Artigos Tempo de leitura: 4 min.
Publicado em: 01 abril 2026
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Autor: Jorge Duarte

Inflação está de volta: 2026 será um novo 2022?

O novo choque energético provocado pela guerra no Médio Oriente levanta receios de um possível regresso da inflação e dos seus efeitos nas bolsas. 

O choque inflacionista de 2022 em perspetiva 

Em 2021 e 2022, a economia global viveu um surto inflacionista. Tratou-se de um choque causado pelas disrupções nas cadeias logísticas durante a pandemia de covid, e, depois, pelo impacto da guerra na Ucrânia nos preços da energia (choques de oferta). Ambos os fenómenos foram acompanhados pelo aumento da despesa pública para atenuar os efeitos negativos destes acontecimentos (maior procura). 

Como pode observar nos dados seguintes, este cenário levou as economias a registar picos de inflação historicamente elevados, refletindo também diferentes níveis de dependência energética, fragilidade cambiai e credibilidade de política monetária. Houve poucos países que conseguiram manter níveis de inflação mais contidos. O que esperar de 2026?

País: Inflação atual --- Inflação máxima 

Turquia: 31,5% --- 85,5% 

Brasil: 3,4% --- 12,5% 

Espanha: 2,3% --- 10,8% 

Zona euro: 1,9% --- 10,6% 

Portugal: 2,1% --- 10,1% 

EUA: 2,4% --- 9,1% 

México: 4,0% --- 8,7% 

Índia: 3,2% --- 7,8% 

África do Sul: 3,0% --- 7,8% 

Indonésia: 4,8% --- 5,9% 

Japão: 1,3% --- 4,3% 

Suíça: 0,1% --- 3,5% 

“Inflação máxima”: taxa atingida em 2022 e na sequência do surto global de inflação pós-covid e invasão da Ucrânia.

Processo desinflacionista em curso 

Depois, sobretudo de finais de 2022, a descida gradual das taxas de inflação para os níveis atuais revela que o ciclo restritivo (subida das taxas diretoras) dos bancos centrais foi eficaz e que os choques iniciais foram, em parte, eliminados. Pode ter sido uma reação tardia, mas funcionou. 

Agora, surge um risco semelhante, um novo choque energético associado à guerra no Médio Oriente. Tal como em 2022, a energia volta a ser o principal contribuinte para inflação através dos preços dos combustíveis e, gradualmente, dos seus efeitos indiretos sobre os transportes e os custos de produção.

2026, um novo 2022? 

O paralelismo com 2022 reside precisamente na natureza do choque. É externo e difícil de controlar pela política monetária sem penalizar ainda mais o dinamismo das economias. 

Ainda assim, existem diferenças relevantes. Primeiro, a maioria dos países parte com a experiência recente de uma crise idêntica. Segundo, as políticas monetárias ainda são relativamente restritivas. Ou seja, as taxas de juro estão em níveis mais elevados do que os observados no início de 2022. 

Nessa altura, as taxas permaneciam em mínimos históricos fruto das medidas de estímulo de recuperação das economias dos efeitos da pandemia. Até Portugal se chegou a financiar nos mercados com taxas de juro negativas. 

Em sentido contrário, a maioria dos países está agora mais endividado, tendo pouca folga para avançar com medidas orçamentais de suporte às famílias e às empresas.

Regiões mais expostas ao novo choque 

Face a 2022 há diferenças. A Ásia está agora mais exposta porque boa parte do fornecimento de petróleo era feito através do Estreito de Ormuz. Alguns países, como a China e a Índia poderão recorrer mais ao crude da Rússia, mas outras economias, como a Coreia do Sul, Japão e países do sudeste asiático, enfrentam uma situação mais crítica. 

A Europa está agora mais bem preparada, nomeadamente a nível de reservas e de diversidade de fornecedores, mas ainda depende das importações de energia, sobretudo do gás natural do Qatar. 

Os Estados Unidos, sendo autossuficientes em energia estão mais protegidos e o seu setor energético sairá beneficiado com a guerra. Contudo, os consumidores norte-americanos não vão ser poupados.

Impacto nos mercados financeiros 

Embora o ponto de partida seja hoje ligeiramente mais favorável, as lições de 2022 não devem ser ignoradas. 

Tal como em 2022, o receio de um novo surto inflacionista já faz subir as taxas de juro de longo prazo, penalizando bastante o valor das obrigações. Nos mercados de ações, a subida dos juros e a perspetiva de um abrandamento global são igualmente negativos para as cotações. 

Logo, os investidores têm dificuldades em encontrar ativos que sirvam de refúgio para a crise 2026 poderá, tal como 2022, ser marcado por uma queda simultânea de ações e obrigações. Neste contexto, as tradicionais estratégias de diversificação poderão não ser tão eficazes. 

E nem o ouro se está a apresentar como uma alternativa. Após uma valorização inédita em 2024 e 2025, a cotação do metal dourado está também em queda desde o início da guerra no Médio Oriente.