com baixa com o número de horas trabalhadas pelos colaboradores (com vínculo contratual). Partindo do valor de 4,55 no final de 2021, a empresa propõe-se atingir o valor de 2,76 no final de 2026.
É um conceito interessante, mas o efeito em termos de rentabilidade é mínimo.
Rendimento e Risco
A taxa de cupão bruta de 5,75% traduz-se numa taxa anual efetiva líquida de impostos de 4,14%. Caso seja paga a remuneração adicional, esta taxa cresce para 4,19%. Contudo, há ainda que deduzir as comissões e custos que o intermediário financeiro irá cobrar e que afeta a rentabilidade final para o investidor.
Simulámos a rentabilidade tendo em conta outros custos e comissões que o seu banco ou corretora podem cobrar e chegámos a uma TAEL de 3,88% ou 3,92% com a remuneração adicional. Ou seja, um impacto no rendimento líquido em torno de 0,3 p.p. Muito mais do que isso, e deve ponderar utilizar outro intermediário.
Esta simulação não inclui uma possível comissão de Guarda de Títulos que é cobrada por alguns intermediários financeiros. Tome especial atenção à existência da comissão de guarda de títulos, esta pode afetar muito negativamente o retorno do seu investimento.
Risco elevado
Existiram algumas melhorias operacionais no que diz respeito à saúde financeira do grupo. A dívida financeira líquida passou de 3.3 vezes o EBITDA para 2.6. Um valor que é inferior ao limite máximo recomendado (3 vezes o EBITDA).
A autonomia financeira (proporção do ativo financiado por capitais próprios) também melhorou e está agora nos 10%, mas ainda aquém do mínimo geralmente aconselhado que é de 15% para o setor da construção (este tem um endividamento mais elevado do que a média) e de 30% para a generalidade das empresas.
O rácio de liquidez corrente (relação entre o ativo corrente e o passivo corrente) é inferior a 1, o valor mínimo recomendável, cifrando-se em apenas 0,9.
São valores globalmente fracos, e continuam a deixar as obrigações da Mota-Engil em território high yield / alto risco. Apesar de não possuir notação de risco, tendo em conta a situação financeira da empresa, consideramos que o mais provável seria uma notação em torno de BB (escala S&P), ou seja, o risco é elevado e corresponde a uma categoria de “lixo” que está dois níveis abaixo de uma categoria de investimento de qualidade.
Mota-Engil e o mercado
Utilizámos como referência o índice “Markit iBoxx Euro Liquid high yield BB” que corresponde a obrigações da zona euro com rating de risco BB.
Concluímos que estas obrigações estão a oferecer no mercado uma taxa bruta de rendimento (“yield to maturity” YTM) de 7,37%. Estas taxas têm vindo a subir bastante nos mercados obrigacionistas internacionais nos últimos meses devido à elevada inflação e consequentes atuações dos bancos centrais.
Portanto, o rendimento bruto de 5,75% da Mota-Engil está muito abaixo daquilo que é oferecido no mercado para níveis de risco semelhantes (7,37%).
Uma alternativa “sem risco” seriam os certificados de aforro, utilizando o exemplo anterior (investimento de 5 000 euros a 5 anos) obtemos uma TAEL (Taxa Anual Efetiva Líquida) de 1,82%. Ao comparar com a TAEL destas obrigações (3,88%) verificamos que o prémio de risco é de apenas 2 p.p. Valor francamente insuficiente para compensar o elevado acréscimo de risco assumido ao adquirir estas obrigações da Mota-Engil.
Conselho: Não invista
Estamos perante títulos com um risco bastante elevado para o contexto das obrigações, tendo em conta os fracos indicadores financeiros da empresa, e que pagam um rendimento abaixo das obrigações de risco comparável no mercado da zona euro (5,75% vs 7,37%). Por isso, o nosso conselho é que não invista.
Se, ainda assim, decidir investir, não se esqueça de pedir ao seu intermediário a simulação com os custos incluídos, os quais podem reduzir significativamente a rentabilidade, e pondere bem antes de investir.
Troca de obrigações Mota-Engil
A notícia da nova emissão de obrigações da Mota-Engil veio acompanhada de uma OPT (Oferta Pública de Troca) tendo como objeto até 100 000 obrigações, com o valor nominal unitário de 500 euros e global inicial de até 50 000 000 euros.
As obrigações originais foram emitidas pela Mota-Engil em 28 de novembro de 2018, com reembolso de capital a 28 de novembro de 2022, com taxa de juro fixa bruta de 4,50% ao ano e com o ISIN PTMENWOM0007.
A oferta consiste em trocar cada “Obrigação Taxa Fixa Mota-Engil 2018/2022” por uma “Obrigação Mota-Engil 2027” e um prémio em numerário no valor de 2,375 euros, sendo ainda pagos na Data de Emissão e Liquidação, ou seja, em 20 de outubro de 2022, relativamente às Obrigações Mota-Engil 2022 trocadas, os juros corridos desde 28 de maio de 2022, inclusive, até à Data de Emissão e Liquidação, exclusive, no montante de 8,875 euros. Todos estes pagamentos estão sujeitos a impostos, comissões e outros encargos.
O montante de 8,875 euros em juros corridos a pagar é irrelevante visto ser essa a prática corrente e que caso decida manter as suas obrigações (não trocar) irá receber o juro semestral completo como previsto. Já o prémio de 2,375 euros por obrigação tem uma influência reduzida na TAEL (Taxa Anual Efetiva Líquida) final da nova emissão. As nossas estimativas indicam uma TAEL de 3,88% para quem compra e 3,95% para quem troca.
A troca é vantajosa?
Apesar do pequeno acréscimo de rendibilidade conferido pelo prémio de 2,375 euros por obrigação, o rendimento bruto de 5,75% da Mota-Engil está muito abaixo daquilo que é oferecido no mercado para níveis de risco semelhantes (7,37%).
Assim, o nosso conselho em relação à troca é o mesmo que em relação à aquisição. Não invista. Neste caso, não troque. Estamos perante títulos com um risco bastante elevado para o contexto das obrigações, tendo em conta os fracos indicadores financeiros da empresa, e que pagam um rendimento abaixo das obrigações de risco comparável no mercado da zona euro.
O mais sensato será manter as obrigações que detém atualmente até à maturidade dado que o reembolso ocorrerá já no próximo mês de novembro e depois investir o seu dinheiro noutras aplicações. Por vezes, há a tentação de comparar o rendimento destas obrigações com a remuneração dos depósitos a prazo e Certificados do Estado. Não deve cair nesse erro! Primeiro, porque os níveis de risco são completamente diferentes e muito mais elevado nas obrigações da Mota-Engil. Segundo, porque as taxas de juro estão a começar a subir beneficiando aplicações como os Certificados de Aforro.