Metais preciosos: Oportunidade ou risco?
O interesse pelo ouro levou os investidores a procurar em massa este produto financeiro
O interesse pelo ouro levou os investidores a procurar em massa este produto financeiro
Nos últimos meses, o sobe e desde do preço dos metais preciosos tem sido impróprio para cardíacos. A valorização astronómica está a ser pontuada por fortes correções.
Recentemente, com o deflagrar dos confrontos no Médio Oriente, o ouro chegou a ultrapassar os 5400 dólares a onça, impulsionado pelo sentimento de risco e a procura por ativos seguros.
Nos dias seguintes, porém, os preços caíram. Mais voláteis, a prata e a platina têm vivido uma montanha-russa. Mesmo antes do recente conflito militar, houve sessões de bolsa com ganhos/quedas em torno de 10%!
Estas flutuações não são comuns (ou não deveriam ser) em ativos de refúgio, como seriam os metais preciosos. É natural que se questiona como reagir. Será altura de vender? O ouro é o metal precioso mais interessante, ou haverá outro? Como investir?
Muitos investidores procuram apenas “apanhar o comboio” que gerou ganhos significativos num curto espaço de tempo. Em retrospetiva, pode ter sido uma aposta vencedora, mas isso não significa que tenha resultado numa decisão fundamentada e racional. O chamado FOMO (fear of missing out) é, frequentemente, um péssimo conselheiro em matéria de investimento.
Assim, se o ouro continua a ser um ativo relevante numa carteira diversificada, é fundamental contextualizar o investimento em metais preciosos. A recente valorização acentuada, acompanhada por níveis elevados de volatilidade, sugere a presença de movimentos especulativos no mercado.
Todas as narrativas que têm sido apontadas para a forte subida dos preços são pouco convincentes para justificar a dimensão do fenómeno que atingiu as cotações dos últimos dois anos.
A rapidez e a amplitude das valorizações foram surpreendentes e não podem ser explicadas por uma análise mais fundamental, como a procura industrial, joalharia ou até das reservas dos bancos centrais. Mesmo incluindo fatores psicológicos, como a procura de valores refúgio, as possíveis explicações não batem certo. Vejamos.
- Em 2022-2023, a inflação era muito mais elevada no Ocidente e na maioria dos mercados emergentes do que se observou nos últimos dois anos.
- As taxas de juro estão em níveis bastante acima da década anterior, em termos nominais e reais. Os metais preciosos não geram rendimentos e “concorrem” com as obrigações mais seguras, como as Treasuries dos EUA e os Bunds alemães.
- O “pico” do risco geopolítico aconteceu em 2022 com a invasão da Ucrânia. Uma guerra territorial na Europa e que envolve a segunda maior potência nuclear do mundo.
- O risco de sanções e de congelamento de ativos por parte do Ocidente levou alguns bancos centrais emergentes a apostar mais no ouro, mas essas compras deram-se, sobretudo, em 2022 e 2023 e apenas do metal dourado.
02/03/2026. Variações médias anuais; medidas em euros, isto é, incluindo o efeito cambial face ao dólar
Alguns movimentos mais relevantes da procura tiveram, numa fase inicial, um impacto relativamente contido nas cotações dos metais preciosos. No entanto, esses sinais foram suficientes para desencadear uma forte onda especulativa por parte dos investidores de retalho a nível global, sobretudo a partir do final de 2023.
Com o aumento do interesse pelo ouro, os investidores entraram em massa em produtos financeiros ligados a este ativo, como ETF. A combinação entre procura crescente, contexto macroeconómico incerto e expectativas de corte nas taxas de juros impulsionou o preço do ouro para máximos históricos.
Meses depois, com o preço do ouro já “esticado” e a dar sinais de abrandamento, os investidores voltaram-se para outros metais preciosos, nomeadamente a prata e a platina.
Estes mercados são significativamente menos líquidos do que o do ouro, o que amplifica os efeitos da entrada de capital especulativo. Como resultado, os movimentos de preço tornaram-se ainda mais exacerbados, registando oscilações superiores.
Um valor de refúgio, como o ouro, deve ter baixa volatilidade e pouca correlação com as bolsas. Todavia, durante longos meses, o metal dourado acompanhou a euforia dos mercados de capitais. A prata e a platina seguiram o mesmo percurso, mas com uma volatilidade ainda mais acentuada.
Variações diárias superiores a 4 ou 5% foram frequentes, sinal de que a especulação era o sentimento reinante. O culminar deste fenómeno deu-se no final de janeiro, quando a cotação dos metais preciosos registou quedas brutais em poucos dias. Houve momentos em que o comportamento da prata parecia uma das famigeradas “meme stocks”.
Em suma, a recente correção foi positiva. Paradoxalmente, a melhor coisa que poderia acontecer ao mercado seria… uma descida. Esta permitiria estripar, pelo menos, parte do caráter mais especulativo das cotações e regressar a bases mais saudáveis. Nestes momentos, é essencial dispor de liquidez para comprar (ou reforçar).
Os metais preciosos obedecem às leis de oferta e procura, que explicam parte da valorização. Há ainda um novo fator que ajuda a compreender a tendência e que pode ser considerado estrutural: o protecionismo e o nacionalismo das matérias-primas.
A vontade de certos governos de exercer controlo estratégico sobre os seus recursos naturais gera novos desequilíbrios entre oferta e procura, através da revisão de contratos e da imposição de restrições à exportação. Contudo, não se centra particularmente nos metais preciosos e foram estes que mais valorizaram.
Num contexto em que a oferta já não se distingue pela flexibilidade nem pela abundância (limitações à extração mineira), este fator tende a restringi-la ainda mais. É uma força que continuará a atuar em segundo plano.
Para cada um dos três metais preciosos (ouro, prata, platina), apresentamos um conjunto de ETC dedicados a matérias-primas.
Estes produtos, exchange traded commodities, são muito idênticos aos ETF. A diferença é que as respetivas carteiras são compostas exclusivamente por barras/lingotes do metal. Nesse aspeto, não estão diversificados por dezenas de ativos diferentes como os ETF.
O ouro mantém um papel milenar de reserva de valor. Esse trunfo, embora cada vez mais anacrónico, continuará na mente de todos os investidores.
Segundo o World Gold Council (dados até final de 2025), a procura mundial ultrapassou pela primeira vez as 5000 toneladas. O ouro é utilizado na joalharia (33%), como reserva dos bancos centrais (17%) e como investimento sob a forma de moedas, lingotes e ETF (43%). As aplicações tecnológicas ou industriais representam apenas 7%. O ouro deve ser visto antes de mais como instrumento financeiro e não como metal industrial.
O contexto geopolítico e os elevados níveis de endividamento dos países ocidentais alimentam a incerteza. A desvalorização do dólar torna o ouro mais acessível noutras moedas. Os bancos centrais reforçam reservas para diversificar ativos, muitas vezes em detrimento do dólar.
A adesão em massa dos investidores também contribuiu para os aumentos dos preços. Em 2025, 801 toneladas de ouro foram adquiridas pelos ETF. Esta procura acrescida, num contexto de oferta limitada - poucas novas minas e reciclagem estável - impulsionou os preços.
Para quem pretende investir num metal precioso, o ouro é, claramente, preferível. O fator psicológico de que “traz segurança” continuará a atrair investimentos, e é sempre suportado pela procura dos bancos centrais.
Se a sua volatilidade e correlação positiva com as bolsas diminuir, o ouro pode retomar o seu papel tradicional, permitindo beneficiar do aumento dos riscos geopolíticos e de uma eventual crise financeira global.
O ouro pode representar até 5% da carteira ou um pouco se desejar reforçar a componente defensiva. No entanto, sendo um ativo financeiro, não há garantia de valorização. Ou seja, pode perder dinheiro.
WisdomTree Physical Gold JE00B1VS3770
iShares Physical Gold ETC IE00B4ND3602
Invesco Physical Gold ETC IE00B579F325
Xtrackers Physical Gold ETC DE000A1E0HR8
Xetra-Gold DE000A0S9GB0
A prata registou uma valorização impressionante. Depois de anos de estagnação em torno dos 15-20 dólares, o preço disparou. A meio do ano passado já rondava os 35 dólares. Depois, em pouco meses, ascendeu aos 116 dólares! Agora, ronda os 82. Esta evolução suscita claramente dúvidas de excessos especulativos. Há restrições do lado da oferta, mas a procura da indústria é pouco dinâmica.
A prata é excelente condutor térmico, resistente à corrosão e altamente maleável. De acordo com o The Silver Institute, na procura, a joalharia representa 17%, o investimento 18% e a indústria 59%. Esta última inclui painéis solares, células de combustível, turbinas eólicas e veículos elétricos. Porém, o primeiro setor tem estado sobre pressão dada a mudança de política ambiental nos Estados Unidos. Já a tecnologia das células de combustível tem tido pouco adesão.
Do lado da oferta, desde 2021, a produção e reciclagem são inferiores à procura, gerando défices persistentes. A prata foi classificada como mineral crítico pelo governo dos Estados Unidos, reforçando o seu caráter estratégico.
Após uma subida astronómica em poucos meses, a recente correção aliviou alguma pressão especulativa. Porém, a volatilidade permanece muito elevada.
Não recomendamos o investimento em prata. Contudo, para os mais especuladores que tenham uma boa tolerância ao risco, pode ser uma opção.
WisdomTree Physical Silver JE00B1VS3333
Invesco Physical Silver ETC IE00B43VDT70
Xtrackers Physical Silver ETC DE000A1E0HS6
A platina voltou a destacar-se após anos na sombra. O último grande pico ocorreu em 2008. Em 2020, caiu abaixo dos 800 dólares. Tal como a prata subiu aos céus em poucos meses. Assim, antes da recente correção para cerca de 2100 dólares, chegou a superar os 2800 dólares no final de janeiro.
Também tal como a prata, há constrangimentos na oferta de platina, mas a procura industrial é pouco dinâmica.
Segundo o World Platinum Investment Council, a procura divide-se entre o setor automóvel (36%), indústria (25%), joalharia (24%) e investimento (14%). É um componente essencial nos catalisadores automóveis e desempenha papel relevante nas tecnologias do hidrogénio. São dois setores que têm estado em crise.
Do lado da oferta, desde 2023, o mercado enfrenta défices físicos crescentes. Problemas persistentes na produção sul-africana e forte procura chinesa agravaram a escassez. A China classificou a platina como recurso estratégico e acumula reservas substanciais.
A platina tem permanecido atrás do ouro e da prata, continuando comparativamente subavaliada face a esse dois outros metais preciosos. Mas será que a platina está “barata” ou são os outros metais que estão excessivamente “caros”.
Embora a platina possa ter potencial a longo prazo, tendo em conta os níveis atuais e uma volatilidade elevada, não é aconselhável para os investidores mais prudentes.
Invesco Physical Platinum ETC IE00B40QP990
iShares Physical Platinum ETC IE00B4LHWP62
WisdomTree Physical Platinum JE00B1VS2W53