Artigos Tempo de leitura: 4 min.
Publicado em: 27 março 2026
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Autor: Adelino Gonçalves

Prop firms: riscos estruturais e limitações

Nos últimos anos, as denominadas proprietary trading firms (“prop firms”) têm registado um crescimento significativo, especialmente junto de investidores de retalho mais jovens.  

Como funcionam as prop firms? 

O modelo operacional destas entidades baseia-se na oferta de programas de avaliação (desafios), através dos quais os utilizadores demonstram competências de trading com o objetivo de aceder a contas financiadas

Após aprovação, o trader é autorizado a operar com capital nominal atribuído pela empresa, recebendo uma percentagem dos lucros gerados, tipicamente entre 15% e 60%.  

Contudo, uma análise mais aprofundada revela fragilidades estruturais relevantes e regras que só são explicadas nas letras miudinhas. Regras essas que impedem não só os mais principiantes de obter lucros, mas também dos mais experientes.

Estrutura de receita e incentivos 

Contrariamente ao que seria expectável num modelo clássico de gestão de capital, a maioria das prop firms — como FTMO, FundedNext ou Apex Trader Funding — obtém a maior parte das suas receitas através de fluxos associados aos próprios utilizadores, e não através da performance de trading. 

As principais fontes de receita incluem: 

Taxas de inscrição em programas de avaliação (challenge fees) 

Custos de reinscrição após reprovação

Subscrições periódicas (mensais ou recorrentes)  

Este modelo cria um desalinhamento de incentivos, na medida em que a rentabilidade da empresa depende predominantemente da elevada taxa de insucesso dos participantes, e não do sucesso dos traders financiados. 

Adicionalmente, os termos operacionais frequentemente incluem restrições rigorosas, tais como: 

Limites de perda diária e máxima estritos  

Restrições temporais de negociação  

Proibição de determinadas estratégias (ex.: news trading, arbitragem, high-frequency trading)  

Condições técnicas potencialmente desfavoráveis (latência, slippage, execução)

Limitações operacionais pós-aprovação 

A obtenção de uma conta financiada não constitui um estado final estável, mas sim uma transição para um regime contratual mais complexo. 

Após aprovação, os traders podem enfrentar: 

Revisões unilaterais dos termos e condições 

Restrições adicionais nos levantamentos de lucros 

Anulação de ganhos com base em interpretações subjetivas de incumprimento 

Encerramento de contas por infrações de baixa materialidade 

Em determinados casos, têm sido reportadas práticas de invalidação de contas lucrativas, o que levanta questões sobre a consistência e transparência dos mecanismos de controlo interno destas entidades.

Enquadramento regulatório 

As prop firms operam, na maioria das jurisdições, fora do perímetro regulatório aplicável a intermediários financeiros tradicionais (ex.: corretoras ou sociedades gestoras). 

Dado que não gerem diretamente fundos de clientes, estas entidades não estão sujeitas a: 

Supervisão prudencial

Requisitos de capital 

Obrigações de segregação de fundos 

Normas rigorosas de conduta e transparência

Este enquadramento permite: 

Alterações contratuais discricionárias 

Suspensão unilateral de contas 

Limitação ou bloqueio de levantamentos  

Risco de descontinuidade operacional sem proteção para o utilizador. 

A Financial Services and Markets Authority (FSMA) já emitiu alertas públicos, nomeadamente em 7 de março de 2024, relativamente aos riscos associados a este tipo de modelo. 

Evidência empírica e taxas de sucesso 

Dados observacionais indicam que entre 90% e 95% dos participantes não conseguem completar com sucesso as fases de avaliação.

Este nível de insucesso é consistente com: 

A elevada exigência dos critérios de risco

A natureza probabilística e volátil do trading de curto prazo 

A potencial otimização das regras para maximizar reprovações 

Considerações finais 

Embora as prop firms não sejam, em si, ilegais, o seu modelo de negócio apresenta características que justificam uma análise crítica: 

Forte dependência de receitas provenientes de taxas de entrada

Incentivos potencialmente desalinhados com o sucesso do cliente  

Ausência de supervisão regulatória robusta 

Opacidade nos processos de validação e pagamento 

Na ausência de uma estrutura regulatória clara e de mecanismos de proteção do investidor, a participação nestes programas deve ser considerada de elevado risco. 

Recomenda-se, antes de qualquer compromisso: 

Verificação da existência de enquadramento legal aplicável (o que raramente acontece neste setor) 

Análise detalhada dos termos contratuais

Consulta de aconselhamento financeiro independente.