Como proteger a carteira de investimentos sem vender os ativos
Uma das aplicações mais úteis dos derivados financeiros é a sua utilização como instrumento de cobertura de risco (hedge). Esta estratégia permite ao investidor proteger temporariamente a sua carteira sem necessidade de vender os ativos que detém.
Esta situação é particularmente relevante quando o investidor se prepara para um período em que não conseguirá acompanhar regularmente os mercados, como acontece durante as férias, uma viagem prolongada ou mesmo por motivos profissionais ou pessoais.
Em vez de vender parte, ou todas as posições e suportar os custos associados, como comissões, eventuais impostos sobre mais-valias ou o risco de perder uma recuperação do mercado, é possível recorrer a derivados financeiros para limitar o impacto de uma eventual queda das cotações.
Exemplo prático: proteger uma posição em ações da Apple
Imagine que a Maria possui 100 ações da Apple, compradas a 280 euros cada e cotadas atualmente a 280 euros cada, representando uma carteira no valor de 28 mil euros.
Dentro de poucos dias vai de férias durante um mês e sabe que não terá disponibilidade para acompanhar os mercados nem para reagir rapidamente caso ocorra uma correção significativa nas bolsas.
Apesar de acreditar no potencial de crescimento da Apple a longo prazo, prefere proteger a carteira durante este período de ausência.
Para isso, compra uma opção de venda (Put) com um preço de exercício de 280 euros por ação e vencimento no final das férias. Para adquirir esta proteção, paga um prémio de 10 euros por ação (1000 euros no total), que funciona como o custo de um seguro.
Ou seja, este contrato de opção de compra tem nele integrado 100 ações.
Cenário 1: o mercado cai e a opção Put compensa as perdas
Durante as férias, o mercado sofre uma correção e, na data de vencimento da opção, as ações da Apple negoceiam a 220 euros.
Sem qualquer proteção, a carteira teria perdido 6000 euros (60 euros por ação em 100 ações).
Como a Maria adquiriu a opção de venda com um preço de exercício de 280 euros, exerce esse direito e vende as ações por esse valor, mesmo com o mercado a negociar bem abaixo desse preço. Ganha assim 60 euros por ação (280 euros − 220 euros), o que totaliza 6000 euros, o que retirando o custo do prémio (1000 euros), totaliza em 5000 euros de lucro com esta opção financeira.
Este ganho compensa grande parte da queda das ações. A perda líquida fica reduzida da seguinte forma:
- perda nas ações: 6000 euros
- ganho na opção: +6000 euros
- prémio pago: −1000 euros
- perda líquida final: -1000 euros
Ou seja, a proteção não elimina a perda, mas faz com que seja reduzida em 83% do que seria sem cobertura (de 6000 euros para 1000 euros).
Cenário 2: as ações valorizam e o investidor mantém os ganhos
Se, pelo contrário, as ações da Apple valorizarem para 320 euros durante as férias, a opção de venda deixa de ter utilidade e não é exercida.
A Maria mantém as ações na carteira e beneficia da valorização da empresa: ganha 4000 euros (40 euros por ação), dos quais subtraem o prémio de 1000 euros pago pela opção, resultando num ganho líquido de 3000 euros.
Neste cenário, o custo da proteção representa o preço pago pela tranquilidade de saber que a carteira esteve protegida durante todo o período de ausência.
Vantagens de utilizar opções Put como cobertura de risco
Porque é que esta estratégia faz sentido? A compra de uma opção de venda permite ao investidor continuar exposto ao potencial de valorização dos seus investimentos, ao mesmo tempo que limita o risco de perdas significativas durante um determinado período.
É uma solução especialmente útil quando:
- o investidor vai de férias e não pretende acompanhar diariamente os mercados;
- a carteira já acumulou ganhos relevantes e pretende preservá-los;
- existe maior incerteza ou volatilidade nos mercados;
- o investidor pretende evitar vender os ativos e manter a sua estratégia de longo prazo.
Opções Put: um seguro temporário para a carteira de investimentos
Na prática, esta estratégia funciona de forma muito semelhante a um seguro. Tal como se paga um prémio para proteger uma casa ou um automóvel contra um evento inesperado, também é possível pagar um prémio por uma opção de venda para proteger uma carteira de investimentos contra uma eventual queda do mercado.
Desta forma, o investidor consegue ausentar-se com maior tranquilidade, sabendo que, caso os mercados sofram uma correção acentuada, parte ou a totalidade das perdas poderá ser compensada pelo derivado financeiro utilizado como cobertura.