Fed enfrenta falta de visibilidade económica
A Reserva Federal dos Estados Unidos manteve a taxa diretora no intervalo entre 3,5% e 3,75%. Mais relevante ainda, vários dos seus responsáveis preferem evitar a publicação de novas projeções económicas. A razão é simples: no atual enquadramento, não dispõem de visibilidade suficiente.
Esta situação ilustra um contexto global extremamente imprevisível. As tensões associadas às tarifas norte-americanas, a guerra na Ucrânia e, agora, o conflito no Médio Oriente criaram uma conjuntura em que as previsões se tornaram pouco fiáveis. A subida acentuada dos preços da energia complica ainda mais.
Zona euro prepara possível subida das taxas
Na zona euro, o Banco Central Europeu optou por manter a taxa de referência em 2%, mas já sinalizou que pretende combater a inflação de forma prioritária. Os mercados antecipam até duas subidas das taxas diretoras em 2026.
As projeções mais recentes apontam para uma deterioração da conjuntura, com a taxa de inflação a atingir 2,6% em 2026 e um crescimento do PIB de apenas 0,9%, podendo o cenário ser mais negativo, dependendo da evolução dos preços da energia e do tempo necessário para a normalização do mercado.
Ao contrário da Fed, o BCE não enfrenta a mesma pressão política, o que reforça a expectativa de um maior endurecimento da política monetária.
Bancos centrais optam pelo “status quo”
Além da Reserva Federal dos EUA e do Banco Central Europeu, diversas autoridades monetárias reuniram-se ao longo da semana passada. Sem grandes surpresas, a decisão mais comum foi não proceder a alterações nas taxas diretoras: Canadá (2,75%), Japão (0,75%), Suécia (1,75%), Suíça (0%), Reino Unido (3,75%), Indonésia (4,75%) e China (3%).
Embora enfrentem desafios internos diferentes, a maior volatilidade dos mercados e as incertezas causadas pela guerra e o disparo dos preços da energia não são propícios a outro tipo de decisão.
É cedo para saber o que acontecerá à taxa de inflação e ao crescimento económico. Os bancos centrais não vão querer ser acusados de uma atuação tardia no combate à inflação, como no pós-invasão da Ucrânia.
Porém, subir as taxas de juro de uma forma precoce penalizará excessivamente as economias e os mercados. Até porque, a duração da guerra é incerta. Pode prolongar-se durante meses ou Trump pode, simplesmente e a qualquer momento, declarar vitória sobre o Irão e retirar o aparato militar do Golfo.
Austrália diverge e continua a subir juros
O Reserve Bank of Australia aumentou a taxa diretora de 3,85% para 4,1% depois de já ter realizado uma subida em fevereiro. Assim, o rumo da política monetária da Austrália continua a distinguir-se da maioria das restantes economias, onde o status quo tem sido privilegiado.
A decisão do RBA foi motivada pelo ressurgimento de pressões inflacionistas no segundo semestre de 2025, como a escassez de mão-de-obra no mercado de trabalho e restrições de capacidade. O conflito no Médio Oriente poderá também reforçar os riscos inflacionistas.
Neste enquadramento, o RBA antecipa que a inflação permaneça acima do objetivo durante algum tempo. Porém, a política monetária permanece flexível e preparada para se ajustar conforme necessário, mantendo o foco na estabilidade dos preços e no pleno emprego.
Apesar de um nível de valorização já elevado, a bolsa de Sydney é interessante para carteiras com perfis de investimento mais agressivos.
Brasil inicia ciclo de descida das taxas
O Banco Central do Brasil reduziu a taxa de juro diretora, de 15% para 14,75%, referindo que o período prolongado de manutenção da taxa Selic em 15% permitiu desacelerar a atividade económica. Com efeito, devido ao sobreaquecimento da economia, o Brasil assistiu a um aumento das taxas de juro, entre meados de 2024 e 2025, quando a tendência global era inversa.
Agora, fatores externos, como a guerra no Médio Oriente e a volatilidade financeira global, são os que mais impactam os mercados emergentes no seu conjunto. A nível interno, o crescimento do Brasil está a abrandar, apesar de o mercado de trabalho se manter resiliente. Por isso, a inflação evoluiu favoravelmente, embora permaneça acima do objetivo do banco central.
Há ainda incertezas sobre a persistência da inflação nos serviços, uma eventual depreciação da taxa de câmbio, ou a queda dos preços das matérias-primas.
Embora com um risco superior, sendo um mercado emergente, a bolsa de São Paulo está com rácio de valorização perto da sua média histórica e apresenta um potencial interessante a longo prazo.
Impacto das taxas de juro para aforradores e consumidores
Alguns aforradores poderão beneficiar de taxas de juro mais elevadas, mas este efeito deve ser analisado em termos reais. Nos últimos anos, o aumento das taxas foi frequentemente inferior à inflação, o que reduziu a rentabilidade real do capital.
Além disso, em Portugal, a história tem demonstrado que os juros dos depósitos a prazo oferecidos pela maioria dos bancos tendem a reagir tarde e pouco à subida das taxas do BCE.
Para os consumidores, o aumento do custo do crédito, combinado com um custo de vida mais elevado, constitui um fator negativo. O mercado imobiliário, já fragilizado em vários países, deverá continuar sob pressão. Não é o caso de Portugal.
Consequências para os mercados acionistas
Para as bolsas, uma conjuntura marcada por estagflação tende a penalizar a atividade das empresas e a evolução dos lucros. O aumento do custo do financiamento reduz o investimento e eleva o limiar de rentabilidade dos projetos.
No entanto, na conjuntura atual de alta volatilidade deve evitar tomar decisões precipitadas. Consulte as estratégias mais adequadas para atravessar este momento dos mercados.